Lançado em 1967, “O Caso dos Irmãos Naves” traz a história de real de Joaquim Naves Rosa (Raul Cortez) e Sebastião José Naves (Juca de Oliveira), acusados de latrocínio, na cidade de Araguari, Minas Gerais. A vítima seria Benedito Pereira, primo dos irmãos, que sumiu na madrugada do dia 29 de novembro de 1937. Em dezembro do mesmo ano, o governo à época – o Estado Novo de Getúlio Vargas – determina a troca do delegado do civil de Araguari pelo militar, tenente da Força Pública Francisco Vieira dos Santos (Anselmo Duarte). É quando começa o martírio dos irmãos Naves, submetidos a meses de tortura para que confessem a autoria do crime.

A obra dirigida por Luís Sérgio Person (“São Paulo Sociedade Anônima”) baseia-se no livro escrito pelo advogado de defesa dos irmãos Naves, João Alamy Filho, interpretado por John Herbert. Durante o filme, alternamos entre as sessões de tortura sofrida pelos irmãos e os meandros judiciários de seu caso, a maior parte do tempo focando nas ações de Alamy para inocentá-los. Para ter êxito nessa estratégia, o filme se utiliza de uma montagem precisa de Glauco Mirko Laurelli.

A primeira menção a tortura sofrida pelos irmãos é construída de forma impactante, mas não apelativa. Não vemos o início da ação ou a preparação para a violência. O delegado militar interroga uma testemunha (a primeira do caso) que claramente foi obrigada a mudar sua versão para incriminar os Naves. Ele é induzido a desmentir uma história apresentada pela mãe dos irmãos. Subitamente, temos um corte para imagens da mulher em desespero. Depois, o delegado induz uma acusação a Joaquim Naves e somos apresentados ao homem sendo torturado. A mesma sequência ocorre para o outro irmão.

Essas primeiras cenas de violência são apresentadas sem som, em uma fotografia escura. Pode-se até demorar um pouco para entender a relação entre as imagens, se aquilo acontece naquele momento ou ainda acontecerá, ou se apenas passa na cabeça do homem interrogado, como um atestado de culpa por sucumbir à pressão da autoridade ali presente. De certa forma, as três coisas. Momentos antes do interrogatório, temos uma comemoração de ano novo. “O Caso dos Irmãos Naves” nos indica que a partir dali a vida dos irmãos mudaria para sempre.

 SILÊNCIO SIMBÓLICO

Algo a ser destacado dentro do filme é que os irmãos possuem pouquíssimas falas, e quase nenhuma interação entre si ou qualquer outro personagem além de seus algozes. O advogado de defesa e os desvios da Justiça brasileira à época (ainda bem atuais é bom frisar) ganham um enfoque para o desenvolvimento do enredo da obra, maior do que os próprios irmãos. Person coloca os protagonistas na mesma condição que a sociedade os relegaram, corpos à mercê de uma situação onde são peças centrais, mas não possuem nenhuma força, obrigados a sucumbir à violência.

A partir disso, a figura do delegado, em ótima atuação de Anselmo Duarte (diretor de “O Pagador de Promessas”, Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962) é de vital importância para o assombro do poder estatal perante aqueles homens humildes. A cada aparição do militar em cena sentimos a apreensão pelo futuro dos irmãos, e mais além, somos lembrados das inúmeras injustiças pelas quais este país foi construído.

O único ponto a lamentar na obra de Person é seu final apressado. Não que fosse necessário um arco melodramático para representar a superação das violências sofridas pelos Naves, seria até leviano, após o sofrimento dos mesmos. Mas como o filme foi feito anos depois dos fatos e com um conhecimento bem maior sobre a situação, o final denunciador ao qual “O Caso dos Irmãos Naves” se propõe perde um pouco de força pelo pouco tempo que dura.

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