Filme de estreia de sua dupla de diretores, Não existe almoço grátis meio que não erra em nada. É um documentário que consegue o que quer no retrato de suas três personagens principais como exemplos da pluralidade da cozinha solidária do MTST. Que apresenta bem o funcionamento e a importância da organização. Que demarca um tempo. Capturando esse momento emblemático da posse do terceiro mandato do governo Lula. Governo que vem como resposta à presidência liberal fascista de Jair Bolsonaro. 

Mas tal qual uma marmita bem feita de arroz com feijão. Por mais que preencha e alimente o espectador de acordo com todas essas pretensões, ele nunca chega longe a ponto de ser particularmente marcante também. Deixando aqui e ali alguns elementos que – e eu juro que paro por aqui com a metáfora de comida – deixam um gostinho de quero mais. 

Isto é. Se a gente pensar no filme em partes. Ele tem essas três frentes principais. A apresentação das personagens. A demarcação histórica do registro desse dia. O funcionamento da cozinha do MTST. Tudo que converge para uma exploração do que é e do que é feito um movimento social. 

No caso das três mulheres no centro de tudo. Bizza Araújo, Jurailde Rodrigues e Socorro Rodrigues se tornam o rosto do que é a cozinha solidária. Gente não necessariamente hiper inspirada, hiper talentosa que sonhava com a posição, mas que representa muitíssimo bem o espírito do lema socialista de “trabalhar menos, trabalharmos todos, produzir o necessário, distribuir tudo”. 

Cada uma delas com a sua história particular. Cada uma delas com seus interesses. Com sua luta. Com sua capacidade. Uma delas, inclusive, ex-bolsonarista frustrada. Cansada de ser enganada pelas promessas liberais de uma democracia falida. Uma outra, evangélica. Que vê Deus no fruto de seu trabalho. Uma delas que nem sequer gosta tanto de cozinhar, mas percebe o quanto ajuda cedendo seu tempo e seu talento para esse bem maior. 

Além do trabalho importante do dia a dia, elas cozinham em um momento histórico. Para um momento histórico. Para que o movimento que carregam consigo. O movimento dos trabalhadores sem teto. Esteja apto e bem alimentado e fortalecido para comparecer à posse do retorno de um governo popular e progressista para a república. Em um filme que o tempo todo demarca seu tempo. Do nascer ao pôr do sol nos dias que antecedem o primeiro de janeiro de 2023. 

Aqui está um daqueles elementos que deixam o gostinho de quero mais. No como os diretores enquadram a favela do sol nascente – a maior da América Latina – com lentes de profundidade de campo e que aproximam as torres altas do Congresso Nacional dos arredores de Brasília. Achatando a imagem para juntar povo e política.

Entre uma coisa e outra. No caso. Entre as personagens e o momento histórico. Está talvez o que tem de mais interessante em Não existe almoço grátis. A labuta. O dia a dia. 

Em um momento, o gás acaba no meio do trabalho. Em outro, o formato das marmitas é um problema. Em outro, a logística dessa comida toda se prova desafiadora. Café no meio do dia pra aguentar o trabalho. Dinâmica de gerenciamento de bocas de fogão disponíveis. Fornos. Tempo. Distribuição. 

Tudo o que pode até parecer que não importa, mas que traz por si o subtexto que devia ser o principal. Que parece ser algo de importância. O primeiro T do MTST. Os Trabalhadores ou, no caso, as Trabalhadoras. Não só como adjetivo. Não só como descritivo. Mas como conceito. Como base para toda essa luta. Como aspecto que vai remeter todo e qualquer movimento proletário organizado às primeiras e quaisquer revoltas da antiguidade. Até dezenas de milhares de anos antes da invenção do capitalismo e de seus efeitos deletérios à civilização. 

Coisas que fazem pensar no que faz de nós humanos. Viver, trabalhar, comer, dormir sob um teto. Nada que o filme escolha se aprofundar. Mas nada que vá aleijar a experiência de assistí-lo também. 

Porque no todo, Não existe almoço grátis, como já dito, alcança todos os seus objetivos. É um documentário correto e agradável sobre a importância de um movimento. Ainda que lhe falte a ambição de ser algo mais.