Aos nove minutos de “A Última Floresta”, novo longa de Luiz Bolognesi exibido no Festival de Berlim deste ano, indígenas encontram garimpeiros em suas terras e armam uma emboscada para assustá-los. Depois de uma altercação, os indígenas saem vitoriosos e comemoram. A cena poderia pertencer a um filme de faroeste, mas é uma realidade das terras indígenas do Brasil atual – agravada pela atual gestão do país. 
 
Depois de mostrar as consequências da evangelização na comunidade Paiter Suruí em “Ex-Pajé“, o diretor brasileiro agora volta sua câmera para os Yanomamis e sua resistência diante de um inimigo aparentemente onipotente e onipresente: o mundo branco lá fora. O xamã Davi Konepawa Yanomami, uma das maiores lideranças dessa comunidade, conduz “A Última Floresta” e cria um registro empático de uma história de resistência. 
 
O que poderia ser retratado como uma longa entrevista ganha contornos históricos e místicos através do roteiro escrito a quatro mãos por Bolognesi e Konepawa, que se permite vagar livremente por diversos temas. A leve estrutura narrativa da produção remonta o discurso oral, o que permite diversas digressões. 
 
Uma sequência, por exemplo, explora um mito creacionista dos Yanomamis, recriando-o como um romance adolescente elaborado com um incrível senso estético. Retomando a parceria com o diretor de fotografia espanhol Pedro J. Márquez, Bolognesi retrata a floresta como um mundo fantástico à parte. 

“Os brancos não nos conhecem”

A estrela do longa, no entanto, é sem dúvida Konepawa. Com a sabedoria milenar de sua tribo ao seu lado, o xamã é um observador astuto do mundo branco. Quando ele comenta que os Yanomamis dormem bem porque não têm luzes ou carros, é impossível não ver isso como uma crítica ponderada à insone sociedade que o rodeia. 
 
Ele também tem um entendimento preciso sobre o funcionamento do capitalismo ao criticar os trabalhadores que almejam ir às terras indígenas para explorá-las por dinheiro. “Os trabalhadores não vão ficar com dinheiro”, comenta com clareza. A relação entre os indígenas e os citadinos também não escapa à sua análise e ele apela aos jovens de sua aldeia que não partam dali, alertando-os sobre o mundo hostil que nunca os abraçará completamente. Apesar disso, Konepawa sabe que, na hora de lutar pelo seu direito de viver, ferramentas criadas por brancos, como o rádio e até mesmo o cinema, são válidas. 
 
“Os brancos não nos conhecem”, diz ele, em certo ponto do filme. “Não quero chegar [para eles] com comida de festa ou danças tradicionais. Eu preciso ensiná-los nosso modo de pensar”, ele conclui. Nessa missão, “A Última Floresta” é bem-sucedido, provendo uma excelente janela para esse modo de pensar e fazendo um caloroso convite para que se olhe através dela. 

‘Social Hygiene’: distanciamento social físico e metafórico em filmaço

Um filme que reflete perfeitamente os tempos pandêmicos, "Social Hygiene", de Denis Côté, é uma produção que dá um significado completamente novo ao termo "distanciamento social". O longa tornou seu realizador um dos ganhadores do prêmio de Melhor Diretor da...

‘Dois Estranhos’: violência gráfica ganha contorno irresponsável em favorito ao Oscar

Acredito que esse seja um filme que divida opiniões. De um lado, há aqueles que o aplaudem por explicitar a violência contínua sofrida por jovens negros, e, do outro, há aqueles que o taxam de explorador. Vou fazer uma mea culpa e revelar que acho interessante a...

‘Feeling Through’: a boa e velha empatia em belo filme

Quando dou aula nos cursos aqui do Cine Set, sempre digo aos alunos que o cinema é uma máquina de exercitar e desenvolver a empatia. Realmente acredito que quanto mais filmes assistimos, e quanto mais mergulhamos em histórias, com o tempo todos nós passamos a aprender...

‘Tina’: documentário para celebrar uma gigante do Rock

Das várias injustiças cometidas contra Tina Turner - a Rainha do Rock -, talvez a mais louca a persistir até hoje seja o fato de ela não constar como artista solo no Hall da Fama do estilo que rege. Os eleitores da organização podem corrigir esse fato em 2021, já que...

‘Os Segredos de Madame Claude’: desperdício de um ícone em filme tão fraco

Tenho um pé atrás com produções que buscam abordar personagens reais com o intuito de vender diversidade e inclusão. Essa sensação é mais aguda diante de projetos que discutem personalidades femininas como “Maria Madalena” (Garth Davis, 2018) e “Joana D’Arc” (Luc...

‘Amor e Monstros’: pouco mais de ousadia faria um grande filme

Os melhores momentos de Amor e Monstros, parceria dos estúdios Paramount Pictures com a Netflix, estão logo no início do filme. É quando o narrador da história, o jovem Joel, reconta o apocalipse que devastou a Terra e que transformou insetos e animais em criaturas...

‘We’: o cinema como construtor de uma memória coletiva

"We", o novo filme de Alice Diop, é várias coisas: uma lembrança familiar, uma celebração das vidas comuns e uma busca pela identidade da França nos dias de hoje. Acima de tudo, o documentário, que ganhou o prêmio de Melhor Filme da mostra Encontros do Festival de...

‘Chaos Walking’: ótimo conceito nem sempre gera bom filme

Toda vez que se inicia a produção de um filme, cineastas participam de um jogo de roleta: por mais bem planejada que seja a obra e não importando o quão bons sejam os colaboradores que eles vão reunir para participar dela, tudo ainda pode acabar mal. Cinema é...

‘Locked Down’: dramédia na pandemia sucumbe à triste realidade

Dentre tantas situações inesperadas da pandemia da Covid, com certeza, a quarentena forçada foi uma grande bomba-relógio para conflitos conjugais e familiares. Agora, se conviver ininterruptamente com quem se ama já é desafiador, imagine passar semanas, meses dentro...

‘Godzilla Vs Kong’: sem vergonha de ser uma divertida bobagem

Não há como contornar: Godzilla vs Kong é um filme bobo. Todos os filmes “versus” feitos até hoje na história do cinema, com um personagem famoso enfrentando outro, foram bobos, e essa nova investida do estúdio Warner Bros. no seu “Monsterverse” – a culminação dele,...