Crescer é difícil e ainda mais quando se está no showbiz… O ator Shia LeBeouf se destacou e ficou famoso muito cedo, trabalhando em seriados da Disney que levaram a papéis no cinema. Então vieram os três primeiros filmes da franquia Transformers, dirigidos por Michael Bay, que o transformaram em astro internacional, e a sua participação no aguardado quarto filme de Indiana Jones, dirigido por Steven Spielberg.  Depois, o cara começou a ficar estranho, aparecendo com um saco de papel na cabeça no Festival de Berlim em 2014 – ele chamou isso de “arte performática”. Um curta que fez foi acusado de plagiar uma HQ do famoso autor Daniel Clowes. Boatos sobre uso de drogas e problemas de relacionamento com colegas de cena começaram a acompanhar o ator.

Justamente nesse período, LaBeouf meio que se reinventou, se distanciando dos blockbusters e se mostrando um ator bem interessante com bons trabalhos em filmes desafiadores como Ninfomaníaca (2013), de Lars von Trier, e Docinho da América (2016), de Andrea Arnold. Porém, em 2017, ele foi preso por embriaguez e desordem pública. Foi condenado a um ano de condicional e obrigado a fazer terapia, onde foi diagnosticado com Transtorno de Stress Pós-Traumático.

Agora, em Honey Boy: O Preço do Talento, LaBeouf se expõe como artista ao roteirizar uma dramatização da sua vida e seus problemas, com a ajuda da diretora Alma Har’el. Honey Boy se inicia com efeitos sonoros bem parecidos com aqueles dos robôs Transformers enquanto os créditos de abertura aparecem. E então conhecemos Otis, interpretado por Lucas Hedges, de Manchester à Beira-Mar (2016). Ele trabalha num filme cheio de explosões e o vemos suspenso por cabos, usando drogas com a namorada e causando um acidente de carro. É enviado para reabilitação e terapia, na qual relembra a problemática relação com seu pai, que tomou conta dele praticamente sozinho durante a infância de Otis.

NOSTALGIA E OS SEUS FANTASMAS

Nas cenas do passado, o próprio LaBeouf interpreta a versão de seu pai, James. A sua versão infantil, o pequeno Otis, é vivido por Noah Jupe, revelado pelo muito bom Anos 90 (2018), dirigido por Jonah Hill.  As cenas entre LaBeouf e Jupe, convivendo num motel decrépito de beira de estrada, são a alma do filme. A câmera de Har’el filma esses momentos de maneira inquieta, sempre em movimento, ressaltando a tensão do relacionamento entre os dois. Jupe, de novo, entrega uma ótima atuação – o garoto é um nome para se ficar de olho no futuro. E LaBeouf canaliza o próprio pai com assombro e nervosismo – há uma cena no meio do filme, durante uma reunião de James no AA, na qual LaBeouf emociona com um tocante discurso. Num filme tão pessoal para ele, o ator entrega provavelmente a sua melhor atuação até o momento.

Essas cenas são tão boas que “Honey Boy” sofre uma queda sempre que retorna para o tempo presente. As cenas com o Otis adulto, na terapia, são clichês e sem força, apesar dos esforços de Hedges e de Laura San Giacomo (andava sumida!), que faz a terapeuta. Aqui é onde também começam a aparecer uns floreios meio “poéticos” e tiques que já viraram comuns em dramas indies do cinema norte-americano – em dado momento, Otis segue uma galinha até o seu velho motel, e com certeza a galinha representa um simbolismo, embora um não tão efetivo ou profundo quanto os realizadores do filme pensam…

Honey Boy poderia descambar para um ato de autocomiseração ou, o que seria até pior, um tipo de pedido de desculpas velado – o show de um babaca de Hollywood se desculpando por suas babaquices porque teve um pai ruim e uma infância problemática. Mas, graças à condução de Har’el e à visão do roteirista LaBeouf, Honey Boy escapa disso.

