Como todo grande acontecimento no mundo hollywoodiano, o movimento #MeToo não demorou muito para se tornar uma fonte de inspiração para muitas produções no cinema. Seguindo essa proposta, a diretora e roteirista Kitty Green (‘Quem é JonBenet?’) apresenta ‘A Assistente’ com uma narrativa simples e direta, porém, completamente eficaz. 

O longa acompanha Jane (Julia Garner, de “Ozark“), uma aspirante a produtora que conseguiu um emprego como assistente de um poderoso executivo do entretenimento. À medida que os dias passam, Jane passa a perceber todos os abusos envolvendo seu ambiente de trabalho. 

Como protagonista e única personagem realmente bem desenvolvida pela trama, Jane acumula diversas funções no trabalho desde os primeiros minutos do longa. Entretanto, a sensação de incômodo e humilhação só tende a aumentar conforme novos detalhes sobre sua relação com o chefe são reveladas. 

Para retratar um chefe tão tóxico e problemático, Green utiliza uma estratégia a qual eu particularmente sou fã: não mostrar visualmente o personagem, mas sim deixar o público conhecer pequenos detalhes sobre ele. Afinal, os telefonemas furiosos do chefe e e-mails de desculpas de Jane são os únicos momentos de relacionamento direto entre os dois, sendo todo o resto mostrado a partir da ótica de uma assistente, a qual, assim como o espectador, tenta decifrar o quão vil pode ser seu superior.   

A grande combinação de Green e Garner 

Sem grandes personagens para contracenar, Jane cresce diante do público por meio da performance excelente de Garner. A atriz retrata perfeitamente o peso psicológico de sua posição e a suas incertezas ao recorrer ao setor de recursos humanos para falar sobre o comportamento de seu chefe. A cena, inclusive, é um dos grandes momentos do longa graças ao diálogo e boa dinâmica entre Garner e o colega interpretado por Matthew McFadyen com sua postura passivo-agressiva. 

Assim como em ‘Quem é JonBenet?’, Green explora ao máximo a direção de fotografia para criar uma certa melancolia em “A Assistente”. Neste caso, a principal estratégia é destacar o isolamento e solidão de Jane em relação aos seus colegas e ambiente de trabalho. Para completar, o tom melancólico é palpável nas cores predominantemente frias.   

Sem a presença de um final feliz, uma grande reviravolta ou expectativa de superação por Jane, ‘A Assistente’ conta um capítulo da vida de muitas mulheres, seja na indústria cinematográfica, seja em qualquer outro trabalho. A escolha por uma narrativa menos idealista pode até não agradar ao público totalmente, porém, não prejudica em nada tantas qualidades desta produção. 

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