Você já parou para pensar, caro leitor, como nasce uma cidade? Como nasce uma comunidade? Um país? Em meados da década passada, a HBO, no seu processo de revolucionar a TV, fez um faroeste diferente, a série Deadwood. Produzida entre 2004 e 2006, a criação do roteirista e produtor David Milch pegava fatos históricos e pessoas que realmente existiram, além de elementos tradicionais do gênero, e os subvertia, em nome de uma narrativa cujo objetivo era falar sobre a humanidade, sobre como e porque as pessoas se juntam, sobre uma cidade sem lei – a Deadwood do título, fundada pelo garimpo – que aos poucos evoluía para algo maior, uma verdadeira comunidade.

A HBO estava na sua grande onda quando produziu Deadwood. Mas apesar da qualidade, Deadwood representou um capítulo estranho desse período: os direitos da série eram divididos com o estúdio Paramount, o que fazia dela um pequeno “estranho no ninho”. E o temperamental Milch conduzia a série de um jeito diferente, frequentemente mudando cenas e diálogos antes das filmagens e proporcionando uma atmosfera única no set. Por causa dos direitos, e talvez por não compreender direito o que tinha nas mãos, a HBO acabou cancelando a série de forma súbita em 2006, e depois por anos, prometeu que iria produzir dois telefilmes, depois apenas um, para concluir a narrativa. O próprio Milch e o elenco duvidaram que fosse acontecer, por mais de uma década… Por isso mesmo, Deadwood: O Filme é um pequeno milagre: Com quase todo o elenco de volta, Milch no roteiro e Daniel Minahan, veterano da série na direção, é o encerramento aguardado pelos fãs por anos, e se complementa perfeitamente às noções da série sobre comunidade e união.

É realmente um presente para os fãs – não iniciados podem até compreender a história, mas só quem viu as 3 temporadas de Deadwood receberá todo o impacto emocional deste sensível roteiro de Milch, que aliás remete diretamente ao episódio final da série. O filme se passa em 1889. A cidade de Deadwood está agitada com a entrada da Dakota do Sul na União e com a volta do agora senador George Hearst (Gerald McRaney, excelente). Hearst – aliás, ancestral do William Randolph Hearst, aquele do Cidadão Kane (1941) – foi o grande antagonista da série, homem rico e poderoso que deseja expandir o telefone na região a todo custo. A chegada dele desperta antigos fantasmas, e quando uma tragédia ocorre, surge a noção de comunidade de novo, com basicamente toda a cidade se unindo contra seu inimigo.

PRESENTE ESPERADO PELOS FÃS

O tempo passou e o filme não faz a menor questão de esconder isso: os atores agora estão mais enrugados, ligeiramente diferentes, mas todos reencontram seus personagens com precisão. De novo, percorremos as ruas da cidade, filmadas com reverência por Minahan – O corte de um trem passando para uma panorâmica da cidade, ao som do tema de abertura, é um momento visualmente belíssimo. Retorna também aquela sensação de estarmos adentrando um mundo, concebido com riqueza de detalhes e habitado por aquelas figuras tão interessantes. Até personagens secundários parecem vivos, com caracterizações ricas. Pequenos detalhes, que os fãs captam, fazem a diferença, como os pêssegos servidos antes da reunião, ou alguns diálogos. A sensação é de reencontrar velhos amigos e passar tempo com eles uma última vez.

E é realmente incrível como, em duas horas, Deadwood: O Filme dá, ao menos, uma coisa interessante para praticamente todo o elenco fazer – aliás, um dos melhores elencos já reunidos na história da TV. É um filme de pequenos momentos, como a terna cena de amor entre Calamity Jane (Robin Weigert) e Joanie (Kim Dickens), a dona de um dos bordeis da cidade. Ou os olhares e gestos trocados entre a viúva Alma (Molly Parker) e o xerife Bullock (Timothy Olyphant, soberbo). Ou o diálogo perto do fim entre a ex-prostituta Trixie (Paula Malcolmson, perfeita) e o inesquecível Al Swarengen (o gigante Ian McShane), o desbocado e brutal dono do saloon e o mais memorável e interessante personagem da série.

Al Swarengen continua observando tudo o que ocorre em Deadwood da sua sacada, mas na visão de David Milch ele já sente o fim chegando. De certa forma, o personagem é o alter ego do autor dentro do filme: Recentemente Milch revelou que está com Alzheimer e sua mente, o principal atributo de um escritor, está desaparecendo. Os diálogos dele sempre foram um prazer de se ouvir na série, igualmente repletos de poesia e palavrões, porém algumas falas sobre passagem do tempo e finitude, especialmente as ditas por Al, adquirem ainda mais força por causa tanto do estado atual de Milch, quanto pelos 13 anos que levaram para serem ditas.

Deadwood: O Filme é ao mesmo tempo bonito e triste, apesar dos momentos de violência presentes. Por causa do tempo comprimido, é um pouco mais agitado do que a série costumava ser, com tiroteios, um nascimento, um funeral, reencontros e um casamento. Talvez o tom – ligeiramente – episódico seja o único senão verdadeiro do filme. Mesmo assim, tudo é feito com tanta delicadeza que o fã que esperou mais de uma década por um final para um dos melhores seriados de todos os tempos não sai desapontado. E de novo, tudo retorna àquela noção de comunidade: É interessante observar, no filme, a coleção de enjeitados da sociedade, com negros, prostitutas, lésbicas e imigrantes, ajudando a combater o poder opressivo do dinheiro e do homem branco.  Deadwood, a série, era essencialmente otimista, mesmo com o sexo e violência marca registrada HBO, e O Filme, seu epílogo magistral. Numa nota pessoal, eu gosto de onde a série parou, mesmo com as pontas soltas. Mesmo assim, na indústria do cinema e da TV, onde as coisas raramente acabam, ou raramente acabam bem, algo como Deadwood: O Filme deve ser celebrado pela beleza e inteligência do seu final. Além da despedida daqueles personagens, parece ser também a despedida do seu criador. Mas ele, assim como a sua criação, se despede nos seus termos. E rodeado de amigos.

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