Não é segredo para ninguém que a Netflix procura um Game of Thrones para chamar de seu, um fenômeno do gênero fantasia com impacto na cultura pop comparável à série da HBO. No final de 2019, mesmo ano em que Thrones acabou, a Netflix trouxe The Witcher, estrelada por Henry Cavill. Bem… Miraram no Game of Thrones, mas acertaram no Hércules, aquele dos anos 1990 que passava nas tardes do SBT. Mesmo assim, The Witcher ainda podia ser considerada um passatempo razoável perto desta Cursed: A Lenda do Lago, que busca repaginar uma velha lenda por outra perspectiva e numa ótica adolescente, mas acaba apenas repisando os velhos clichês.

A lenda em questão é a arturiana, aquela a que já fomos expostos de alguma forma pela literatura ou pelos filmes. Mas agora contada não pelo ponto de vista de Artur, que vira rei da Inglaterra ao tirar a espada da pedra, mas pelo da Dama do Lago. Em Cursed, a futura Dama do Lago é Nimue, interpretada por Katherine Langford, a Hannah de 13 Reasons Why, e esta é a sua história de origem. Ela vive junto do seu povo, os féericos, em meio à natureza, e tem a Força, ou seja, poderes ainda não totalmente compreendidos. Mas, claro, ela os rejeita. Um dia, seu vilarejo é atacado por membros da Igreja Católica, e sua mãe entrega a Nimue um sabre de luz, opa, uma espada – um doce para quem adivinhar qual é – e a manda procurar o mago Ben Kenobi, opa, Merlin (Gustaf Skarsgård, de Vikings). Em meio à sua jornada, ela vai conhecer um jovem bonitão chamado Artur (Devon Terrell) e sua irmã Morgana (Shalom Brune-Franklin), enquanto foge dos seus perseguidores e faz algumas descobertas sobre si mesma.

Baseada no livro escrito pelo quadrinista Frank Miller – o mesmo que revolucionou as HQs com obras como Batman: O Cavaleiro das Trevas, Sin City e Os 300 de Esparta – e Tom Wheeler, Cursed, verdade seja dita, é uma série esforçada. Ela tenta… Tenta trazer um protagonismo feminino forte a uma história já manjada, tenta fazer bom uso de um elenco diverso, tenta tecer um interessante panorama político da situação da Inglaterra na época, e tenta contar essa história de forma emocionante. Mas fica só nas tentativas. O que se tem é mais uma série direcionada ao público teen, com uma história que custa a engrenar, abordada de modo meio esquizofrênico e na qual os poderes da heroína são mais importantes que a sua personalidade ou carisma.

De fato, Nimue é uma personagem rasa, que passa alguns episódios do começo da temporada sendo movida pela trama ao invés de impulsioná-la. Além disso, a performance de Langford também não consegue transcender as limitações do roteiro. Sabemos que ela é talentosa e tem potencial, mas ainda precisa comer um pouco mais do proverbial “arroz com feijão” para comandar a tela. Até o sotaque inglês dela some em algumas cenas…

Aliás, quase todo o elenco é fraco – alguns jovens atores da série parecem ter vindo da escolinha Malhação de interpretação; e o ator que faz o rei Uther Pendragon, Sebastien Armento, se mostra muito ruim e cheio de caretas. As exceções são o veterano Peter Mullan, que bate ponto como vilão, e Skarsgård, sempre um ator interessante. Quando Merlin surge pela primeira vez, temos a impressão de que será uma versão malandra do personagem, e Skarsgård vai vivê-lo com pitadas de Jack Sparrow. Mas com o tempo, Merlin começa a ser vítima da inconstância dos roteiros, indo para lá e para cá ao sabor das conveniências, o que vai erodindo o trabalho do ator. Ainda assim, Skarsgård é fácil a melhor coisa da série, que sempre melhora um pouco quando ele está em cena.

ESCALA MÍNIMA PARA ÉPICO

A série também é prejudicada pelo fato de a Netflix ainda não ter pegado o jeito no gênero fantasia. Não há como escapar, a produção de Cursed parece modesta, de baixo orçamento e com um ar meio brega. Os sets parecem artificiais e pequenos – e a direção pouco criativa acaba ressaltando essas limitações – e algumas decisões de design são para lá de questionáveis. Por exemplo, o povo fauno, com chifres, desperta uns risos involuntários; e o visual emo do vilão Monge Choroso inspira tudo, menos temor.  Ao menos o CGI é consistente – não há nenhum momento constrangedor como o mini-dragão de The Witcher, por exemplo…

Alguns momentos de sanguinolência excessiva também parecem fora de lugar – Afinal, é estranho a série gastar tempo com o romance jovem dos heróis e mostrar umas cabeças decapitadas no final do mesmo episódio, como se a Netflix quisesse atrair todos os públicos, o teen e aqueles que gostavam do sexo e da violência de Game of Thrones. Uma cena com Nimue matando lobos no final do primeiro episódio até lembra visualmente o filme 300 (2007)…

Os problemas do roteiro prosseguem até perto do final da temporada, quando a heroína é forçada a um conflito que, com seus poderes, ela poderia resolver em cinco minutos; um deus ex machina boboca para resolver a encrenca, e menções a personagens que deverão ser importantes na próxima temporada – Essas menções são apenas jogadas na história, que precisa se encaixar nas lendas arturianas, afinal. No fim das contas, Cursed é pequena demais para ser verdadeiramente épica, com personagens rasos e/ou inconstantes, e se leva muito a sério, resultando numa narrativa arrastada e sem leveza. The Witcher, ao menos, parecia saber que tinha um pé no trash e extraiu alguma diversão disso.

Mas, com certeza, a Netflix continuará tentando…

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