Até agora, Lovecraft Country se mostrou meio que uma montanha-russa: um episódio muito bom, seguido de um fraco; mais um muito bom, outro problemático. Pois bem, é ótimo notar que neste quinto episódio da temporada, “Um caso estranho”, a gangorra sobe novamente. Conduzido acima de tudo por uma atuação inspirada, “Um caso estranho” é uma hora de TV envolvente, criativa e que fala de transformações, metafóricas ou literais, e ainda prepara terreno para eventos futuros com competência.

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×01

Curiosamente, nosso trio de protagonistas aqui é deixado em segundo plano, para que o episódio se concentre em Ruby (Wunmi Mosaku). Já na abertura do episódio, somos jogados numa circunstância insana quando ela acorda, literalmente, como uma mulher branca, mais precisamente, Dell (Jamie Neumann), que já apareceu antes lá atrás no segundo episódio. Desorientada, ela sai pelas ruas e acaba esbarrando num rapaz negro. A polícia logo surge, querendo acabar com a raça do pobre coitado por julgar, sem evidência alguma, que ele tentou agredir a mulher branca. É quando ela experimenta um poder que nunca tinha possuído antes: o poder de ser branco. Apenas com algumas palavras, ela manda os policiais truculentos embora.

Claro, o que aconteceu com ela foi proveniente de uma poção mágica dos Braitwhite, e ocorreu depois de passar a noite com William. Ao longo do episódio a vemos viver alguns dias na pele de uma mulher branca, para quem muitas portas estão abertas. Segundo William, é uma situação análoga à que existe entre borboletas e lagartas. A mágica não é permanente, num toque inteligente do roteiro e que gera situações dramáticas e também bizarras ao longo do episódio. A negritude está sempre a algumas horas de retornar, sempre sob a superfície do corpo, o que resulta em cenas impactantes – os efeitos de computação gráfica são bons e os de maquiagem estupendos. As cenas da pele se quebrando, revelando a pessoa por baixo, são bem nojentas, como deveriam ser, e se configuram em alguns dos momentos mais viscerais da série até o momento.

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×02

Mas o melhor efeito especial do episódio é a atuação de Jamie Neumann, que espectadores da HBO já devem ter na memória por causa da sua ótima participação em The Deuce. Neumann é fantástica aqui, combinando com inteligência a sua performance com a de Wunmi Mosaku, que faz a verdadeira Ruby, e adicionando toques sutis próprios. Ela retrata com perfeição a transformação da personagem e as suas complexidades – como, por exemplo, seu tratamento condescendente da jovem negra com quem passa a trabalhar na loja de departamentos. Realmente a magia de ser branca sobe à cabeça da personagem, ao menos por um tempo, num dos lances mais criativos do roteiro do episódio.

GANGORRA PARA CIMA

Enquanto tudo isso ocorre, nossos heróis experimentam repercussões dos episódios passados. Tic e Montrose chegam a um forte impasse – é interessante que os roteiristas não perdem tempo em lidar com as consequências do final do episódio passado, e fazem os personagens romper de imediato. E o relacionamento entre Tic e Letitia prossegue quente, mas sofre um baque quando ela percebe que tudo pelo que passaram até agora está “corrompendo-os”, e segredos do passado podem vir para destruí-los. Tudo é preparação de terreno para os próximos episódios, mas feito de forma dramática e competente.

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×03

Em paralelo com a trama da Ruby, o roteiro também nos mostra outra transformação. Algo de que se suspeitava pelo episódio anterior é confirmado aqui: Montrose é gay, e a sua cena no baile é filmada como um belo triunfo pela diretora Cheryl Dunye. A diretora, aliás, impõe realmente um tom mais forte a este episódio, que ainda inclui uma cena de violência – com teor sexual – que parece retribuição contra tantas violações sofridas pelos negros (e negras) nas mãos de brancos ao longo da História; e uma grande revelação capaz de adicionar ainda mais loucura e imprevisibilidade na série. Ao se focar no estranho caso de uma mulher negra que experimentou ser branca por uns dias, Lovecraft Country produz mais uma interessante e ótima hora de televisão. Esperemos que a gangorra não desça na semana que vem, e que a série exiba um prumo mais firme daqui para diante.

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×04

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