Os boias-frias quando tomam umas biritas
Espantando a tristeza
Sonham com bife à cavalo, batata frita
E a sobremesa
É goiabada cascão, com muito queijo, depois café
Cigarro e o beijo de uma mulata chamada
Leonor, ou Dagmar

A estrofe de João Bosco pode muito bem ser sinopse de “O Rancho da Goiabada ou Pois é, meu camarada, fácil, fácil não é a vida”, filme de Guilherme Martins que, de caos e anarquia e tudo o mais, se monta pra ser uma ode bagunçada ao proletariado da cidade e do campo. 

Alex Rocha vive Alex aqui. Personagem e performance meio narrativa, meio ficcional, mas 100% natural e reflexiva do mundo real. Colecionando trabalho e experiência e conversa de bar e parada para cigarro e cachaça no fim do dia. Enquanto conversa. Fala. E mais importante, ouve os seus pares trabalhadores. No canavial, numa cozinha de hotel, vendendo filme nacional no transporte público. 

Em um filme feito do trabalho mas também da conversa sobre trabalho. Da labuta mas da teoria posta em prática do discurso marxista. 

A teoria da mais valia que num pedaço de um calhamaço do primeiro volume do Capital vem como equação mas que aqui escorre da boca de um camponês na hora do lanche. Sentado com uma marmita na mão ao lado de uma montanha de cana de açúcar recém cortada e se perguntando: “por que eu ganho cinco reais para cortar uma tonelada de cana?” Vale só isso? Pra quem vai o resto?

Em outros momentos, ele põe em xeque outros discursos. Outras ideologias. Lavando uma montanha de louça e questionando o chef de cozinha de algum hotel decadente: “se eu seguir lavando essa louça, em quanto tempo você acha que eu chego onde você chegou?” É só trabalhar duro ou tem algo mais?

Esse algo mais é uma pedra nesse caminho. Um sistema ao redor disso. 

Mas longe de ser filme só de conversas e ponderações, Rancho da goiabada filosofa a partir da sua montagem de colagem. Zoneada. Caótica. Feita dessas partes da conversa fiada. Do trabalho. Do cigarro olhando pro nada. E até mesmo do sonho com a mulata Dagmar ou Leonor. 

No meio disso, a propaganda estatal de combustível. Do pró-álcool. É só uma concretização econômica de tudo o que se fala no filme. Enquanto ainda serve como fantasma. Como espectro da ditadura tão presente e tão expressa nos grilhões de quem faz esse mundo girar.

Guilherme Martins não parece se preocupar com qualquer lógica nesse híbrido entre documentário, mocumentário e ficção. Embora ele saiba muito bem os caminhos que deve percorrer para que essa salada se torne um filme. O classicismo elegante da rima que começa e termina no bar; os capítulos bem esclarecidos; a fotografia digital hiper contrastada. Deliberadamente suja. Ruidosa. 

Assim como ele nunca discursa de maneira clara. Nunca superficialmente. Nunca tributário de alguma exposição por texto ou diálogo ou artificialidade de encenação. Mas que consegue pôr pra fora todos os seus temas. Porque confia e sabe que são os trabalhadores em sua maior parte que assistirão esse filme e se enxergarão em Alex e em todos ao seu redor.