A realização de um filme de terror/suspense não é umas das tarefas mais simples, pois, quase sempre os diretores caem na armadilha do óbvio em uma complexidade inexistente na obra em questão. Gritos, sussurros, fantasmas, assassino em série, morte e muito sangue: esse é o ingrediente perfeito e comum neste gênero tão querido por boa parte do público. Mas, sejamos sinceros, é preciso muito mais que sangue ou uma scream queen (literalmente, rainha do grito, temor referente às protagonistas de filmes de terror como Jamie Lee Curtis e Neve Campbell, respectivamente, das séries “Halloween” e “Pânico”, duas das maiores do gênero), para surpreender o público  exigente nos dias de hoje.

De vez em quando, porém, se consegue sair do lugar comum e entregar algo acima da média. O último thriller realmente surpreendente foi Hereditário (2018), de Ari Aster. que vem de uma vertente muito produtiva para o gênero, principalmente, por conta da produtora A24 que tem apostado pesado e rendendo resultados satisfatórios.

Um dos grandes filmes “de terror” desse século, “Os Outros”, completa 20 anos em 2021. Lançado em meio à polêmica de ser muito parecido com “O Sexto Sentido” (1999), a obra máxima de M. Night Shyamalan ou se inspirar nos longas de Hitchcock. De fato, os dois longas têm complexidade dramática muito potente, os sinais e mesmo a atmosfera que envolve os protagonistas são bem similares. Entretanto, Alejandro Amenábar consegue convencer a quem assiste e imprimir uma certa assinatura. Um clássico contemporâneo que irá ganhar um remake logo mais.

A obra e suas entrelinhas

Em uma remota e nebulosa ilha vive Grace (Nicole Kidman) e seus dois filhos. Novos empregados chegam para ajudá-la a administrar a imensa mansão em que vivem. Mas há um grande detalhe: seus filhos sofrem de uma doença rara em que não podem ficar expostos à luz. Por isso, grandes e grossas cortinas cercam o ambiente e as crianças do mundo externo. Mas acontecimentos estranhos rondam o interior dessa mansão e o mundo particular de Grace e de seus filhos fica abalada. Não demora para que ela comece a ouvir barulhos, sussurros, vozes. Grace chega ao ponto de uma quase loucura na sua busca desenfreada em proteger seus amados filhos.

“Os Outros” se passa na Segunda Guerra Mundial; não se sabe ao certo o paradeiro do marido de Grace (Christopher Eccleston). Em meio ao clima hostil, de incertezas e sofrimento, aquela mansão escura é o universo de Grace. E ela comanda. É como se nada pudesse atingi-la e a seus filhos. A mansão é um protagonismo à parte, pois engloba essa proteção desenfreada da personagem em cuidar de seus rebentos. As cortinas fechadas representam esse cuidado em que o fator externo não consegue penetrar aquele território. A escuridão é a ignorância em não permitir nada e ninguém atrapalhe a sua dinâmica enquanto uma matriarca. Católica fervorosa, somente os ensinamentos bíblicos e o que ela pensa que sabe do mundo é o suficiente para a criação dos filhos. As portas trancadas representam essa angustia também pelo desconhecido. A forte neblina é como se blindasse aquela casa de tudo e todos e trancafiasse Grace e os demais habitantes do perigo. Mas quem ousa atrapalhar a paz de Grace?

Para além do suspense e todos os signos expostos na película, Amanébar imprime uma reflexão acerca dessa mãe imperfeita que busca na perfeição e disciplina a proteção desmedida aos seus filhos. Mas quem é Grace de fato? Como ela chega até esse ponto? Ela usa de artifícios bíblicos para justificar as suas atitudes, algo muito presente em nossa sociedade que se intensifica cada vez mais.

Outra questão muito forte em cena é o isolamento: no momento como hoje em que estamos e precisamos nos isolar para nos proteger, Amanébar falava sobre isso há 20 anos, claro, guardada às devidas proporções e contexto. Mas todo autocuidado em se afastar da sociedade traz consigo algumas reações, afinal, como sobreviver sem interação senão com as pessoas que lhe são próximas? Os outros, quem são? A reação de Grace pela invasão, ainda que seja de uma maneira não convencional, é muito genuína neste sentido: expõe seu lado mais vulnerável e cai por terra a ilusão de proteção.

A estrela

Nicole Kidman é uma das melhores atrizes de sua geração, mas passou boa parte dos anos 1990 à sombra do seu, então marido, Tom Cruise. Somente após a separação é que ela deu uma guinada em sua carreira. E entrou com os dois pés direitos naquele ano de 2001 com dos clássicos contemporâneos, Os Outros e Moulin Rouge!, filmes que lhe renderam dupla indicação em um Globo de Ouro ainda relevante e uma indicação ao Oscar pelo musical.

Produções completamente diferentes, mas que atestam a genialidade e competência da australiana. Em Os Outros, ela usa da carga dramática forte, da intensidade e da austeridade de uma mulher dominada pela distância do marido, pela doença dos filhos e ter que manter essa persona de mulher dura e dominante. Ao passo que ela vai perdendo o equilíbrio com as manifestações que ocorrem na casa, Nicole sai da zona de conforto de uma scream queen e transfere todo o grito no olhar na respiração ofegante.

É uma personagem em camadas que, junto a um excelente roteiro e direção, se desdobra ao longo da película, é um trabalho meticuloso e nada óbvio. Sem dúvidas, marca uma das grandes performances da atriz que merece mais destaque em sua extensa lista de personagens dúbios e problemáticos.

O brilhantismo técnico de Amenábar

“Os Outros” não é um filme de sustos, mas, sim um thriller que te oferece informações. Seja pela escuridão (a fotografia te oferece esse recurso de imprecisão), a trilha sonora tensa, os móveis, a vestimenta sombria (percebam que somente as crianças em maior tempo usam roupas claras; os demais estão sempre com roupa escura para representar sua personalidade ou mesmo o luto).

Os empregados também são peças fundamentais nesse jogo psicológico arquitetado com maestria por Amenábar na representação de um novo alicerce para Grace, ainda que sejam sombrios e misteriosos e claramente escondem algum segredo, especialmente pelo fato de Senhora Bertha (Fionnula Flanagan, ótima) estar sempre com um semblante desconfiado. Aqui, Amenábar opta pelo drama para desenvolver o terror e esse é um ponto crucial no filme.

A ambientação e direção de arte foram certeiras. Imprime claustrofobia, mistério e é um protagonismo à parte coordenando na narrativa do filme.

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