Com o passar dos anos, M. Night Shyamalan virou uma grife dentro do cinema. Tanto fãs quanto detratores do diretor de O Sexto Sentido (1999), Sinais (2002), A Vila (2004) e Fragmentado (2016) reconhecem que existe um estilo Shyamalan, que foi refinado ao longo dos anos e toda vez que ele lança um novo projeto, há alguns elementos que já são esperados. Agora, chega às telas Os Observadores, a estreia na direção da filha dele, Ishana Night Shyamalan. Vendo o resultado, podemos invocar aquele velho chavão: filha de peixe, peixinho é. Porém, fica-se a desejar que Ishana tivesse recebido mais algumas lições do pai.

Baseado no livro de A. M. Shine, Os Observadores conta a história de Mina (vivida por Dakota Fanning), uma americana que vive e trabalha na Irlanda, gasta os dias trabalhando num pet shop e as noites fingindo ser outra pessoa. E ela tem um trauma. Durante uma viagem, o carro quebra e ela se vê numa daquelas florestas assustadoras típicas do cinema. Mina encontra um abrigo onde tem mais outras três pessoas. Elas lhe contam que, à noite, precisam se refugiar para se abrigar de estranhas criaturas que vivem na mata. Eles também precisam seguir algumas regras, caso contrário podem ser mortos por esses seres sobrenaturais.

Dá para sentir que Ishana herdou o apreço do pai por narrativas fantásticas, climas sinistros e personagens confrontados com o desconhecido e circunstâncias que não conseguem compreender. E há no filme uma disposição para trabalhar com os atores e buscar uma ressonância emocional para o que vemos na tela, uma ambição de fazer uma narrativa não só com sustos, mas também interessante do ponto de vista dramático.

FALTA DE SUBSTÂNCIA

Porém, Ishana dá um passo maior que a perna. Também autora do roteiro de “Os Observadores”, ela não consegue fazer com que nenhum dos personagens seja interessante. A senhora que controla o abrigo (Olwen Fouere) é apenas uma máquina de diálogo expositivo, sempre explicando o que estamos vendo ou fornecendo informações para fazer a trama funcionar. O rapaz (Oliver Finnegan) fica louco quando a trama exige e depois comete uma burrada para gerar tensão de maneira artificial. E a outra personagem (Georgina Campbell)… bem, ela está lá. Até o “drama do passado” da protagonista é raso e usado de forma mecânica pelo roteiro, muito esquelético e básico. Falta mais carne nessa história, mais força e o resultado é um filme que não cativa nem assusta.

Há alguns momentos em que os personagens precisam ficar posando em frente a um espelho para que as criaturas os vejam – uma imagem legal, mas que não passa disso pela artificialidade. Em outros trechos, os heróis assistem a velhos DVDs de um reality show bobo e o filme parece querer estabelecer um paralelo entre a narrativa e a própria noção de um “Big Brother” sobrenatural. Então, por um tempo, parece que “Os Observadores” poderia seguir uma linha metalinguística, talvez revelar os tais observadores como nós, as pessoas do lado de cá da tela. Mas essa é apenas mais uma noção jogada pelo roteiro e não desenvolvida.

Os observadores do título são mesmo criaturas esquisitas que, apesar dos gritos e do trabalho adequado das equipes de fotografia e de som do longa, nunca assustam. E perto do final, Ishana começa a mostrá-los demais, em toda a sua glória de computação gráfica, e quanto mais avança, menos impactantes esses monstros parecem.

EM FASE DE APRENDIZADO

Há algumas qualidades – o papagaio rouba algumas cenas e injeta uma bem-vinda dose de humor, e Dakota Fanning tenta tirar leite de pedra e, às vezes, até consegue. Mas quando chega o plot twist do final, a reviravolta pelo qual papai Shyamalan ficou conhecido, é difícil para Os Observadores escapar da indiferença que desperta. Uma indiferença que decorre de uma indecisão: o próprio filme não parece decidir se quer ser fábula ou terror.

Em sua estreia, Ishana Night Shyamalan até demonstra um certo potencial. Mas Os Observadores é um filme ainda muito inicial, de alguém que ainda precisa pensar mais em caracterização e na construção do roteiro. Ora, o próprio M. Night às vezes tropeça nesses aspectos. Mas têm alguns filmes do papai que Ishana podia estudar, para fortalecer esses atributos para a próxima tentativa.