Até que enfim: a série policial mais tagarela e com o clima mais gelado e cerebral da Netflix está de volta. Trata-se da segunda temporada de Mindhunter, que aborda o início dos estudos do FBI sobre a psicologia dos assassinos em série. A série retorna agora com alguns temperos a mais: o da culpa e o do racismo sempre presente na sociedade norte-americana. Depois de lançar uma aclamada primeira temporada em 2017, a espera foi longa para esta segunda. Mas valeu a pena esperar.

O cineasta David Fincher dá o tom, novamente – ele é também produtor-executivo de “Mindhunter” – comandando os três primeiros episódios com seu estilo calculado e cerebral. A temporada começa amarrando algumas pontas soltas da anterior, especificamente o colapso sofrido pelo agente Holden Ford (o ótimo Jonathan Groff). Conversar com serial killers e mergulhar profundamente nas suas psiques afetou o personagem, que busca recuperar seu foco.

Porém, o trabalho na equipe de Ciências Comportamentais do FBI prossegue, com direito a novas entrevistas com psicopatas famosos – nesta temporada dão as caras na série o Assassino BTK, o Filho de Sam e o “astro” Charles Manson, curiosamente interpretado aqui por Damon Harriman, o mesmo ator que o viveu no filme de Quentin Tarantino, Era Uma Vez… Em Hollywood (2019). Mas é Ford quem conduz “Mindhunter” ao seu grande arco de história para esta temporada, o envolvimento da equipe na investigação dos assassinatos de dezenas de crianças afro-americanas em Atlanta, Georgia, no começo dos anos 1980. O caso é real, arrepiante e triste, e você com certeza vai querer pesquisar sobre ele quando acabar a temporada.

REALISMO E IMERSÃO TOTAL

No entanto, enquanto tudo isso ocorre, os roteiristas da série encontram espaço para desenvolver os outros personagens. A controlada doutora Wendy Carr (Anna Torv), que é lésbica, se envolve em um romance que a faz expor suas próprias tendências neuróticas, e Bill Tench (Holt McCallany) de certa forma assume o posto de protagonista da série, uma face mais humana do que a do narcisista e arrogante Ford para carregar “Mindhunter”. A temporada encontra um dilema poderoso para Tench que se encaixa perfeitamente em um dos temas principais da série, o da proximidade do mal.

De perto, ninguém é normal, já diz o ditado, e com contundência, Mindhunter advoga a ideia de que a distância entre os psicopatas cometendo crimes e o mundo “normal” no qual todos vivem, não é tão grande quanto se imagina. Afinal, durante a temporada, mais de uma vez, vemos Tench discutir, em animadas rodas de conversa regadas a bebida, os encontros anteriores deles com assassinos que cometeram crimes terríveis, para interlocutores sempre curiosos…

McCallany e Torv estão excelentes nos seus papeis, e a condução dos episódios também é inteligente. Merecem destaque, entre os momentos criativos de direção na temporada, a decisão de Fincher de manter fora de foco uma das vítimas do BTK, um homem deformado após o ataque, enquanto ele conversa com Tench dentro de um carro – esse detalhe deixa o relato do personagem, e a cena, quase surreal e ainda mais aterradora – e o estilo documental da marcha pelas vítimas de Atlanta no episódio 7, filmada pelo diretor Carl Franklin com granulações, como em um documentário da época.

Além de Fincher e Franklin, o outro diretor da temporada é Andrew Dominik, de “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” (2007), e a condução de atores deles também merece reconhecimento. Não há nenhuma atuação dissonante: mesmo figuras que aparecem em uma única cena, ou outros com mais tempo de tela, como os atores Albert Jones ou Christopher Livingston, não deixam escapar uma nota em falso. Em nenhum momento, a sensação de realidade e a atmosfera de imersão em “Mindhunter” são quebradas.

HEROÍSMO RIDICULARIZADO

Porém, apesar de tudo, essa temporada será lembrada pelos assassinatos de Atlanta, e ao abordá-los, Mindhunter demonstra coragem por tocar em temas raciais espinhosos, como o óbvio e eterno descaso das autoridades para com as comunidades negras, e a culpa que alguns brancos sentem, o que os leva a se verem como “salvadores da pátria”. É exatamente este o papel de Ford na temporada: afinal, o que o move a querer tanto capturar o assassino das crianças? É a vontade de fazer justiça, o desejo de estudar a mente de mais um serial killer, ou seu senso de auto importância, de se ver – e ser visto – como herói para a comunidade negra que vem perdendo seus filhos de maneira cada vez mais alarmante? Cenas como a da cruz em um episódio crucial, ou o final da temporada deixam bem claro qual é qual… O “salvador branco” é um clichê que Hollywood ainda não abandonou, e é um alivio vê-lo ser ridicularizado aqui, para variar.

