Vamos responder logo de cara: Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o último filme da bat-trilogia do diretor Christopher Nolan, é o pior dos três? É.

É um filme com problemas? Sim. Mas é um filme ruim? Longe disso.

Na verdade, quando Nolan foi concluir sua trilogia, as chances estavam contra ele. Muito por sua própria culpa: o filme anterior, Batman: O Cavaleiro das Trevas, fora não apenas um blockbuster de sucesso, mas também um fenômeno cultural. Até quem não curte filme de super-heróis o assistiu. Não é algo que se possa criar de propósito ou repetir. Que dirá superar. Mesmo o primeiro filme da trilogia, Batman Begins, que, muitas vezes, é esquecido por causa do seu sucessor, também era um filmaço e impôs um respeito ainda inexistente a um subgênero do cinema que estava começando a dominar Hollywood. O nível era muito alto.

Para mérito de Nolan, ele, de fato, se esforçou para superar a si mesmo. Se no filme anterior, ele já havia feito uso incrível das câmeras IMAX, cujo formato e resolução são maiores que os de filme 35 mm, em Ressurge, ele já nos impressiona com elas na abertura insana, um rapto em pleno voo que nos apresenta ao novo vilão, o mercenário mascarado Bane interpretado por Tom Hardy. É uma cena arrepiante ainda mais porque sabemos que quase tudo nela foi feito de verdade com dublês malucos se pendurando do lado de fora de um avião que vai se desfazendo ao longo da ação. Não seria exagero dizer que é a melhor cena do filme; a título de curiosidade, ela lembra um pouco um momento da franquia James Bond, a abertura de 007: Permissão para Matar (1989). A inspiração “bondiana” sobre Nolan se revela novamente.

No entanto, essa cena também revela um dos problemas de Ressurge: foi aqui que surgiu a tendência de um design de som esquisito nos filmes do diretor. É sabido que a voz do Bane foi alterada depois que essa abertura foi exibida previamente em cinemas IMAX e as pessoas reclamaram que o vilão era incompreensível. A solução parece ter sido aumentar a voz dele na mixagem, que soa nitidamente mais alta que a trilha sonora e as falas dos outros personagens. Enfim, Ressurge acaba sendo um filme mais barulhento que os anteriores por causa da mixagem e embora isso não chegue a comprometê-lo, foi o primeiro passo de Nolan rumo às estranhezas sonoras em suas obras posteriores.

AS ARMADILHAS DE UM DESFECHO

Enfim… A trama se passa oito anos após os eventos de O Cavaleiro das Trevas. O crime organizado em Gotham foi destruído e a cidade parece em paz. Ninguém mais viu o Batman e Bruce Wayne (Christian Bale) virou um eremita – embora não tenha parado de tentar salvar o mundo, desenvolvendo uma tecnologia de energia que pode e, claro, vai cair em mãos erradas. No entanto, um mal cresce no subterrâneo da cidade com Bane chegando para destruir Gotham de vez. Batman acaba voltando à ação com a misteriosa Selina Kyle (Anne Hathaway) agindo nas sombras. A história pega elementos de HQs famosas do herói, como O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller – com o herói mais velho retornando à atividade – e as sagas A Queda do Morcego e Terra de Ninguém.

Essa história acaba por ser outro problema do filme. Não por apresentar problemas graves, mas por possuir muitos elementos: Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge comete o pecado de muitas “terceiras partes” do cinema e acaba ficando superlotado. Temos a ameaça de Bane, a subtrama de Selina – que nunca é chamada de Mulher-Gato, aliás – o roubo da fortuna de Bruce Wayne, a misteriosa Miranda Tate (Marion Cotillard) e o policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt) aparecendo, a tomada de Gotham…

É muita coisa e para poupar tempo, o roteiro toma atalhos aqui e ali: Blake descobrindo do nada que Bruce é o Batman, a volta do herói para Gotham… O filme até consegue amarrar todos esses elementos e subtramas, mas ao custo de uma duração bem extensa: 2h45. Em O Cavaleiro das Trevas, o espectador ficava cansado ao fim da sessão por causa da intensidade da experiência. Já em Ressurge, só fica cansado mesmo.

CLIMA DE INSATISFAÇÃO SOCIAL

No entanto, percebe-se neste terceiro capítulo uma disposição do diretor e seus co-roteiristas Jonathan Nolan e David Goyer em adotar um tom mais político. É um filme com um posicionamento um pouco estranho e incomum para um blockbuster, pois mostra o 1% de Gotham como alheio à cidade e distante e a revolução do Bane como algo falso e populista, com o vilão literalmente insuflando as massas a se rebelarem contra a classe superior. E o herói da história é um Bruce Wayne que perde tudo, deixa de pertencer àquela classe privilegiada pela sua própria arrogância e acaba renascendo.

