Mantendo a fase mais prolífera de sua carreira, desencadeada pelo ganhador da Palma de Ouro em 2011, “A Árvore da Vida”, Terrence Malick está de volta com “A Hidden Life”. O projeto marca seu retorno ao uso de roteiros bem-estruturados – depois do experimentos com filmagens espontâneas que geraram seus últimos filmes – mas não resgata a mágica de seus clássicos, como “Cinzas no Paraíso” e o próprio “A Árvore”.

Malick é para o cinema o que C.S. Lewis (“As Crônicas de Nárnia”) foi para a literatura fantástica – um artista cristão determinado a fazer perguntas sobre as limitações da fé e o desejo humano por transcendência. Esse interesse permeia a obra do cineasta há décadas e, em seu novo longa, ele encontra um prato cheio na história real de Franz Jägerstätter (August Diehl, o coronel nazista Dieter da célebre cena da taverna de “Bastardos Inglórios”), um austríaco que se recusou a lutar por Hitler na Segunda Guerra Mundial devido às suas convicções religiosas e acabou preso.

O protagonista tem ares de mártir logo de cara e, quando o regime lhe impõe a participação em uma guerra que vai contra seus princípios, ele toma uma decisão que faz todos se voltarem contra ele e sua família. Aos 35 minutos de filme, um pintor sacro fala que, com as suas pinturas, ele “cria admiradores, não seguidores” – e fica muito claro, naquele momento, o que Jägerstätter quer ser.

CANSATIVO AO EXTREMO

No entanto, não há desenvolvimento narrativo que justifique as quase três horas de duração. Da última vez em que Malick entregou um filme com mais de duas horas e meia (“A Árvore”), ele almejava alcançar um retrato da vida no universo através de milênios. Em comparação, toda a ação principal de “A Hidden Life” se passa em quatro anos, durante os quais pouco acontece.

A provação do austríaco e, sobretudo, uma história de paixão – mas não há nada aqui que não tenha sido dito de forma mais pungente em outras produções, tais como “A Última Tentação de Cristo” e “Silêncio”, ambos de Martin Scorsese, e “As Bruxas de Salem” de Nicholas Hytner.

Ao invés disso, temos um longo ato de uma hora com o protagonista sofrendo em seu vilarejo e um ainda mais longo ato subsequente de quase duas horas, com ele sofrendo na prisão. Como de praxe, Malick ilustra esse sofrimento com longas tomadas com ênfase na natureza, mas o efeito, ainda que melhor do que em seus trabalhos recentes, distrai mais do que encanta.

Ele é mais eficaz quando ancora suas cenas com questões humanas. A melhor delas – a difícil vida de Fanny (Valerie Pachner) ao ser condenada socialmente pela decisão do marido – rende os melhores momentos do longa. No entanto, eles não sustentam uma obra que parece, como seus protagonistas, procurar respostas impossíveis.

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