Como um todo, a temporada não é perfeita: a crise no lar de Tench se estende um pouco além do necessário, e o problema psicológico de Ford, mostrado de forma tão forte no começo, é resolvido de maneira meio rápida demais. Além disso, por melhor que seja o desempenho de Anna Torv, é difícil não achar que ela foi pouco utilizada na temporada. Mas são problemas pequenos. Onde a segunda temporada de Mindhunter acerta, acerta em cheio: ao mostrar os seus heróis como pessoas falíveis, ao mostrar como todo um sistema legal falha com uma comunidade, ao mostrar como figuras salvadoras muitas vezes estão mais preocupadas com seus próprios interesses. E ao longo dos episódios, continuamos a ver o assassino BTK em formação, evoluindo… Certas coisas levam tempo mesmo para acontecer, mas na próxima, Mindhunter, por favor, veja se não demora tanto para voltar, ok?

‘Better Call Saul’ 6×07: Plan and Execution

Bem... Até onde algumas pessoas podem ir para ferrar com a vida de uma outra? E o quão rápido as coisas podem ir do céu ao inferno para alguns? Essas são perguntas que ficam na mente ao final do sétimo episódio desta sexta temporada de Better Call Saul, intitulado...

‘Better Call Saul’ 6×06: Axe and Grind

O episódio desta semana de Better Call Saul começa com um flashback, nos mostrando um incidente com Kim na sua infância. Ela é pega roubando numa loja, sua mãe aparece – uma atriz que impressiona pela semelhança com Rhea Seehorn, mais um acerto da escalação de elenco...

‘Better Call Saul’ 6×05: Black and Blue

Dois aspectos de Better Call Saul ficaram claros ao longo da série são: os produtores e roteiristas não têm pressa em construir as situações; e nada acontece de acordo com o esperado. Em relação ao primeiro aspecto, sempre se percebeu o ritmo deliberado da série –...

‘Better Call Saul’ 6×04: Hit and Run

Rhea Seehorn é a revelação de Better Call Saul, uma atriz que se mostrou forte e dona da sua personagem desde sua primeira cena na série, e graças a ela e aos roteiristas e diretores do seriado, a Kim se tornou uma das figuras mais marcantes do universo criado por...

‘Better Call Saul’ 6×03: Rock and Hard Place

AVISO DE SPOILERS: Recomenda-se ler só após assistir ao episódio. Uma das grandes diversões para se acompanhar durante toda a série Better Call Saul era ver personagens inteligentes armando golpes criativos – e engraçados – para enganar alguém. A expectativa para nós,...

‘Ruptura’: o nosso purgatório corporativo de cada dia

“Ruptura” chega até nós causando um bafafá que a compara a “Black Mirror” e “The Office”, mas essas não são as únicas referências que permeiam o trabalho. A temporada, dirigida por Ben Stiller e Aoife McArdle, passa boa parte da primeira metade à procura de um tom...

‘Better Call Saul’ – Episódios 6×01 e 6×02: caminhos sempre inesperados

Aqui estamos, caro leitor: é o retorno da cobertura semanal da sexta e última temporada de Better Call Saul. Faz dois anos desde a quinta temporada, uma longa espera. Nesse meio tempo, a pandemia atrasou as gravações e o lançamento desta última fornada de episódios, e...

‘Anatomia de um Escândalo’: a novela britânica da Netflix

Quando criou Big Little Lies para a TV, David E. Kelley escreveu sobre a vida de três mulheres distintas que viviam em Monterrey, Califórnia. Entre traições, violência doméstica e disputas de ego, ficou claro que contar a crise dentro da classe alta norte-americana...

‘Only Murders In the Building’: a imaginação e sua capacidade de unir gerações

Steve Martin e Martin Short são duas lendas do teatro, televisão e cinema de Hollywood. Mestres da comédia, durante anos emendaram sucesso atrás de sucesso nestas diversas áreas sempre muito celebrados com crítica, público, prêmios e dinheiro. Mas, no showbusiness...

‘Pam & Tommy’: acerto em uma onda de revisionismo

Era apenas questão de tempo que Hollywood resolvesse contar a história de um de seus maiores ícones recentes, símbolo da década de 1990 e vítima do primeiro viral de uma internet que ainda era novidade até mesmo para quem poderia pagar para tê-la com facilidade...