Claro, assim como o subtexto da guerra ao terror no longa anterior, essa discussão política não é aprofundada no roteiro, nem seu posicionamento fica tão claro. Mesmo assim, na época do lançamento, o movimento Occupy Wall Street ainda estava muito fresco na memória. Tivemos até as manifestações aqui no Brasil! Havia um clima de insatisfação e de caos em algumas cidades do mundo e a narrativa espelhou um pouco desses sentimentos.

O longa, em alguns momentos, parece até prever o clima de polarização e de fake news de anos depois. Afinal, uma das primeiras providências do Bane é revelar a mentira sobre o que aconteceu com Harvey Dent no anterior.

 O MENOS HERÓICO DA TRILOGIA

Num cenário tão caótico, o que um herói pode fazer? Especialmente um mais humano, como o Batman? É curioso notar como, desde Begins, Nolan e os roteiristas sempre se esforçaram para mostrar Bruce Wayne como uma força do bem, apesar de maluco: um homem bom que vem de uma linhagem de homens bons – há uma fala do Alfred no primeiro filme sobre como um bisavô do Bruce ajudou escravos a fugirem durante a Guerra de Secessão. Desde o começo, ele é caracterizado como o único ricaço da cidade que se preocupa com Gotham e faz algo a respeito dela.

Há outros “heróis proletários” na trilogia, como Gordon e neste aqui, Blake, ambos sempre valorizados por Nolan. Afinal, em nenhum dos filmes, o Batman salva o dia completamente sozinho e essa visão de valorizar o “homem comum” em meio à pirotecnia e os elementos “maiores que a vida” que os três filmes possuem, é refrescante. Ao final, é uma cidade que se une contra o mal, impulsionada por um símbolo – essa é o aspecto do Batman que Nolan e outros que trabalharam com o personagem, como Frank Miller em O Cavaleiro das Trevas, compreendem.

Então, este é um filme de super-herói que não valoriza tanto assim a figura heroica ou, pelo menos, reconhece acima de tudo a sua importância simbólica. Ele valoriza o coletivo, e não tanto o individual. Em tempo de tela, proporcionalmente, deve ser dentre os três o que o Batman menos aparece – isso talvez ajude a explicar a antipatia que alguns fãs têm por ele, e claro, o fato dele não conseguir superar seu predecessor.

Apesar disso, Nolan não se esquece de dar ao público momentos antológicos, como fez nos anteriores. Toda a sequência do retorno do Batman, filmada em IMAX, desde o assalto à bolsa de valores até a aparição do Morcego, o novo veículo voador do herói é cinema-espetáculo da melhor qualidade. Assim como a dramática e poderosa luta na qual Bane quebra o Batman, o salto de Bruce Wayne e a batalha final. O dinheiro gasto está na tela.

QUALIDADES MAIORES QUE DEFEITOS

A respeito disso, outra coisa que estava contra o diretor na hora de fazer este terceiro filme era justamente o seu senso de finalidade: Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge tinha a missão de inventar um fim para um personagem que nunca acabará, nem nos quadrinhos nem em outras mídias. Qual seria o fim do Batman?

Particularmente, gosto do final que Nolan inventou: se você quer tornar seu herói – e por extensão sua trilogia – icônicas na memória do público, mandá-lo na direção do nascer do sol carregando uma bomba atômica é um jeito certeiro de fazer isso. Se Bruce Wayne é um sujeito eternamente preso na sua infância abortada, fazê-lo crescer e achar a felicidade junto de uma mulher é o jeito de torná-lo adulto. E quando ele se torna adulto, não sente mais a necessidade de ser Batman.

Infelizmente, outros momentos de Ressurge também se tornaram icônicos, como a morte esquisita da personagem da Marion Cotillard. E há diálogos bobos aqui e ali. Mas as qualidades superam as já referidas falhas. O elenco inteiro se mostra focado, com destaque para Michael Caine emocionando em momentos-chave, Bale sentindo o peso da história e um destemido Hardy, que não se intimidou em suceder Heath Ledger, além da carismática Hathaway e do sempre humano e intenso Oldman.

