A premissa tentadora – apresentador de televisão e político que matava por audiência – por si só bastava para despertar o interesse de qualquer pessoa, independente de onde fosse ambientada. “Bandidos na TV”, entretanto, se mostra uma grata surpresa ao questionar o próprio conceito inicial e ampliar o escopo para abranger a tragédia da violência brasileira repleta de tráfico de drogas, violência extrema, interesses políticos e eleitorais e arbitrariedades judiciais.

Dirigida pelo britânico Daniel Bogado (“Unreported World”), “Bandidos na TV” mostra a trajetória de Wallace Souza, apresentador do programa policial ‘Canal Livre’, sucesso em Manaus na década 2000. Com a popularidade em alta e eleito deputado estadual, ele se vê acusado de mandar matar criminosos para aumentar a audiência do programa. Tal esquema teria envolvimento do ex-PM, Moa, e do próprio filho de Wallace, Raphael Souza. A defesa dele é alegar perseguição política, especialmente, do então prefeito de Coari, Adail Pinheiro, acusado de comandar uma rede de pedofilia no município do interior do Amazonas, contando com o apoio do governador do Amazonas na época, o hoje senador Eduardo Braga.

Logo no início do primeiro episódio, o delegado da Polícia Civil, Divanilson Cavalcanti, afirma que Manaus é uma ‘ilha de concreto em meio à Floresta Amazônica”. Tempos depois e por repetidas vezes, está em tela o Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões. Estes choques de contrastes permeiam a narrativa de “Bandidos na TV” ao retratar as idas e vindas de uma história repleta de reviravoltas, muitas vezes, sem lógica. O que surge como indício de inocência, através de uma gravação ou depoimento, logo se transforma em prova de culpa ou o que parecia encerrado, retorna subitamente.

O roteiro estabelecido pela equipe de Bogado e a montagem de David G. Hill são brilhantes ao desenvolver um fluxo de informações compreensível ao espectador sem fazê-lo ficar perdido. Este conteúdo tão rico ilustrado por um acervo histórico ajuda a compensar uma pobreza visual criada para “Bandido na TV” marcada por excesso de imagens de drone (a praga do momento), repetições das mesmas cenas (quantas vezes o delegado Divanilson Cavalcante olha para aquele parede com cara de paisagem ou a repórter Paula Litaiff aparece sentada, muda, somente para colocarem o nome dela?) e as reconstituições à la Linha Direta.

NEM TÃO IMPARCIAL ASSIM

Percebe-se também uma preocupação de “Bandidos na TV” na busca pela neutralidade, ouvindo todos os lados, seja da Força Tarefa formada por membros do Ministério Público e da Secretaria de Segurança Pública quanto do lado do ex-deputado através da família e colegas do Canal Livre, com quase sempre o mesmo tempo de fala. Apesar disso, a construção narrativa permite sim apontar uma tendência da série da Netflix em considerar Wallace Souza como vítima de uma injustiça em decorrência de uma disputa política.

Por mais que não se goste do tipo de político que Wallace representou e representa na política nacional, as evidências de abusos em todo o processo, apresentados por “Bandidos na TV”, são suficientes para questionar todo caso. Vazamentos seletivos de áudios e fotos (onde eu já vi esta história mesmo??), suspeitas de torturas físicas e psicológicas, versões de testemunhas-chaves conflitantes com as oficiais, delações premiadas feitas para o agrado da Força Tarefa tornaram-se comuns.

O ápice atinge-se no relato da prisão da diretora do Canal Livre, Vanessa Lima, no sexto episódio, mostrando a quão arbitrária a situação chegou. Tudo isso aliado as próprias declarações dos repórteres investigativos, advogado e do filho de Wallace, Willace, colaboram para a sensação de que o apresentador fora mesmo vítima da história toda. Por outro lado, o depoimento chocante da ex-repórter Gisele Vaz, no último episódio, traz um contraponto fundamental para uma tentativa de maior equilíbrio.

Mesmo assim, esta quebra da expectativa do público mostra-se como um grande trunfo de Bogado. “Bandidos na TV” oferece ao espectador da Netflix, especialmente ao amazonense tão acostumado com o caso, uma nova ótica e indagações sobre tudo o que vira antes, algo fundamental para uma produção do tipo ao tratar de assuntos tão incômodos.

ECOS NO PRESENTE E FUTURO

Mesmo que se deixe levar momentaneamente pelo discurso de “salvador da pátria” de Wallace ao embarcar na crença de que ele estava lutando contra o status quo do poder (o que passava longe de ser fato vide as próprias imagens ao lado de figuras como Amazonino Mendes e Bosco Saraiva, duas das figuras mais longevas da classe política local) e aponte os erros para Raphael, “Bandidos na TV” encontra sua maior relevância justamente no campo político e social.

Como as emissoras de renome nacional quando chegam ao Amazonas para fazer matérias de denúncia, a produção da Netflix consegue trabalhar sem as mesmas amarras que dificultam o trabalho do jornalismo sério no Estado. O retrato pintado pela série é aquele que sabemos, mas, que, diariamente, somos forçados a seguir adiante sem quase poder contestar sob pena de diversos riscos: um Estado repressor e sua polícia assassina, dominado por grupos políticos interessados no próprio lucro e poder, permitindo a explosão da violência e o crescimento do tráfico de drogas. 

O novo massacre no sistema prisional motivado pelo crescimento nas tensões da disputa pelo domínio da facção Família do Norte apenas simboliza como este panorama trazido em “Bandidos na TV” segue permanente e assim será por um bom tempo. E, Wallace Souza, caso estivesse vivo e fosse inocentado, poderia até se eleger governador com um discurso populista contra “vagabundo” e brincadeirinhas com o Gil da Esfirra a partir de um programa de televisão.

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