Na literatura, chamam de precursora ou marco a obra que dá início a um movimento literário. Ela, geralmente, costuma conter características e temáticas que influenciarão as outras produções desse período. Foi assim com a “Divina Comédia” de Dante de Alighieri no Renascimento e “Prosopopéia” de Bento Teixeira no Barroco português, por exemplo. E é dessa forma que me senti ao assistir “Love Story” e pensar nas inúmeras vezes em que contemplei narrativas semelhantes.

O filme conta a história de Oliver Barret IV (Ryan O’Neal), um estudante de Harvard, e Jenny Cavilleri (Ali MacGraw), aluna de música de Radcliffe. Apesar de suas diferenças, os dois se apaixonam e vivem uma doce história de amor ao som da trilha sonora de Francis Lai, vencedor do Oscar e o Globo de Ouro pelo projeto. No entanto, o que atrai curiosidade no filme dirigido por Arthur Hiller é o quanto ele serviu de inspiração para produções de gênero romântico do Lifetime e na composição de personagens colegiais.

Introdução ao Romance

É inegável que a história de amor contada por Hiller tornou-se atemporal e introduziu elementos que se tornaram convencionais nos romances, principalmente, àqueles feitos diretamente para a TV. Entre as características que se tornariam frequentes no gênero cinematográfico a partir de “Love Stoy” estão a fotografia com pouca profundidade, a trilha sonora para embalar passagens de tempo e momentos reflexivos e a construção narrativa na qual a família é o principal opositor ao enlace e os amantes são capazes de fazer tudo para estarem juntos.

Em outras palavras, Hiller introduziu todo o melodrama que ficaria popular com os romances de Nicholas Sparks. O roteiro de Erich Seagal, que se tornaria um livro, logo após o lançamento de “Love Story”, investiu em uma narrativa linear na qual a prioridade é mostrar como o casal se conecta e está disposto a se amar para sempre.

Para essa construção, no entanto, percebe-se a ausência de personagens tridimensionais e até mesmo de maniqueísmo. O vilão nessa história de amor é a vida adulta ou a dois e as intempéries que as acompanham. Nem mesmo o drama familiar que tem peso na primeira parte do filme consegue acinzentar os personagens, porque não há investimento neste aspecto. Em momento algum, as atitudes do pai de Oliver são incisivas ou com penalidade ao filho; a decisão de se afastar é do marido de Jenny. Assim como seu posicionamento em impedi-la de seguir seus sonhos para que seja sua apoiadora e esposa bela e do lar, conceitos aceitos para a década de 70.

PERSONAGENS E O COMING OF AGE

É possível notar, no entanto, que alguns elementos identitários dos personagens principais  de “Love Story” tornaram-se recorrentes em personagens de coming-age como o atletismo e a forma fofa como Barret trata Jenny – o que pode ser visto em Peter Kavinsky de “Para Todos os Garotos que Já Amei” ou Austin Amen de “A Nova Cinderela”, por exemplo. Já Jenny serviu de base para as protagonistas adolescentes que se afastam do ideal de heroína idealizada romântica e seguem por um caminho alternando entre ser debochada e difícil como Kat Strattford de “10 Coisas que Odeio em Você”.

Honestamente, Love Story não elenca o top 10 das minhas histórias de amor favoritas, mas não se pode negar o legado e a influência do filme. Sua marca é tão forte que nem mesmo Manoel Carlos escapou dela, que o digam “Laços de Família” e “Páginas da Vida”.

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