Podem me chamar de chato, sem graça, mas, não tenho paciência para estas empolgações de redes sociais. Nem para achar um filme a coisa mais maravilhosa surgida na face da Terra, como acontece com nos lançamentos de 90% dos blockbusters ou do cult da vez, muito menos para detonar algo. Espero ver (mesmo as piores coisas) e tirar minhas próprias conclusões. Por isso, fui com a maior boa vontade do mundo para gostar de “Cats”.

O musical dirigido por Tom Hooper (ganhador do Oscar de Melhor Direção e Filme com o razoável “O Discurso do Rei”) tornou-se o filme a ser zoado neste fim de ano, superando, inclusive, “Star Wars – A Ascensão Skywalker” (alguém ainda lembra?). Gifs, piadinhas, trocadilhos infames e o famoso ‘não vi e não gostei’ tomaram o Twitter. Por tudo isso, entrei na sala 3 do Playarte do Manauara Shopping na esperança de que ainda houvesse esperança e “Cats” não fosse tão ruim assim, sendo o único a salvar um projeto injustamente crucificado. Bobinho.

“Cats” é um desastre épico, uma das maiores bombas do cinema mundial em 2019 (mas não ainda pior que o inútil “O Rei Leão”), uma mancha na carreira de todos os envolvidos. Quem dera fosse apenas o visual bizarro; em termos de narrativa, trata-se de um filme incapaz de se firmar, tornando seus 120 minutos um teste de resistência para o público.

GATINHOS TRAUMATIZANTES

Não há como fugir do óbvio: o pior do filme são as tenebrosas concepções visuais dos felinos. É impossível conectar-se com os personagens vendo rabos quase desproporcionais aos corpos. Quando Ian McKellen sobe no palco para cantar e se ajeita para o início da música, parece que o rabo ganha vida própria pelo tamanho e quase vai embora – talvez constrangido, será?

Piora ainda mais a aparente indefinição se veremos gatos com elementos corporais humanos ou humanos com elementos corporais de gatos. Em um momento estão se rastejando para, logo em seguida, já estarem em posição ereta, andando, sapateando e bailando como humanos. Logo, quase deu vontade de entrar na tela e perguntar: por que te arrastas, anjo?. Fora os miados e lambidas risíveis em si próprios soltos ali e acolá.

O negócio fica ainda mais bizarro ao pensarmos que as curvas dos seios das personagens femininas foram mantidas, mas, outras partes ligadas ao corpo humano não estão presentes. Ou você, leitor fofo, não ficou sentindo falta de algo quando Idris Elba faz a dança no modo nude ou no ‘pliê’ de Rebel Wilson logo no início de “Cats”? Evidente que há a questão da classificação indicativa, mas, chega a impressionar como Tom Hopper não notou uma saída tão simples que ele mesmo faz no longa ao colocar James Corden de roupa, algo 1000 vezes melhor do que fazer o que fez.

Por fim, o que são aqueles ratos e baratas com rostos humanos, OH SENHOR? Nem Eli Roth seria capaz de tamanha monstruosidade.

SEM HISTÓRIA, NÃO TEM JELLICLES QUE AJUDE

Perdidinho no conceito visual, Tom Hopper ainda tinha uma oportunidade de se salvar caso a história fosse bem contada. Porém, o material original já não ajudava: a partir de poemas do mestre da literatura americana T.S Eliott, Andrew Lloyd Weber criou “Cats” sem necessariamente uma trama das mais ricas ao apresentar os diversos candidatos para ter uma chance melhor de vida. A força ficava para as canções e a riqueza (cafona cof cof) da produção, o maior sucesso de bilheteria da história da Broadway.

Tom Hopper e Lee Hall, também roteirista do projeto, poderiam ter incrementado a história, buscado maior relação e dinâmica entre os personagens, gerar maiores ameaças, mas, para quê mexer em time que está ganhando? Sem nenhum tipo de ousadia, exceção feita pela inclusão de “Beautiful Ghots” visando uma candidatura ao Oscar 2020 de Melhor Canção Original, acompanhamos um fiapo de trama, emendado por números musicais incapazes de gerar emoção.

Afinal, por que devemos nos importar com personagens descartáveis e sem qualquer influência na história como os vividos por Rebel Wilson (Jennyanydots), James Corden (Bustopher) e Jason Derulo (Rum Tum Tugger)? Ian McKellen até possui um comovente número musical, mas, depois, acaba sendo abandonado, enquanto Laurie Davidson como Mrs. Mistofelles até brilha com seu desespero e frustração em um raro bom momento de “Cats”.

Se Francesca Hayward passa o filme inteiro com aquela cara de inocente e deslumbrada das mais irritantes mocinhas de novela das 9, Jennifer Hudson segue no estilo de canto consagrado pelo ‘The Voice’, gritando a cada cinco segundos, a música mais conhecida do espetáculo, “Memory”. Mirou no Oscar e vai parar no Framboesa de Ouro, mas, desde que deem um lenço para que ela possa se limpar da melecada da cantoria, já fico aliviado.

Com números musicais beirando o insuportável, “Cats” faz de “Os Miseráveis”, musical anterior de Hopper, um clássico do cinema moderno e Russell Crowe um cantor elogiável. E prova que, desta vez, pelo menos, o anti-hype é verdadeiro.

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