“- A gente vai apagar a história. 

– Não, a gente vai fazer história” 

Pioneira das produções brasileiras na Netflix, ‘3%’ sempre apresentou como objetivo refletir o Brasil, principalmente, nos aspectos político e social. Desta forma, apesar de existirem temas macro como meritocracia, pobreza e violência, temáticas como pertencimento e racismo também são debatidas – o que só serviu para enriquecer a narrativa ao longo de quatro temporadas. Agora, em seu último ano, a série mostra que alcançou maturidade sobre os temas propostos desde 2016 com direito a momentos marcantes e os devidos desfechos a seus personagens e ao mundo distópico concebido por Pedro Aguilera. 

Diferente de todas as temporadas anteriores, em que cada uma apresentou um local diferente, desta vez, o foco é o embate entre Maralto, Concha e Continente. De um lado, Michele (Bianca Comparato) e seus antigos conhecidos esperam uma oportunidade para neutralizar a tecnologia do Maralto e acabar de vez com o processo, enquanto do outro, o Maralto se encontra fragmentado entre o conselho e André (Bruno Fagundes), iniciando um novo ano de seleção após dar um golpe no conselho. No meio destes dois universos, o Continente se encontra dividid entre quem apoia o fim do processo e quem defende a existência dos 3%, sendo praticamente impossível chegar a um consenso de quem deve mandar no local. 

ARTIGO: “3%: As Relações entre o Brasil atual e a série

Exclusivamente nesta temporada, existem momentos muito bons e marcantes no decorrer dos episódios, com destaque para a delicadeza na direção de fotografia ao capturar a brutalidade da trama (como no capítulo ‘Fogo’, por exemplo). Desta vez, “3%” também decidiu focar bastante em momentos familiares com os irmãos Michele e André e ainda aproveitar os grandes personagens de Joana (Vaneza Oliveira) e Marco (Rafael Lozano) em seu primeiro contato com o Maralto para recorrer às tramas sobre pertencimento e necessidade de associação familiar. 

Ciente de seus últimos episódios como criador da série, Pedro Aguilera aproveita a trama final para homenagear a própria produção através de pequenos flashbacks e áudios de outras temporadas. Da mesma forma, personagens icônicos como Ezequiel são citados, relembrando imediatamente a figura de João Miguel e sua atuação excelente. Além dele, Fernando (Michel Gomes), tão crucial para a narrativa, também é lembrado de forma bonita e simbólica. 

CRÍTICA: “3%” – Primeira Temporada

Assim como seus antigos personagens, a série não esquece as temáticas importantes que fazem associação com seu público e são obrigatórias na narrativa. É praticamente impossível evitar o debate sobre desigualdade social, entretanto, mais camadas desta são abordadas frente aos conflitos da temporada, mostrando que ‘3%’ possui uma narrativa propriamente brasileira, mas não exclusiva, sendo relevante independentemente de onde seja assistida. 

PEQUENOS TROPEÇOS PELO CAMINHO

Algo já mostrado anteriormente e que se tornou explícito nessa temporada foi a falta de protagonismo em Michele. Desta vez, ela fica longe dos momentos mais decisivos na história, em que até mesmo personagens secundários aparecem. Seu local de maior destaque fica destinado à trama com seu irmão André e a diferença entre suas vidas e valores, entretanto, o próprio também não acrescenta muito para a narrativa sendo um personagem unilateral. Felizmente, ambos possuem desfechos condizentes e necessários para encerrar seus desenvolvimentos superficiais. 

Além dos irmãos, Glória (Cynthia Senek) também se apresenta como uma personagem extremamente mal aproveitada. Ela é o exemplo total de alguém que não pode ser melhor aprofundado, pois, perderia seu objetivo, porém, ela cumpre seu principal papel ainda no capítulo três, podendo demonstrar maior sentimento sobre sua escolha grandiosa, mas, ao invés disso, é destinada a reparar um quase furo no roteiro. 

CRÍTICA: “3%” – Segunda Temporada

Sim, o grande ponto de virada no penúltimo episódio, ‘Botões’, também é motivado por Glória e a negligência sobre seu crescimento pessoal. Inclusive, esse capítulo apresenta o ponto mais preguiçoso dos roteiros, apelando para o recurso onde tudo estava perdido até a morte ser novamente superada graças à sagacidade dos personagens. Essas pequenas conveniências nos roteiros para que a trama avance mais rapidamente são até bastante frequentes pelo bem do desfecho proposto pela série. 

Coesão e aclamação 

Embora as soluções nos roteiros pareçam forçadas ou até mesmo improvisadas, “3%” tenta ao máximo fechar seus ciclos e apresentar respostas definitivas – pontos muito importantes quando se trata de uma temporada final. Essa importância aparece desde personagens de tramas paralelas como o casal fundador Laís (Fernanda Vasconcellos) e Elano (Silvio Guindane), os quais sempre aparecem por meio de flashbacks para explicar a fundação do Maralto. Além de possuírem seu desfecho condizente, o casal ajuda na solução da trama principal, uma forma de finalizar a série como um círculo perfeito, sem deixar personagens ou histórias de fora. 

Se até mesmo os personagens menos frequentes são bem explorados, os principais possuem histórias relevantes de serem vistas. O grande destaque volta para Joana e sua trajetória como uma rebelde da Causa e cidadã da Concha que também busca um lugar, uma família para si. Marco é outro personagem o qual acabou conquistando seu espaço e foi destinado a um dos finais mais bonitos e relevantes, finalizando de forma propícia uma narrativa que começou aos tropeços na primeira temporada. Além dos dois, Xavier (Fernando Rubro), Marcela (Laila Garin) e Rafael (Rodolfo Valente) ganham momentos decisivos para a narrativa e o destaque merecido.  

CRÍTICA: “3%” – Terceira Temporada

Buscando um desfecho satisfatório para seus personagens e o futuro do Continente, ‘3%’ termina de uma forma positiva, mas ainda deixando grandes reflexões sobre sua história. A série se despede com um mundo imperfeito onde a desigualdade não é apenas uma realidade, como também um conceito impregnado na mente das pessoas. Porém, mesmo com pensamentos realistas sobre o final, existe muita honestidade em mostrar a intenção por dias melhores, ainda que eles estejam distantes. 

Basicamente, ‘3%’ nos apresenta que o fim ou, pelo menos, a diminuição das diferenças sociais parte da democracia, da escolha coletiva – uma mensagem muito bonita e, vamos admitir, necessária. Mesmo com a montanha-russa de desempenho no decorrer das temporadas, a série se encerra de forma satisfatória e conveniente, reafirmando que foi uma grande injustiçada do próprio público brasileiro o qual, mais uma vez, não acreditou no potencial de uma produção nacional e saiu perdendo um grande conteúdo. 

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