Conhecido por seus dramas peculiares em terras inóspitas, o colombiano Ciro Guerra parte agora para um terreno cobiçado e perigoso para diretores: a grande produção com astros rodada em inglês. No entanto, “À Espera dos Bárbaros”, adaptado do romance homônimo de J. M. Coatzee, encontra no cineasta uma mão adequada para sua trama anticolonialista, ainda que isso signifique o sacrifício de suas tendências mais idiossincráticas.

Esqueça a psicodelia de obras como O Abraço da Serpente – que disputou o Oscar pela Colômbia em 2016 – e o recente “Pássaros de Verão”: aqui, Ciro Guerra abraça a tradição e o formalismo dos grandes épicos para pintar um canvas sobre a sensação de pertencimento em meio ao nada. Se Pássaros de Verão era a sua versão deO Poderoso Chefão, “À Espera dos Bárbaros” é seu “Lawrence da Arábia”. 

O Lawrence de Guerra é um juiz anônimo (Mark Rylance), máxima autoridade de um povoado nos confins de um império antigo também inominado. A paz em que vive é abalada com a visita de um sinistro Coronel Joll (Johnny Depp), mandado pelo governo central para obter informações sobre uma tentativa de invasão dos povos nativos – os “bárbaros” do título.

Quando, aos 14 minutos de projeção, Joll afirma que “a dor é verdade; todo o resto está sujeito a dúvida”, ele sumariza seus métodos tanto para o juiz quanto para o público. Quando ele parte, pouco tempo depois, as sessões de tortura que ele realizou atormentam a mente do juiz, que tenta – sem muito sucesso – obter algum tipo de redenção ao ajudar uma garota (Gana Bayarsaikhan) que foi vítima do coronel. 

Cumplicidade silenciosa em xeque  

É simbólico que, por conta da violência que sofreu, a jovem consiga enxergar o que está ao redor do seu campo de visão, mas não o que está no centro. Coatzee, que adapta aqui seu próprio livro, usa essa condição como uma metáfora da cegueira do protagonista: ele é consciente do seu estilo de vida pacífico, mas falha em perceber que seu status quo é mantido com a mão bruta de um sistema de dominação. A truculência de Joll escancara a sua cumplicidade, iniciando um processo irreversível de percepção interna.

O coronel age, claro, guiado pelo que hoje se convencionou chamar de “segurança nacional”. Com uma ameaça externa servindo de pretexto, Joll tem a chance de impor uma ordem brutal e declarar guerra com pouquíssimo ou nenhum fundamento – não muito diferente do que aconteceu com a segunda Guerra do Iraque, na década passada.

Em um diálogo inspirado aos 45 minutos, o juiz debate com um tenente (Sam Reid) sobre a natureza da relação entre o império e os bárbaros, argumentando que, para os nativos, é só uma questão de tempo para que eles – os “estrangeiros” – partam. O tenente rebate, dizendo que eles não vão embora, ao que o personagem de Rylance treplica: “Você tem certeza?”.

A fala do juiz reflete a visão do famoso poema de Percy Shelley, “Ozymandias“, que ilustra como todos os impérios – e todas as obras da humanidade – perecem com o tempo. A posição do tenente, no entanto, vem carregada com uma dura verdade: em um sistema violento como o colonialismo, a remoção do elemento estrangeiro não é o suficiente retornar um território ao que ele era antes de sua chegada.

Com desconfortáveis subtextos que o tornam atual e pungente, ” À Espera dos Bárbaros” é um lembrete doloroso dos males das ideologias de subjugação sob a forma de um épico clássico. Apesar de ser visualmente mais comedido do que os trabalhos anteriores do diretor, a força e relevância de seus temas valem o ingresso. 

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