‘La Casa de Papel’ é um grande sucesso de público na Netflix pelo quarto ano seguido e, assim como anteriormente, continua a apresentar múltiplos problemas estruturais. Confirmando tudo que eu já falei sobre a produção aqui no Cine Set, a quarta temporada repete a bagunça nos roteiros, a dificuldade em estabelecer narrativas a longo prazo e continua a se apoiar na dinâmica entre seus personagens como principal argumento. Ainda assim, é preciso admitir: o que falta em coesão sobra em criatividade.

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Desta vez, “La Casa de Papel” volta com o assalto ao Banco da Espanha em um momento em que tudo está dando errado para os anti-heróis. Professor (Álvaro Morte), como líder do grupo, precisa lidar com a suposta morte de Lisboa (Itziar Ituño) e a possível perda de Nairóbi (Alba Flores) durante o roubo. Como se isso não bastasse, a liderança de Tóquio (Úrsula Corberó) sobre Palermo (Rodrigo De la Serna) gera conflitos pessoais entre o grupo e revela o refém Gandía (José Manuel Poga) como grande rival dos atracadores.

Neste rápido apanhado da temporada, já é possível perceber que há muitas histórias sendo contadas dentro dos escassos oito episódios. Assim, quando a narrativa começa a perder fôlego ou precisa dar uma explicação mais concreta, a trama avança sem que o espectador perceba todos os furos deixados pelos roteiros.

PEQUENOS ACERTOS

Até aqui não temos nenhuma novidade do que foi visto nas temporadas anteriores. Partindo deste princípio, a grande mudança positiva é o maior desenvolvimento de personagens secundários. Como a terceira e quarta parte foram feitas após a renovação da série pela Netflix, é possível aprofundar Gandía, Bogotá (Hovik Keuchkerian) e Marselha (Luka Peros), os quais haviam aparecido de forma inexpressiva anteriormente.

De forma surpreendente, os insistentes flashbacks passam a funcionar na narrativa. Se antes eles eram incansavelmente repetidos, agora são milimetricamente planejados para combinar com a trama do presente. Assim, além de mostrar mais sobre os personagens, o recurso também convenientemente dá respostas para as confusões do roteiro.

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Por fim, é preciso destacar a direção de fotografia mais contemplativa e atenciosa nesta temporada. Apesar de ainda existir uma grande urgência de takes mais curtos para as cenas de ação, quando a relação entre os assaltantes invade a tela, alguns segundos a mais podem ser contemplados como uma forma da fotografia eternizar tais acontecimentos.

NARRATIVAS MAIS RELEVANTES

Se por um lado os roteiros exigem um grande desprendimento da realidade do público, por outro, eles inserem mais temáticas atuais como forma de compensação. Assim, narrativas sobre estupro e personagens transsexuais são inseridas.

Isto é resultado, principalmente, da maior atenção aos reféns do assalto. Manila (Belén Cuesta), é uma assaltante inserida no grupo para evitar qualquer tipo de rebeldia. Sua função assim como o fato de ser uma mulher trans é restrita a poucos diálogos no seriado. Do mesmo jeito, um estupro ocorre entre os reféns sem grandes consequências para a trama ou para os personagens envolvidos até então. Apesar destas duas histórias serem formas da série adotar narrativas mais relevantes, é preciso antes de tudo considerar a responsabilidade em tratar sobre temas tão delicados e, ainda mais, levá-los adiante numa próxima temporada.

Com diversas escolhas questionáveis e roteiros totalmente bagunçados, ‘La Casa de Papel’ prova mais um ano que possui criatividade o suficiente para manter o público interessado em sua trama. Apesar de oferecer poucas novidades, a fórmula adotada pela produção deixa de lado indícios de cansaço ou desapego por parte do público. 

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