O curta documentário “Mestres da Tradição na Terra do Guaraná”, com direção de Ramon Morato, foca nos músicos que mantêm vivos os ritmos de cancioneiro interiorano amazonense. São canções e ritos comunitários, cujas raízes remontam a culturas indígenas e afrodescendentes, tais como o Gambá, Boi de terreiro e folguedos diretamente ligados a tradições que hoje vemos, de maneira remodelada e massificada, em eventos grandes como o Festival Folclórico de Parintins, por exemplo. 

O tema é fascinante, porém, perde uma parte de sua potência por conta de uma direção, que parece ter dificuldade em seguir um norte para a atmosfera do documentário. Temos, por exemplo, planos muito bonitos e de enquadramento criativo, com o foco total nos músicos apresentando suas canções tradicionais, e algumas sequências de apresentação do boi Teimosinho também seguem essa direção mais segura, com um senso de naturalismo que cai bem ao tema.  

Por outro lado, temos uma profusão de imagens de drone que adiciona informação visual nenhuma em relação às anteriores. São takes tecnicamente bem-feitos, mas, por serem muitos, dão uma sensação de distanciamento dos personagens, e não de contextualização geográfica. 

Alguns efeitos de transição seguem a mesma linha, no sentido de serem dispensáveis. Ainda que breves, eles tiram a sensação de proximidade com o lugar e as pessoas, que são tão cativantes por conta do orgulho de colaborar com a manutenção de suas tradições.  

Em termos visuais, o ponto mais baixo é o filtro utilizado nas cenas acompanhando a canção sobre o ser mítico Tapiraiauára. Este conta com uma representação feita com uma interessante alegoria cênica, aos moldes das do Festival de Parintins, sendo também criada na comunidade e manipulada por pessoas do local. É um aparato artesanal, intrigante, que ilustra uma narrativa musical única em ritmo e temática, a qual não tem motivo nenhum para não ser mostrada tal como é. 

RITMO AMPLIFICADO 

E falando em música, ela é o ponto alto do curta. Especialmente quando o documentário permite uma abordagem mais simples e deixa que som e imagem atuem harmoniosamente, a riqueza do ritmo se amplifica, permitindo que possamos de fato, enquanto espectadores, imergir no universo do curta e na beleza do cancioneiro tradicional de Maués.  

Nesse sentido, os comentários dos Mestres fortalecem a identificação com o tema do documentário. Além disso, complementam e contextualizam a música quanto aos seus contextos de criação, performance e manutenção enquanto artefato cultural. 

É especial, nesses trechos do curta, ver a valorização daquele ofício por parte dos Mestres e o papel que eles exercem dentro da sociedade. Um deles, em dado momento, afirma: “a cultura leva a gente a ter mais conhecimento”; sendo assim, eles são próprios são ferramentas de transformação social – e que bom seria se a cultura do país fosse valorizada da forma como eles valorizam. É o micro falando e ensinando ao macro, e é em momentos assim que o documentário nos cativa.