No início dos anos 2000, a Disney adaptou famosas atrações de seus parques para o cinema, como a “Mansão Mal-Assombrada” (2003) e “Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra” (2003) – este último rendendo até uma grande franquia. Com a tentativa de alcançar este mesmo resultado, o estúdio resolveu trazer para as telonas “Jungle Cruise” e sua grande expedição para a Amazônia brasileira. Ainda que tenha problemas de estrutura, a aventura cumpre com o papel de ser uma boa experiência familiar. 

A trama acompanha a pesquisadora Lily (Emily Blunt) e seu irmão McGregor (Jack Whitehall) saindo de Londres a caminho de Porto Velho (RO) para realizar uma expedição que comprove uma antiga lenda. Para isso, os irmãos contratam o serviço de Frank Wolf (Dwayne ‘The Rock’ Johnson), um guia turístico encarregado de conduzi-los em um barco a vapor caindo aos pedaços. Juntos, partem em uma missão com cenário é da floresta amazônica em busca de uma misteriosa árvore com poderes de cura.

Blunt e The Rock compensam roteiro raso

O modo como o diretor Jaume Collet-Serra (“Sem Escalas”, “A Órfã”) apresenta os personagens no filme não foge dos padrões da Disney. Ou seja, em “Jungle Cruise”, temos personagens com diferentes objetivos e personalidades, mas que precisam colocar as diferenças de lado e colaborar para o sucesso da jornada. E, por ser um recurso tradicional de filmes do estúdio, seria quase impossível não conquistar o feito com êxito.

 A relação entre Lily e Frank é muito divertida de acompanhar e isso graças às atuações da adorável Emily Blunt e do carismático The Rock, que, por sinal, entregou um personagem semelhante a outros papéis fora do eixo de filmes de ação, como na comédia “Treinando o Papai” (2007).

Por outro lado, por mais divertido que seja e carregado pelo grande elenco, “Jungle Cruise” peca por uma história desenvolvida de forma rasa demais e até arrastada em certos momentos – problemas vindos, talvez, do excesso de roteiristas; ao todo, são cinco (!).

Confusão de antagonistas

Vindo de filmes como “Estou Pensando em Acabar com Tudo” e “El Camino”, Jesse Plemons tem a missão de viver o alemão Prince Joachim (Jesse Plemons) que trava uma corrida contra os protagonistas na pretensão de adquirir a planta para fins maliciosos. Ele  cumpre todos os requisitos de um vilão Disney, porém, não apenas como é mal desenvolvido como fica em segundo plano por conta do personagem sobrenatural vivido por Édgar Ramirez que também pretende atrapalhar a missão dos heróis da trama. 

Esta inserção de Ramirez, acompanhada por outros personagens sobrenaturais de pouco destaque, acaba gerando uma confusão em quem assiste. A sensação que causa é que este novo grupo de antagonistas não foi bem trabalhado, até porque nem foram apresentado ao público direito. 

Talvez se Collet-Serra deixasse para fazer uma breve menção ao personagem de Ramirez no final do filme, o resultado teria sido bem mais satisfatório. Tendo em vista que a própria Disney inicialmente apostou em “Jungle Cruise” para ser uma possível nova franquia como foi “Piratas do Caribe”. Pelo menos, teria dado um gancho perfeito para uma futura continuação… 

 Quebra de preconceitos (mas, não tanto assim)

“Jungle Cruise” mostra uma Disney disposta a quebrar padrões. Lily é uma pesquisadora que não se cala perante o machismo que sofre dos demais pesquisadores do grupo de cientistas, composta apenas por homens brancos e de idade avançada. A todo o momento, a personagem demonstra o empoderamento feminino perante a sociedade científica machista que sempre desdenhou de sua capacidade e inteligência. 

Em contrapartida, temos seu irmão McGregor, que poderia ter tido uma melhor apresentação durante o longa. Ele se junta a causa de Lily por ela ter sido a única da família que não o abandonou após recusar três casamentos arranjados por possuir “outros interesses”. Porém, em “Jungle Cruise”, a Disney acaba optando por não abordar isso de forma clara, deixando a orientação sexual do personagem subentendida.

McGregor acaba sendo vítima de velhos estereótipos de personagens não-heterossexuais no cinema. Vemos um homem “delicado” e que possui grande interesse por roupas, boa aparência e atividades recreativas, como tomar chá, por exemplo. Ressalto que o problema não é a caracterização do personagem com trejeitos femininos. Mas, sim, o modo de como isso é apresentado: a ideia que fica é um personagem que poderia ter sido mais interessante, mas que, no fim, foi pouco explorado.

Amazônia pouco valorizada

A Amazônia possui imensas riquezas naturais, isso já é conhecimento de todos. Em “Jungle Cruise”, vemos a fauna e flora características da região, como onças-pintadas, tucanos, araras, grandes florestas e o enorme rio Amazonas. É possível ver que a produção se preocupou bastante em criar uma ambientação fiel. Porém, o que faltou foi o refinamento dos efeitos especiais. 

Ainda que o teor fantasioso seja o mote do filme, a ausência de aperfeiçoamento nos efeitos acaba deixando a floresta amazônica exótica demais. E isso, pode inclusive, distanciar o público conterrâneo de se envolver com “Jungle Cruise”. Sem falar em algumas cenas que causam certo desconforto no que diz respeito à relação de homens brancos e nativos indígenas. Mesmo que não seja desrespeitoso, certos diálogos poderiam muito bem ter sido engavetados. 

Por fim, a adaptação para o cinema de “Jungle Cruise” é uma boa estratégia comercial para aumentar o interesse de visitação do público aos parques da Disney. Além de ser um bom filme para assistir em um domingo com toda a família por se tratar de uma aventura recheada de fantasias e mistérios. Porém, como uma produção cinematográfica capaz de render outra franquia para o estúdio, deixa a desejar.

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