O cineasta indiano M. Night Shyamalan é aquilo: ou você ama ou você odeia. Não há meio termo quando o seu nome está envolvido em uma roda de conversa ou internet afora. Desde que se revelou ao mundo com o clássico O Sexto Sentido (1999), Shyamalan viu sua popularidade crescer com uma legião de fãs e outra de “haters” (ou simplesmente aqueles que discordam de suas produções) na mesma proporção.

O fato é que o cara realmente tem uma filmografia inconstante, do já citado O Sexto Sentido, passando por Corpo Fechado (2000), A Dama na Água (2006) e Fragmentado (2016) – estes, eleitos pela pessoa que vos escreve, como seus melhores filmes – e bombas colossais como Sinais (2002), A Vila (2004) e O Último Mestre do Ar (2010), é inquestionável que ele têm ótimas histórias, porém sua execução é de gosto duvidoso, para não falar ruim.

Seu novo clássico – e aí, leitor, você decide se é um clássico bom ou um clássico ruim – não foge muito à regra das narrativas presentes em suas obras anteriores: uma boa história, mas a execução deixa a desejar.

Na trama de “Tempo”, um casal (Gael Garcia Bernal e Vicky Krieps: ele dispensa apresentações, ela esteve Trama Fantasma, 2017) saem de férias com seus dois filhos pequenos para uma ilha remota e paradisíaca. Em meio ao luxo do hotel, eles partem para desbravar uma praia afastada  junto a uma outra família liderada por Rufus Sewell (Meu Pai, 2020). Em meio a beleza natural exorbitante, há um cara meio estranho, Aaron Pierre (da minissérie The Underground Railroad). Nesse meio tempo, chega mais um casal, Nikki Amuka-Bird (da série britânica Luther) e Ken Leung (da franquia de terror Jogos Mortais). E aí os mistérios se iniciam como um corpo de uma jovem boiando na praia, imediatamente acusam o personagem de Aaron, pois ela estava em companhia dele. Mas esse é o menor dos seus problemas, pois, inexplicavelmente, todos entram em um processo acelerado de envelhecimento. Anos de suas vidas se perdem em instantes.

DILEMAS CONTEMPORÂNEOS

Como já dito, Shyamalan é um cara de boas ideias. Sua trama, inspirada na HQ Castelo de Areia, de Pierre Oscar Levy e Frederik Pee, nos leva a um lugar muito comum nos dias atuais: o tempo e de como não sabemos usá-lo ao nosso favor. Em um mundo capitalista e adoecido como o nosso, estamos sempre em busca de algo para suprir nossa carência em ser e ter. Consumo, lucro, exaltação do corpo (branco) perfeito, etc. Condição nossa que aceitamos pois já foi legitimada antes mesmo de estarmos aqui.

E o tempo? Quando se tem tempo para as coisas simples, para nós mesmos, para a nossa saúde mental, física? Quando temos tempo para nossos familiares, amigos ou entes queridos? Quando temos tempo para compreender e se aproximar do próximo? Entender o que há de errado dentro da nossa própria casa? Ver os filhos crescerem? Enfim, são algumas perguntas que estão para além do filme, pois essa é uma preocupação universal dentro do contexto capitalista tecnológico em que vivemos.

E essa ilha, esse lugar lindo que tira o fôlego, diz muito sobre todas estas questões. Estamos presos nesta ilha, nessa comunidade privativa que nós mesmos construímos. É uma ilha que, embora seja perfeita, tenha seus encantos, é perigosa, têm suas armadilhas e falta de atenção e sensibilidade te leva a uma areia movediça. Como diz Caetano Veloso, “é preciso estar atento e forte”.

 LIRISMO SEM IDEIAS

Todavia, por mais que seja essa a mensagem, o longa não deixa de ser seus muitos problemas. Aqui, eles recaem todos nas costas de Shyamalan! Os atores estão ótimos em cena, mas alguns diálogos beiram à cafonice e umas situações são embaraçosas, como as duas crianças que já jovens, nas personas de Alex Wolff (“Hereditário) e Eliza Scanlen (“Objetos Cortantes), aparecem “grávidos” em uma sequência constrangedora. Aliás, esse segundo ato do filme é muita gritaria e pouca ação de fato.

Soma-se a isso, ao final anticlimático, que deveria ser o plot twist muito mastigado e pronto! Temos um filme do M. Night Shyamalan!

