Nada de novo em pegar histórias pitorescas da América-Latina e submetê-las ao conceito de realismo mágico. Na literatura daqui e na experiência de se viver aqui faz muito sentido olhar para as coisas dessa forma. A piada de que o Brasil ou qualquer país do subconsciente “não é para iniciantes” etc etc. 

Nelson Carlos de Los Santos Arias faz isso com essa história. Esse relato. Esse conjunto de relatos ou de pedaços de causos sobre o hipopótamo africano que aterrorizou geral em alguns povoados colombianos depois que foi trazido para cá para compor o zoológico do então maior traficante do mundo Pablo Escobar. Tudo é feito por essas lentes. Por essas ideias. O absurdo. O esquisito. O surreal.  

Mas “Pepe” demora para se entender realmente. Para descobrir como de verdade ele quer articular esse aspecto de fantasia e de estranheza. Personagens engraçadas? Relatos caricatos dos interiores colombianos? Encenações internas e íntimas ou afastadas e distantes? Conceituais? Mocumentário ou narração ensaística do ponto de vista desses animais? Ele faz um pouco de tudo. O que mil vezes nos tira da ideia central, mas também outras mil nos puxam de volta.  

Em um filme que talvez seja desses que valha ver e rever para capturar tudo, mas que nesse processo de construção de algo mais complexo também talvez deixe um punhado de gente meio alienada de tudo isso. Como se a gente não soubesse bem identificar uma tese aqui.  

A descrição parece de um caos sem fim, mas não é mesmo o caso. Porque de algum jeito tudo parece muito carregado de intenção. Tudo parece querer chegar a algum lugar. Embora descobrir chegar aonde talvez não seja algo fácil de identificar logo de cara.  

Envelopado ao redor de tudo, o que fica com a gente no fim é mesmo o aspecto formal. O jeito de filmar os hipopótamos em si. E as tomadas dos drones. Que parecem diretamente se referir a uma ideia de “território”. Ao “geo” da geopolítica. O aspecto mais sólido e material do mundo.  

Um pedaço do Rio Nilo. Sobreposto em um pedaço de algum rio colombiano. A terra vista de cima. De uma distância quase estratosférica. O mapa impresso na tela em linhas sólidas como que nos lembrando ao mesmo tempo do absurdo do hipopótamo trazido para cá e do absurdo dessa sociedade. Dessas nações formadas a partir de gente trazida para cá.  

E indo mais longe, do aspecto migratório da civilização humana como um todo.  

Nessa viagem. A filosofia fica por conta do narrador. O texto ora mais elaborado, ora mais solto. Ora tolo, ora profundo dele. Ele, no caso, Pepe. O próprio hipopótamo do título. Que fala com várias vozes e várias personalidades. Sobre si e sobre tudo ao redor. 

Mas mesmo com essa viagem toda. Das coisas mais impressionantes que o filme entrega são as construções cênicas com os bichos por si. De um naturalismo que parece ensaiado para ser assim. Mergulhando e saindo da água no momento exato. Aparecendo aqui e ali. Sempre à espreita.  

Construindo uma narrativa que. Será que termina em algum lugar? Será que enquadra o fato pela janela mais interessante? Será que consegue articular essa “mágica” do realismo? Mesmo tendo visto já há mais de uma semana, não sei dizer muito bem. Embora dê pra registrar aqui a admiração de um filme que pelo menos escolhe fazer algo com a sua premissa pitoresca.