Glenn Close é uma das maiores atrizes de todos os tempos. Um fato indiscutível. Mas também é uma das mais injustiçadas se pensarmos em premiações. E o Oscar é o maior deles. Bem verdade que, ao longo dos anos, a Academia perdeu grande parte de sua relevância, mas ainda mantém seu status. Dizem ser a validação do talento dos atores e atrizes. Claro, uma atriz do seu porte não precisa de Oscar para validar seu talento gigantesco.

Indicada em oito ocasiões, perdendo a última este ano, o clamor do público e crítica para ganhar o Oscar tomou uma grande proporção. Particularmente, penso que é até interessante o público jovem reconhecer o seu talento magnânimo e os fãs antigos de cinema e da atriz reafirmarem este talento.

Com tanta comoção, lógico, papéis estão chegando, ainda que seja de gosto duvidoso como em Era Uma Vez Um Sonho (2020), película pretensiosa de Ron Howard. E agora Four Good Days, de Rodrigo García.

O drama familiar baseado em uma história real narra a história de Deb (Close), uma senhora que vive tranquilamente com seu marido até que sua filha, Molly (Mila Kunis), uma viciada em drogas, bate à sua porta pedindo abrigo. A contragosto, ela resgata a filha e, na reabilitação pela 15ª vez, descobrem um tratamento novo e intensivo de cura. Molly precisa de apenas quatro dias para estar limpa e iniciar este tratamento.

OSCAR BAIT NOVAMENTE

Filmes que trata de viciados são uma cilada, afinal, nem sempre teremos uma tempestade complexa e atordoante como Réquiem Para Um Sonho (2000), de Darren Aronofsky. Ainda que o contexto e ocasião sejam outros, tornou-se referência. Aqui, García esbarra em todos os tropeços básicos e piegas para contar a história dessas duas personas. Os diálogos são previsíveis, a trilha sonora penosa e as cenas de embate entre as duas são cansativas estando ali como uma espécie de filler (basicamente “encher linguiça”). É tudo muito calculado, um Oscar Bait (um termo que particularmente não gosto que significa produções que buscam a aceitação da Academia. Mas nem tudo é sobre Oscar!). Neste sentido, “Four Good Days” perde muito do seu encanto quando se acha mais sério do que realmente é e almejando prêmios, isso compromete o seu desenrolar.

Falando em Glenn, esta dispensa apresentações: um trabalho acima da média em um filme mediano. Seus artifícios como atriz são ilimitados. Inteligente, constrói a sua personagem de uma mulher comum que segue a sua vida apesar do peso dos anos e de sua constante preocupação com a filha – percebam que a casa toda é acionada por alarmes. A doçura e tensão em seu olhar dizem muito sobre essa mulher aflita, porém, convicta. Não é um dos seus mais memoráveis papéis, mas certamente é uma oportunidade máxima em vê-la brilhar. Mila Kunis, uma atriz mediana cumpre bem o seu papel, ainda que falte algo na construção de sua personagem.

Mas nem tudo é bomba. A (re)construção da relação dessas duas mulheres, mãe e filha, totalmente feridas pela vida e pelas suas próprias ações do passado é bonita. Uma reconexão do amor entre elas e de si mesmas, do perdão e, acima de tudo, o vínculo maternal que está acima de quaisquer eventualidades. E a vida é isso, sempre estar em um eterno recomeço para quem tem e pode ter essa oportunidade. Rodrigo García mirou na aclamação, mas acertou em mais um típico novelão das 18h.

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