Na música, fala-se do sujeito lírico, isto é, a musicalidade, a melodia, cadência da canção que deve estar em harmonia com a letra. Exemplos não faltam de uma música agradável em sua melodia e letra ruim ou vice-versa. Tempo é exatamente assim, o seu lirismo não condiz com sua letra/ideia: a sua execução é eficaz até certo ponto, mas, não consegue preencher a totalidade.

Tempo é como aquelas músicas chicletes: martelam a cabeça por dias até que esquecemos de vez da sua existência.

CRÍTICA | ‘Twisters’: senso de perigo cresce em sequência superior ao original

Quando, logo na primeira cena, um tornado começa a matar, um a um, a equipe de adolescentes metidos a cientistas comandada por Kate (Daisy Edgar-Jones) como um vilão de filme slasher, fica claro que estamos diante de algo diferente do “Twister” de 1996. Leia-se: um...

CRÍTICA | ‘In a Violent Nature’: tentativa (quase) boa de desconstrução do Slasher

O slasher é um dos subgêneros mais fáceis de se identificar dentro do cinema de terror. Caracterizado por um assassino geralmente mascarado que persegue e mata suas vítimas, frequentemente adolescentes ou jovens adultos, esses filmes seguem uma fórmula bem definida....

CRÍTICA | ‘MaXXXine’: mais estilo que substância

A atriz Mia Goth e o diretor Ti West estabeleceram uma daquelas parcerias especiais e incríveis do cinema quando fizeram X: A Marca da Morte (2021): o que era para ser um terror despretensioso que homenagearia o cinema slasher e também o seu primo mal visto, o pornô,...

CRÍTICA | ‘Salão de baile’: documentário enciclopédico sobre Ballroom transcende padrão pelo conteúdo

Documentários tradicionais e que se fazem de entrevistas alternadas com imagens de arquivo ou de preenchimento sobre o tema normalmente resultam em experiências repetitivas, monótonas e desinteressantes. Mas como a regra principal do cinema é: não tem regra. Salão de...

CRÍTICA | ‘Geração Ciborgue’ e a desconexão social de uma geração

Kai cria um implante externo na têmpora que permite, por vibrações e por uma conexão a sensores de órbita, “ouvir” cada raio cósmico e tempestade solar que atinge o planeta Terra. Ao seu lado, outros tem aparatos similares que permitem a conversão de cor em som. De...

CRÍTICA | ‘Um Dia Antes de Todos os Outros’: drama naturalista não supera pecha de inofensivo

Pontuado por lampejos de qualquer coisa singular, Um dia antes de todos os outros é a epítome do drama independente naturalista brasileiro contemporâneo. A simplicidade de um conceito: um dia para desocupar um apartamento que coloca quatro mulheres diferentes nesse...

CRÍTICA | ‘Ivo’: simplismo naturalista leve para lidar com temas muito pesados

Enfermeira e ceifadora, a personagem título de Ivo expressa pela atriz Minna Wündrich tudo o que o filme é. A morte como elemento constante e sem cerimônia. A inevitabilidade da vida tratada com leveza mas não tanto. Com seriedade mas não tanto. Com um humor que não...

CRÍTICA | ‘Baby’: Existe amor em éssipê

O recomeço é sempre um processo difícil. Para muitos garotos ainda no fim da adolescência ou no início da vida adulta, ele é ingrato por natureza. Em “Baby”, o diretor Marcelo Caetano parte de um recomeço forçado para contar uma história de sobrevivência e encontro....

CRÍTICA | ‘Não existe almoço grátis’: doc. sobre cozinhas solidárias do MTST fica no arroz com feijão bem feito

Filme de estreia de sua dupla de diretores, Não existe almoço grátis meio que não erra em nada. É um documentário que consegue o que quer no retrato de suas três personagens principais como exemplos da pluralidade da cozinha solidária do MTST. Que apresenta bem o...

CRÍTICA | ‘Um Tira da Pesada 4’: o filme mais preguiçoso da temporada

Quarenta anos depois, a cidade de Detroit continua feia e o astro Eddie Murphy muito engraçado... e preguiçoso. Este Um Tira da Pesada 4: Axel Foley, nova continuação do sucesso de 1984 que transformou Murphy em mega astro mundial, chega à Netflix como um exercício de...