Se um dia você quis ver Nicolas Cage à frente de uma adaptação de H. P. Lovecraft, esse momento é seu: “Colour Out of Space” usa com sucesso um dos contos mais famosos do celebrado autor de terror para criar um filme B de responsa. O longa, que estreou em Toronto e foi exibido no Festival de Londres, parece uma versão gore dos filmes do clássico bloco televisivo Supercine.

Na trama, uma família que vive no meio do nada (claro!) tem a vida drasticamente alterada quando um meteorito cai em sua propriedade e desencadeia estranhos efeitos nas formas de vida ao redor. Qualquer semelhança com “Aniquilação” não é mera coincidência: o livro de Jeff VanderMeerr, que serviu de base para o filme com Natalie Portman, bebe diretamente da fonte de Lovecraft.

O roteiro, escrito pelo diretor Richard Stanley juntamente com Scarlett Amaris, traz a história do conto, que se passa no início do século XX, para os dias de hoje sem perder a essência do original; ainda que, na telona, isso resulte em arquétipos um tanto quanto clichês do cinema de terror: os pais que buscam uma vida nova, a filha gótica rebelde, o filho maconheiro bobão e o filho mais novo super sensível aos acontecimentos sobrenaturais.

Com 1h51min, “Colour Out of Space”  chega a se arrastar em alguns momentos. No entanto, Stanley, em colaboração com o diretor de fotografia Steve Annis, enche as tomadas com um jogo de câmera preciso e cores fantásticas que reforçam o senso de medo existencial do material-base. Colin Stetson, que compôs a trilha de “Hereditário”, enche as cenas com melodias sintéticas que quase sufocam o espectador.

Sem explicações

Mesmo quando os animais começam a se comportar de maneira estranha e os vegetais começam a sofrer mutações, o longa se recusa, à maneira de Lovecraft, a dar explicações. É justamente essa incompreensão que causa o terror que acomete a família dona da propriedade. A força que passa a agir ao redor da casa não opera conforme o que espera a razão humana – e, por conta disso, os protagonistas se veem sem saída.

Esse ponto é reforçado pelos toques modernos inseridos pelo roteiro, como a presença de celulares, de televisão e até mesmo de um pesquisador que quer entender os fenômenos de cientificamente. “Colour Out of Space” parece argumentar que os avanços da humanidade no último século de nada adiantaram para nos preparar para um encontro extraterrestre.

Para além do sangue e das criaturas bizarras, fãs do gênero terão o prazer de ver Stanley – um devoto do terror que passou 27 anos longe do gênero – revigorado e no completo controle de sua criação. Com um charme kitsch e Nic Cage mandando ver na atuação descontrolada que se tornou seu padrão, “Colour Out of Space” sabe o público que quer agradar e tem tudo para conseguir isso.

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