É engraçado como alguns filmes nos surpreendem não por fugirem do óbvio, mas por escancará-lo. Em “Agente Duplo”, da diretora Maite Alberdi, disponível na Globoplay e indicado ao Oscar de Melhor Documentário, a simplicidade da proposta de seguir um investigador octogenário colocado em um asilo para investigar supostos maus tratos a uma idosa, por si só, já era intrigante. No entanto, ao partir desse ponto para uma outra investigação, bem mais emocional, o documentário expõe fraturas que a sociedade prefere deixar bem escondidas em um grosso gesso. 

No filme, acompanhamos o octogenário Sergio, que é colocado em um asilo para investigar supostos maus tratos a uma idosa. A princípio, a história poderia ser sobre como um profissional acostumado aos métodos analógicos é confrontado com a tecnologia – afinal, câmeras em celulares e apps de mensagens como o WhatsApp facilitam um trabalho com prazo de entrega, não é? O documentário também poderia seguir a ideia que aparece em sua sinopse e descobrir diversos casos de maus tratos às adoráveis senhoras a que somos apresentados ao longo dos quase 90 minutos de projeção. 

E é com essas ideias na nossa cabeça que acompanhamos o divertido processo de seleção de Sergio e a sua subsequente entrada na casa de repouso San Francisco, em Santiago, no Chile. Mas não é difícil entender que o doc não está interessado em ser um filme-denúncia mais do que está investido em relatar os lutos do nosso “agente duplo” e das moradoras do asilo. 

A IMPERDOÁVEL OBSOLESCÊNCIA 

Colocados ali com a desculpa de estarem produzindo um documentário sobre o local, Maite e sua equipe são os olhos e ouvidos de Sergio e do espectador. Salta a relação das internas com a fé católica. São nas imagens onipresentes de santos que aquelas mulheres encontram o refúgio familiar perdido no dia em que colocaram os pés ali. Os momentos de felicidade genuína são emoldurados pela proximidade entre vida e morte: a poesia que dá boas-vindas é a mesma que diz o adeus.  

A rotina solitária delas é permeada por um conformismo desconcertante. Ao mostrar que a grande negligência é colocar de lado e esquecer os sacrifícios de uma mãe ou avó, e contrastar isso com a saudade que Sergio desperta na família (a cena em que sua filha e a neta aparecem no dia de seu aniversário é de partir o coração), “Agente Duplo” se revela não apenas um filme sobre a fragilidade das relações familiares, mas também sobre como a obsolescência não perdoa. 

“A vida é cruel, no fim das contas”, diz uma das internas. Pois é. 

‘Tina’: documentário para celebrar uma gigante do Rock

Das várias injustiças cometidas contra Tina Turner - a Rainha do Rock -, talvez a mais louca a persistir até hoje seja o fato de ela não constar como artista solo no Hall da Fama do estilo que rege. Os eleitores da organização podem corrigir esse fato em 2021, já que...

‘Os Segredos de Madame Claude’: desperdício de um ícone em filme tão fraco

Tenho um pé atrás com produções que buscam abordar personagens reais com o intuito de vender diversidade e inclusão. Essa sensação é mais aguda diante de projetos que discutem personalidades femininas como “Maria Madalena” (Garth Davis, 2018) e “Joana D’Arc” (Luc...

‘Amor e Monstros’: pouco mais de ousadia faria um grande filme

Os melhores momentos de Amor e Monstros, parceria dos estúdios Paramount Pictures com a Netflix, estão logo no início do filme. É quando o narrador da história, o jovem Joel, reconta o apocalipse que devastou a Terra e que transformou insetos e animais em criaturas...

‘We’: o cinema como construtor de uma memória coletiva

"We", o novo filme de Alice Diop, é várias coisas: uma lembrança familiar, uma celebração das vidas comuns e uma busca pela identidade da França nos dias de hoje. Acima de tudo, o documentário, que ganhou o prêmio de Melhor Filme da mostra Encontros do Festival de...

‘Chaos Walking’: ótimo conceito nem sempre gera bom filme

Toda vez que se inicia a produção de um filme, cineastas participam de um jogo de roleta: por mais bem planejada que seja a obra e não importando o quão bons sejam os colaboradores que eles vão reunir para participar dela, tudo ainda pode acabar mal. Cinema é...

‘Locked Down’: dramédia na pandemia sucumbe à triste realidade

Dentre tantas situações inesperadas da pandemia da Covid, com certeza, a quarentena forçada foi uma grande bomba-relógio para conflitos conjugais e familiares. Agora, se conviver ininterruptamente com quem se ama já é desafiador, imagine passar semanas, meses dentro...

‘Godzilla Vs Kong’: sem vergonha de ser uma divertida bobagem

Não há como contornar: Godzilla vs Kong é um filme bobo. Todos os filmes “versus” feitos até hoje na história do cinema, com um personagem famoso enfrentando outro, foram bobos, e essa nova investida do estúdio Warner Bros. no seu “Monsterverse” – a culminação dele,...

‘Collective’: aula sobre o fundamental papel do jornalismo investigativo

“Collective” é, provavelmente, o filme mais marcante desta temporada de premiações. O documentário dirigido por Alexander Nanau traz à tona denúncias concernentes à corrupção no Ministério da Saúde romeno, algo super atual no período pandêmico e que dialoga com...

‘Moon, 66 Questions’: drama familiar foge do convencional em narrativa ousada

Livremente inspirado em tarô e mitologia, "Moon, 66 Questions" explora as falhas de comunicação e os conflitos geracionais de uma família através dos olhos de uma adolescente. O drama grego, exibido na mostra Encontros do Festival de Berlim deste ano, é carregado de...

‘Fuja’: suspense protocolar impossível de desgrudar da tela

Suspenses domésticos, quando bem feitos, acabam rendendo boas experiências. É o caso deste Fuja, lançado na Netflix – iria originalmente para os cinemas, mas a pandemia alterou esses planos. Não há nada nele que já não tenhamos visto antes, em outras obras tanto...