“Manhãs de Setembro” é uma série recém-lançada pelo Prime Vídeo e traz a cantora Liniker no papel da protagonista Cassandra, uma mulher trans que divide seu tempo como motogirl de um aplicativo de entrega e seu trabalho como cantora. Somos apresentados à personagem em um momento de independência (ponto central para a narrativa) onde ela está de mudança para uma quitinete e irá morar sozinha pela primeira vez. Nesse momento, ela descobre a existência de um filho que não conhecia, Gersinho, gerado 10 anos atrás e quando Cassandra ainda não havia iniciado sua transição.

A série possui cinco episódios de 30 minutos em média. A duração é importante pois “Manhãs de setembro” agrega características de uma série, como personagens secundários com mais espaço do que teriam em um longa-metragem, ou mais arcos do que a estrutura tradicional de um filme, que, pela sua curta duração, acabam ficando de lado. O próprio plot principal da obra – a aparição inesperada do filho – fica prejudicada por essa estrutura.

FIDELIDADE A SI MESMA

Sem dúvidas, “Manhãs de Setembro” possui como maior valor suas atuações. Liniker está muito bem em seu papel, embora sua personagem não passe por tantas transformações como se é esperado em uma estrutura clássica de seriado. Podemos observar a força de uma mulher que tenta se afirmar a cada instante, principalmente em relação a sua questão financeira. Do início ao fim, “Manhãs de setembro” trata sobre independência. Como ela pode ser conquistada ou perdida e como chega com mais dificuldade para pessoas em grupos socialmente agredidos.

É interessante, nesse ponto, como a série constrói Cassandra como uma personagem que não pretende dar o braço a torcer para constituir suas vontades, colocando-a em situações dúbias, fazendo-a parecer a vilã em certos momentos, mas sem crucificá-la. Cassandra mantém-se fiel a si mesma do início ao fim. Para essa situação, Leide (Karine Teles), a mãe do filho de Cassandra, é a personagem que mais contribui. Ela abarca os momentos mais engraçados e também sensíveis da história, cumprindo bem um papel de antagonista carismática.

 ROMANCE MAL ESTRUTURADO

O romance entre Cassandra e Ivaldo é o outro arco com maior presença na narrativa, e é nele onde persiste a maior inconstância de “Manhãs de Setembro”. É notório que a série queria abarcar as dificuldades de um relacionamento amoroso para uma mulher trans, ainda mais com um homem cis.

Mas o romance dos personagens é melhor construído em sua fase boa, já que a desconstrução da harmonia entre os dois é um tanto abrupta e sofre com a já citada curta duração. A relação de Ivaldo com sua família poderia ser mais explorada para construir uma base maior para o momento de cisão entre ele e Cassandra, já que a chegada de Gersinho não foi colocada como um problema para o relacionamento dos dois.

Tendo o término do romance essa construção falha, a sequência que serviria para colocar Cassandra mais uma vez nesse lugar de independência (agora em relação ao namoro) é prejudicada.

Nesse sentido, a cena onde ela conversa junto as suas amigas sobre as dificuldades pelas quais mulheres trans e travestis passam em relacionamentos com homens cis funciona de forma isolada, ao construir uma cena bonita entre as personagens, mas distante do restante da obra.

VANUSA, A MUSA INSPIRADORA

A relação entre a protagonista e seu filho, por outro lado, recebe um final condizente com seu desenvolvimento. Ao longo da série, Cassandra convive com a voz de sua ídola Vanusa na cabeça. O título da série é uma homenagem à cantora, que possui uma música homônima ao título que, inclusive, é interpretada durante os episódios.

A voz de Vanusa que ecoa na cabeça de Cassandra sempre se refere aos anseios da protagonista. Logo no início, vemos uma foto de Vanusa e da mãe da motogirl na parede da quitinete. Algum tempo depois, fica claro que a relação de Cassandra com sua mãe é um tanto traumática.

