Querido e gentil leitor, chegamos ao fim da era Polin. 

Preciso compartilhar que uma mescla de sentimentos me assolam neste momento. Me sinto feliz por ter visto Penélope sair do casulo e assumir seu lugar como borboleta, enganada pelas poucas cenas Polin nesse segundo momento e reflexiva sobre os rumos que “Bridgerton” pode tomar. Todos esses pensamentos, contudo, me conduzem a conclusão de que essa segunda parte, por mais que eu quisesse, não se tratou do casal principal, mas de Penelope. 

Enquanto na parte um vimos Colin perceber que estava apaixonado por sua melhor amiga, os últimos quatro episódios se concentraram na terceira filha de Portia em sua aceitação no seio familiar, a busca por se reconciliar com o amado e viver seu amor em plenitude e conciliar a carreira com o casamento. Polin, então, tornou-se apenas mais um elemento dentro das variadas dimensões do universo de Penelope Featherington. Ao mesmo tempo em que gosto da trilha de Jess Brownell, sinto que algo foi me tirado. Afinal, tivemos migalhas de Kanthony, o que garante que na próxima temporada não verei apenas o casal de escritores dando a mão e pronto? 

Não sofrerei por antecipação porque Shonda Rhimes gosta daquilo que todos nós gostamos ($$$) e, convenhamos, se número é o que importa para Netflix e o Shondaland, Polin rendeu a temporada mais vista de “Bridgerton” em menos dias no serviço de streaming, afora o sucesso na turnê de divulgação. Um êxito que dificilmente se repetirá, considerando a tangível cumplicidade entre Nicola Coughlan e Luke Newton, responsável por boa parte do apego dos fãs e apreciadores da temporada. Não cabe a esta crítica se meter no trabalho do produtor ou diretor, mas se Shonda quisesse um conselho meu, diria para investir num spin-off do casal. 

A ASCENSÃO DE PORTIA

A showrunner já comentou que Penelope é a personagem com quem mais se identifica no seriado e é fácil perceber o porquê, principalmente dado a forma como essa segunda parte trabalhou suas escolhas e relações. Demos adeus àquela figura fragilizada, que se escondia pelos cantos. Seu desabrochar, contudo, é o pontapé para o centro do debate dos últimos quatro episódios: a percepção feminina. Por meio de personagens femininas diferentes e em momentos soltos vemos a discussão sobre o peso de ser mulher na alta sociedade londrina. Isso já havia sido debatido em “Rainha Charlotte”, mas as nuances apresentadas aqui são bem mais capilarizadas. A narrativa investe em algo que Elena Ferrante é notória pela sua tetralogia napolitana: a relação entre mulheres e como isso abarca a sociedade em que vivem. 

O curioso é como as duas tramas também bebem de relações matrifocais e o peso que estas tem na vida das mulheres. Nesse sentido, Araminta e Portia contrabalanceiam a equação. Ambas são mães que querem dar sustentáculos as filhas, mas tem as mãos atadas pelo patriarcado. Cressida experimenta aquilo que Penelope enfrentou a vida toda: a dor de estar sozinha, sem saber com quem contar. Uma dor que não se movimenta da mesma forma em homens e mulheres, por isso quando Colin quis se colocar em seu lugar, é da boca da falsa Whistledown que vemos o discurso sobre o privilégio masculino tão marcante no livro. De certa forma, a escolha de Brownell para a personagem a humanizou.

Nesse caminho, a figura que mais cresceu foi Portia. A mãe de Penelope já apresentava tridimensionalidade nas temporadas anteriores, sendo na tentativa de se livrar de Marina ou de manter o nome da família. Aqui, finalmente, temos a oportunidade de vê-la chegar ao seu apogeu ao lado da filha mais parecida e reconhecer tal fato. O acertar de ponteiros entre ambas influencia a dinâmica da casa Featherington, modificando a relação entre irmãs, por exemplo. Portia é uma lutadora, sobrevivente e a temporada dá a ela finalmente sua redenção. A parceria entre ambas e de Penelope e Eloise é um dos grandes momentos de “Bridgerton”, porque permite que a personagem principal tenha o apoio necessário para se defender e galgar seu espaço e, diferentemente do livro, ela mesma ser a sua salvadora. Claro, Colin é peça fundamental neste processo, mas a própria série os distancia enquanto aproxima as duas de Penelope. 

CICLO ENCERRADO

O roteiro, contudo, me deixou com duas sensações dualistas. Por um lado, há a sensação de finalização, uma vez que conhecemos Polin desde a primeira temporada e, enfim, pudemos curtir o amor de Penelope ser correspondido por Colin, ao mesmo tempo em que toda a sociedade conhece agora Lady Whistledown, finalizando o plot dela com a rainha, e outras questões também parecem ter encontrado uma solução. 

Talvez eu esteja em luto pelo fim da era Polin, mas é como se realmente um ciclo tivesse sido encerrado. Por outro lado, Eloise, Benedict e Francesca tem um longo percurso para terem suas histórias românticas acontecendo e preciso salientar que gostaria de assistir a dinâmica de Colin e Portia, agora que ele e Pen são os pais do herdeiro Featherington — Shonda pode pegar daqui a ideia para um spin-off —, soma-se a isso a questão se o jardim de Violet realmente voltará a florescer. Realmente, há ainda algumas questões a serem discutidas, não a toa a série está renovada até a quinta temporada. 

Esta autora/crítica deve dizer que está contente pela maneira como a história foi contada. Queria mais cenas Polin? Óbvio. Mas esta temporada de “Bridgerton” se trata de Penelope, que tem sido uma das personagens centrais desde o lançamento da série, finalmente saindo das sombras e encontrando os holofotes. 

Esta autora/crítica, assim como Penelope, também está pronta para encontrar seu Colin e ir para os holofotes (não necessariamente nessa ordem).