Ao final, percebemos até que, apesar de tudo, o roteirista ainda tem carinho por seu pai, e que LaBeouf de certa forma exorciza alguns demônios com esse filme. Não chega a ser um grande filme, mas sempre que LaBeouf e Jupe dividem a cena, ele alça voo.  É graças a eles que temos no filme uma história humana, contada por alguém sem medo de expor, ou às suas feridas. E isso, muitas vezes, gera arte que vale a pena apreciar.

‘Queen & Slim’: Black Lives Matter em estética arrebatadora

Vencedora de dois Grammys pela direção do clipe “We Found Love”, de Rihanna, e o álbum visual “Formation”, de Beyoncé, Melina Matsoukas constrói um road movie pautado em violência, intolerância e reencontros em sua estreia na direção cinematográfica. “Queen &...

‘Memories of My Body’: ode à existência de um corpo em plenitude

Pode soar como uma frase tirada diretamente de um livro de mindfulness (técnica de atenção plena), mas de uma forma ou de outra, a maioria das experiências de uma pessoa é mediada pelo corpo. Conduzido desta forma de maneira poética, “Memories of My Body”,...

‘Invasão Zumbi 2: Península’: terror caça-níquel made in Coreia

Em nenhum outro gênero do cinema se produzem tantas continuações como o terror. Elas são feitas porque é um bom negócio: filmes de terror geralmente são baratos, e há o reconhecimento da marca. Quando é lançado e causa impressão junto ao público, ele vira uma marca, e...

‘Estou Pensando em Acabar Com Tudo’: estilo de Kaufman ao ponto da exaustão

Tem uma expressão que meu colega crítico Ivanildo Pereira cita em seus textos e encaixa perfeitamente para descrever Charlie Kaufman: “verborrágico”. O premiado roteirista e diretor é um artista repleto de personalidade e que apresenta temas recorrentes em suas obras...

‘Narciso em Férias’: a violência brasileira em resposta à poesia

Os 54 dias das prisões de Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre dezembro de 1968 a fevereiro de 1969, não apenas simbolizaram o mais claro sinal do endurecimento contra a classe artística e intelectual promovido pela ditadura militar no Brasil após o Ato Institucional...

‘Mulan’: tentativa de agradar a todos gera live-action sem força

O live-action de ‘Mulan’, sem dúvida, foi uma das estreias mais afetadas pela pandemia da Covid-19: semanas antes de seu lançamento em março, os cinemas ao redor do mundo foram paralisados, incluindo a China, primeiro epicentro da doença. Além do filme tratar...

‘Tenet’: Christopher Nolan vence o público pelo cansaço

Quando anunciado em 2019, "Tenet" era apenas o mais recente (e antecipado) filme de um dos diretores mais aclamados da atualidade. A pandemia do COVID-19 o transformou em um símbolo da sala de cinema enquanto agente comercial e cultural e local de congregação. Seu...

‘The Beach House’: terror de boas ideias em filme irregular

Com a ideia de um terror embasado cientificamente, Jeffrey A. Brown faz sua estreia como diretor apresentando uma boa história sobre mutações infecciosas na natureza. "The Beach House” é baseado em uma realidade possível, apresentando também o benefício de bons...

‘Driveaways’: filme para aquecer o coração durante a pandemia

“Driveways” é um filme simples. O tipo de produção que não encontraria lugar entre os blockbusters para projeção nos cinemas de shopping. Devido a pandemia, no entanto, temos acesso mais fácil a obras como essa. É necessário deixar claro que a simplicidade é onde...

‘Ava’: Jessica Chastain segue em má fase com filme tedioso

Com duas indicações ao Oscar e uma filmografia marcante, Jessica Chastain (‘A Hora Mais Escura’ e ‘A Grande Jogada’) definitivamente pode ser considerada um dos grandes nomes de sua geração. Entretanto, nem só de bons trabalhos são feitos atores importantes e,...