Quando Marx fala da repetição da história como tragédia e depois como farsa, aposto que ele não tinha ideia de como ambientes virtuais do século XXI no capitalismo tardio fariam parte disso. Espaços. Ou melhor “espaços” que teoricamente não dependem das limitações físicas do nosso mundo. Que nos dão as possibilidades de criar um mundo imaterial e, portanto, livre dos impedimentos da materialidade.   

Mas que na prática, se tornam espelhos digitais deformados da realidade. Ambientes virtuais que repetem o que há de pior (e até de melhor) dos ambientes materiais dentro de si.   

“Caixa de Areia” é um filme que atrai pelo pitoresco. “Gravado” integralmente dentro do GTA RP. Uma versão online do jogo de criminalidade livre que permite aos jogadores terem empregos e uma vida dentro do jogo. Mas que com seu desenrolar, se torna algo mais.  

Na premissa, uma jogadora grava um dia na vida da cidade virtual de Los Santos. Como uma documentarista que caminha por lá conversando e capturando conversas da população de lá. O que se torna, na prática, um encadeamento de discussões filosóficas acerca da simulação e, inevitavelmente, acerca do real ao redor da simulação.   

Sociedade, política, racismo, mudanças climáticas. Temas das divagações que nunca encontram, mas nunca procuram também respostas sobre o nada. Deixando nas mãos das imagens aparentemente toscas e bizarras de videogame o que o filme tem de mais eloquente.  

Do lado cômico, com a movimentação bugada e esquisita dos bonecos tentando sentar em cadeiras e subindo em mesas sem querer ou caindo de prédios ou atravessando paredes. Em momentos em que eles se aproximam da “câmera”, quando revelam que seus corpos são polígonos ocos. Destacando assim a obviedade do aspecto falso. O que nunca os impede de usar o tempo ali para malhar na academia ou para correr da chuva para não “se molhar”.   

Do lado profundo, é como se o filme ponderasse sobre a repetição. O eterno retorno das sociedades. O inferno cíclico de existência de erros repetidos ad eternum. Culminando em uma cena emblemática da catástrofe inevitável. Com uma inundação ao som de uma paródia do hino nacional dos EUA.  

O simbolismo de tudo isso, não é necessariamente algo tão claro. Algo que busque uma resposta única para todas as perguntas com as quais o filme lida. Mas que encontra nessa cadeia de questões filosóficas a sua maior força. Ainda mais pelo envelopamento de tudo isso na acidez autoirônica de sua estética.