É nesse caminho, para estabelecer uma melhor relação com seu filho, que Cassandra contraria a voz que permeia seus pensamentos, completando seu arco de independência, agora em relação a seus medos maternos, mas sem fazê-la sair de seu lugar de afirmação ou apelar para uma reconciliação melodramática que, de forma nenhuma, combinaria com a protagonista.

‘Obi-Wan Kenobi’ – Episódio 6: série teria sido um grande filme

E Obi-Wan Kenobi chega ao fim com esta Parte 6 (da série? Ou da temporada? Até o momento, nada foi confirmado). Bem, é um fim. E agora, vendo a coisa toda em retrospecto, algo fica claro: teria funcionado melhor como filme. E de fato, pesquisando um pouco sobre as...

‘A Escada’: direção criativa acerta ao contar narrativa repetida

Em 2018, a Netflix colocou em seu streaming a produção documental “The Staircase”, dirigida por Jean-Xavier de Lestrade (vencedor do Oscar de melhor documentário por “Assassinato numa manhã de domingo”). A série true-crime acompanha o escritor Michael Peterson,...

‘Em Casa com os Gil’: palco de afeto e musicalidade

“Em Casa com os Gil”, nova aposta da Amazon Prime, é um convite para adentrar a casa de um dos maiores artistas da história da música e cultura brasileira, Gilberto Gil. Ali, naquele casarão em Araras (RJ), com o seu clã todo reunido, Gil abre a suas portas e...

‘Obi-Wan Kenobi’ – Episódio 5: oportunidades perdidas

Quem está acompanhando as críticas de Obi-Wan Kenobi aqui no Cine Set deve ter notado que tenho considerado a personagem Reva problemática. Por quatro episódios, ela parecia malvada demais, exageradamente determinada em encontrar o herói da trama sem que houvesse uma...

‘Maldivas’: diversão inofensiva made in Netflix

Nada como uma boa diversão inofensiva, né? Tem dias que pedem (se bem que, sendo brasileira, isso é a todo momento). Foi com isso na cabeça que comecei a assistir a “Maldivas”, nova série nacional da Netflix. No caso dessa produção, é difícil desassociar-se da...

‘Obi-Wan Kenobi’ – Episódio 4: série avança ao resgatar essência de ‘Star Wars

“Star Wars” nunca deve ser enfadonho. É uma das lições que a trilogia original ainda lega aos cineastas que seguem seus passos e continuam explorando o universo que George Lucas criou, seja no cinema e, agora, no streaming. Às vezes, o roteiro ou a história em si...

‘Iluminadas’: Wagner Moura brilha em série sobre misoginia nos anos 1990

Se remakes e a onda de nostalgia tem sido alguns dos propulsores da cultura pop, “Iluminadas” consegue homenagear os filmes de suspense e serial killer populares nos anos 1990. Baseada no livro homônimo de Lauren Beukes, a produção original da Apple TV+ conta com um...

‘Obi-Wan Kenobi’ – Episódio 3: o retorno de Darth Vader

Bem... Sabíamos que ele iria aparecer, certo? A Disney já tinha divulgado uma foto dele antes da estreia de Obi-Wan Kenobi e a cena final da Parte 2 da minissérie praticamente garantia que veríamos ninguém menos que Darth Vader. Agora, neste novo episódio, o lorde...

‘Stranger Things 4’ – Volume 1: força do elenco move temporada

Quando “Lost” começou a ruir definitivamente, os resilientes fãs permaneceram acompanhando a série muito mais pelo apego a Jack, Kate, Sawyer, Sayid, Desmond do que pela vã esperança de que os mistérios teriam uma resolução diga. Da mesma forma ainda que (bem) longe...

‘Obi-Wan Kenobi’ – Episódios 1 e 2

Antes de tudo, uma confissão, leitor, em nome da honestidade: eu me desliguei de Star Wars desde o final de 2019, quando fui ao cinema testemunhar o desastre A Ascensão Skywalker. Sério, o filme do J. J. Abrams conseguiu realizar a façanha de pegar meu entusiasmo pela...