Cry Macho: O Caminho para Redenção mal começa e o espectador já sente uma pequena emoção indescritível: basta Clint Eastwood aparecer com roupas típicas de cowboy e um chapéu. Nada aconteceu ainda na história, mas qualquer cinéfilo do mundo todo já consegue abrir um sorriso bobo no rosto só nesses primeiros minutos. Segundos, talvez.

Quem não abre esse sorriso, é porque não tem um relacionamento com Eastwood. Nunca é tarde, porém, para começar.

Cry Macho é o 39º filme de Clint Eastwood como diretor. O Clint ator já está presente nas telas, da TV e do cinema, desde a década de 1950. Ele recentemente completou 91 anos de idade. Não há trajetória ou carreira igual na história de Hollywood. E é meio inevitável abordá-la em uma discussão sobre este filme, afinal, o próprio longa convida a isso.

É a meditação discreta de um artista sobre a própria obra, sobre a própria persona artística que ele construiu ao longo dos anos, talvez sobre a sua própria vida. Esse projeto, aliás, já rondava por Hollywood há anos: a obra é baseada no livro homônimo de N. Richard Nash publicado em 1975, e quase foi adaptado antes com diferentes atores no papel principal.

Bom que parou nas mãos de Eastwood.

SIMPLICIDADE TOTAL

Na história, ambientada em 1980, o astro/diretor vive Mike Milo, um idoso ex-peão de rodeio que teve a carreira de glórias abreviada por um acidente. Um belo dia, ele recebe o pedido de um amigo e ex-empregador (Dwight Yoakam): Mike precisa ir ao México trazer o filho adolescente do sujeito para que vá morar com o pai nos Estados Unidos. Meio a contragosto, ele aceita e, no México, encontra Rafa (Eduardo Minett), garoto rebelde que ganha dinheiro com rinhas de galo. Junto com Macho, o galo vencedor dos torneios locais, a dupla inicia a viagem de carro, enquanto são perseguidos pelos capangas da mãe bandida do rapaz.

O roteiro, adaptado por Nick Schenk e pelo próprio Nash, usa a estrutura de road movie para desenvolver o relacionamento entre o velho e o rapaz, duas figuras que não têm nada a ver uma com a outra. Porém, quem for assistir a Cry Macho esperando um filme com ação e muitas reviravoltas, pode se decepcionar. O tom é calmo, nada apressado e a encenação é discreta, às vezes quase caseira, sem refinamento.

Isso cobra um preço: a atuação de Minett, por exemplo, é bem fraquinha. Mas, estamos diante da simplicidade total, estilo de Eastwood refinado ao longo de décadas. É um filme de velhos, afinal – além de Eastwood, um dos produtores é Albert S. Ruddy, de O Poderoso Chefão (1972) e que já colaborara com o cineasta em Menina de Ouro (2004).

Se a trama é simples e sem muitos momentos espetaculares, e com direito a um clichê aqui e ali, o que prende a atenção é o relacionamento entre os personagens e, claro, o que o filme representa para a carreira de Clint Eastwood, a essa altura dela. É curioso notar como Cry Macho dialoga com obras anteriores do astro/diretor: com seus filmes de faroeste; com road movies do passado como Honkytonk Man: A Última Canção (1982), um dos mais subestimados da filmografia dele; e Gran Torino (2008), que também apresentava um relacionamento entre um jovem e um idoso.

Claro, a diferença agora é que o herói vivido por Eastwood precisa tirar umas sonecas durante o filme e se move mais devagar. E está desarmado: em “Cry Macho”, ele não usa nenhuma arma, embora dê um soco em uma cena. Mesmo assim, o carisma permanece intacto e até achamos crível quando uma ou outra personagem feminina arrasta uma asinha para cima dele. Pela própria idade do protagonista, o filme pede por uma dose a mais de suspensão de descrença em alguns momentos, mas nada que estrague a experiência.

 MÉXICO, A FIGURA MASCULINA: AS REVISÕES BEM-VINDAS DE CLINT

Em dado momento, Mike ensina o garoto a montar cavalos. Filmado em um contraluz pelo diretor de fotografia Ben Davis (“Capitã Marvel”), o momento em que Eastwood se aproxima do animal e o hipnotiza é, além de uma cena bonita, algo que remete a toda uma história por trás. E a evolução do artista, nós vimos acontecer: primeiro como herói solitário do velho oeste, e depois como policial vigilante, Eastwood sempre foi um paradigma de masculinidade no cinema.

Mas esse retrato evoluiu da figura solitária para alguém em busca do coletivo, e para realizador de obras reflexivas, críticas e potentes sobre a violência em seu país e sobre essa própria masculinidade que ajudou a sedimentar. Por isso, vê-lo agora dizer que “essa coisa de macho é superestimada”, como seu personagem afirma em Cry Macho, é o ponto definitivo dessa evolução. Aliás, também é bom ver como o relacionamento bonito com uma mulher – uma dona de restaurante vivida por Natalia Traven – acaba consolidando essa evolução.

E é curioso ainda notar o retrato dos Estados Unidos no filme: pela história, parece que o México é um lugar mais legal para se viver. É mais um ponto curioso da visão política do diretor em seus filmes: embora seja republicano na vida real, os filmes de Eastwood, em geral, não refletem visões muito conservadoras e fazem lá suas críticas aos EUA.

Mesmo assim, essa reflexão é sutil e fica em segundo plano. O que importa é a viagem dos dois personagens, os laços de sangue e os que se encontram pelo caminho. Verdade, Cry Macho não tem a força de alguns longas anteriores de Eastwood, como o já mencionado Gran Torino ou A Mula (2018), outro longa subestimado… Ambos ainda possuem mais intensidade, porém, Cry Macho pode vir a ser um filme a que os fãs e cinéfilos darão mais importância no futuro.

A expressão “filme testamento” parece inapropriada, porque o próprio Eastwood já declarou não ter intenção de se aposentar. Mas, por hora, é um pequeno e bonito filme feito por alguém que conseguiu envelhecer com graça – algo raro, em Hollywood ou fora dela.

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