Mesmo apresentando séries nacionais que lutam para se firmar em seu catálogo como ‘O Escolhido’ e ‘Samantha!’, a Netflix segue consolidando as politizadas ‘3%’ e ‘Coisa Mais Linda’. Entretanto, ainda no caso destas narrativas com temáticas referentes à situação sociopolítica no Brasil, o streaming sempre encontra uma forma de passar um filtro e amenizar a dimensão destes problemas. E é exatamente isto que torna ‘Irmandade’ tão necessária: o projeto apresenta um Brasil que ninguém quer visitar, nem mesmo seus próprios moradores.

Tudo bem, “Irmandade” toca em duas grandes feridas nacionais: o sistema prisional e as facções criminosas. No entanto, além da urgência de sua proposta, a série criada por Pedro Morelli dispensa filtros e falsas cortesias, utilizando personagens multifacetados para que o próprio público possa julgá-los.

A trama ambientada nos anos 1990 apresenta Cristina (Naruna Costa) que, apesar de ser uma advogada bem-sucedida, nunca esqueceu o irmão Edson (Seu Jorge), preso há 20 anos, o qual também é líder da organização criminosa chamada Irmandade. Ao se infiltrar neste grupo para obter informações para a polícia, a personagem passa a se envolver cada vez mais com a entidade, questionando o sistema judicial e presidiário.

Com este pequeno resumo, é possível identificar que Cristina é mais uma personagem fadada ao clichê do agente duplo, o qual eu pessoalmente odeio. Na verdade, isso até acontece nos primeiros episódios da série, porém, com o avanço da trama, Cristina torna-se uma personagem mais bem construída, fator potencializado pela atuação de Naruna.

A escolha do elenco, aliás, é um grande acerto de Morelli: além da protagonista, Hermila Guedes também brilha em suas aparições e nas cenas entre as duas personagens como únicas mulheres presentes na Irmandade. Já o papel de Seu Jorge é muito bem explorado em não roubar o protagonismo de Cristina, mas, ao mesmo tempo, ser tão importante e impactante quanto. Fechando os destaques, Lee Taylor, apesar de possuir uma trama incrivelmente previsível na pele de Ivan, também é capaz de surpreender positivamente.

Mesmo na boa construção dos personagens, é possível perceber arquétipos e clichês narrativos. Infelizmente, apesar de possuir uma trama original e interessante, ‘Irmandade’ não consegue deixar as amarras da estrutura narrativa comumente utilizada por produções americanas, tornando necessária a presença de uma mocinha identificável, vilões maniqueístas e até mesmo um romance tórrido sem razão de existir.

Ambientação nos anos 1990 com temática atual

Apesar de ter uma ambientação incrível na década de 1990 com modelos antigos de carros e até mesmo notas de dinheiro, ‘Irmandade’ chama atenção pela urgência e atualidade de sua temática. A personificação dos presídios apresentados é construída por meio do ótimo design de produção e grandes acontecimentos narrativos. Tudo sob a supervisão de uma direção fotográfica atenta e urgente, com direto à câmera trêmula em seus momentos de ápice.

Com inúmeros acontecimentos para se inspirar, “Irmandade” apresenta diversas comparações com a realidade. É impossível não ligar a história de Edson e seu controle da entidade de dentro da prisão com a trajetória do Nem da Rocinha, assim como a briga entre facções dentro e fora dos portões prisionais.

Em um recorte regional, é fácil relacionar as cenas da rebelião criada no presídio do seriado com a rebelião de 2017 no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) de Manaus. Da mesma forma, na semana em que ‘Irmandade’ estreou, mostrando uma ação policial que deixou apenas Edson e Ivan vivos, Manaus ganhou sua própria versão com 17 suspeitos mortos. As semelhanças ainda vão além com as frases de efeito “bandido bom é bandido morto” e a abordagem de uma imprensa sensacionalista sobre os acontecimentos.

Infelizmente, para tornar esta visão da realidade inteligível, a produção cai em diversos clichês, apesar disto não ofuscar seus inúmeros méritos.  De forma muito inteligente, Pedro Morelli consegue criar uma ótima atmosfera para a continuação, de forma que o espectador não queira continuar a série somente pelas pontas soltas, mas também para acompanhar os personagens e suas histórias. Sem prolongações narrativas e longe de filtros, ‘Irmandade’ se torna a mais importante produção brasileira da Netflix até agora.

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