É de se imaginar como seria este filme, aliás, se Ledger não tivesse morrido. Um novo embate entre Coringa e Batman seria algo praticamente certo e talvez tivesse explodido mentes de novo. Mas não dá para julgar o filme que poderia ter sido, apenas o que é, e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge tem seus defeitos e sofre da síndrome da terceira parte. Porém, esse subtexto do coletivo, da ideia de que a função do herói é mais inspirar do que resolver todos os problemas, é o que dá coesão à trilogia de Christopher Nolan como um todo, e essa unidade faz dela uma das maiores realizações que Hollywood já produziu com personagens de histórias em quadrinhos. Em alguns momentos, o filme quase desaba sob o próprio peso, mas assim como seu protagonista, ele resiste. É ambicioso e até um pouco ousado, como muitos desses filmes geralmente não são, e é um desfecho digno e honrado para um personagem que nunca terá direito a um. Mas por um momento ele teve e se despediu do único jeito possível: desaparecendo e inspirando outros a fazer a sua parte.

CRÍTICA | ‘In a Violent Nature’: tentativa (quase) boa de desconstrução do Slasher

O slasher é um dos subgêneros mais fáceis de se identificar dentro do cinema de terror. Caracterizado por um assassino geralmente mascarado que persegue e mata suas vítimas, frequentemente adolescentes ou jovens adultos, esses filmes seguem uma fórmula bem definida....

CRÍTICA | ‘MaXXXine’: mais estilo que substância

A atriz Mia Goth e o diretor Ti West estabeleceram uma daquelas parcerias especiais e incríveis do cinema quando fizeram X: A Marca da Morte (2021): o que era para ser um terror despretensioso que homenagearia o cinema slasher e também o seu primo mal visto, o pornô,...

CRÍTICA | ‘Salão de baile’: documentário enciclopédico sobre Ballroom transcende padrão pelo conteúdo

Documentários tradicionais e que se fazem de entrevistas alternadas com imagens de arquivo ou de preenchimento sobre o tema normalmente resultam em experiências repetitivas, monótonas e desinteressantes. Mas como a regra principal do cinema é: não tem regra. Salão de...

CRÍTICA | ‘Geração Ciborgue’ e a desconexão social de uma geração

Kai cria um implante externo na têmpora que permite, por vibrações e por uma conexão a sensores de órbita, “ouvir” cada raio cósmico e tempestade solar que atinge o planeta Terra. Ao seu lado, outros tem aparatos similares que permitem a conversão de cor em som. De...

CRÍTICA | ‘Um Dia Antes de Todos os Outros’: drama naturalista não supera pecha de inofensivo

Pontuado por lampejos de qualquer coisa singular, Um dia antes de todos os outros é a epítome do drama independente naturalista brasileiro contemporâneo. A simplicidade de um conceito: um dia para desocupar um apartamento que coloca quatro mulheres diferentes nesse...

CRÍTICA | ‘Ivo’: simplismo naturalista leve para lidar com temas muito pesados

Enfermeira e ceifadora, a personagem título de Ivo expressa pela atriz Minna Wündrich tudo o que o filme é. A morte como elemento constante e sem cerimônia. A inevitabilidade da vida tratada com leveza mas não tanto. Com seriedade mas não tanto. Com um humor que não...

CRÍTICA | ‘Baby’: Existe amor em éssipê

O recomeço é sempre um processo difícil. Para muitos garotos ainda no fim da adolescência ou no início da vida adulta, ele é ingrato por natureza. Em “Baby”, o diretor Marcelo Caetano parte de um recomeço forçado para contar uma história de sobrevivência e encontro....

CRÍTICA | ‘Não existe almoço grátis’: doc. sobre cozinhas solidárias do MTST fica no arroz com feijão bem feito

Filme de estreia de sua dupla de diretores, Não existe almoço grátis meio que não erra em nada. É um documentário que consegue o que quer no retrato de suas três personagens principais como exemplos da pluralidade da cozinha solidária do MTST. Que apresenta bem o...

CRÍTICA | ‘Um Tira da Pesada 4’: o filme mais preguiçoso da temporada

Quarenta anos depois, a cidade de Detroit continua feia e o astro Eddie Murphy muito engraçado... e preguiçoso. Este Um Tira da Pesada 4: Axel Foley, nova continuação do sucesso de 1984 que transformou Murphy em mega astro mundial, chega à Netflix como um exercício de...

Review ‘Beverly Hills Cop: Axel F’: The Laziest Film of the Season

Forty years later, the city of Detroit remains grim, and star Eddie Murphy remains very funny... and lazy. This latest installment, "Beverly Hills Cop: Axel F," a new sequel to the 1984 hit that turned Murphy into a global megastar, arrives on Netflix as a nostalgia...