Mike Leigh fez alguns pequenos grandes filmes que estão entre os mais celebrados do cinema britânico das últimas décadas: Nu (1993), o indicado ao Oscar Segredos e Mentiras (1996), O Segredo de Vera Drake (2004), Simplesmente Feliz (2008), Mr. Turner (2015), entre outros. Todos altamente recomendáveis. Ele se notabilizou pela sua excepcional condução de atores e pelos métodos de trabalho, digamos, incomuns para com eles – os atores de Segredos e Mentiras, por exemplo, não conheciam a história inteira e receberam apenas poucas informações sobre seus personagens, para preservar algumas surpresas para a hora da filmagem. Leigh revelou para o mundo David Thewlis e Sally Hawkins, e nos surpreendeu e nos emocionou com histórias pequenas sobre pessoas comuns.

“Peterloo” é o seu primeiro épico, por assim dizer. O longa, uma produção do Amazon Studios disponível no catálogo da Amazon Prime Video, é baseado em um incidente real pouco lembrado da história inglesa: o massacre de Peterloo – trocadilho com a derrota de Napoleão em Waterloo, ocorrida poucos anos antes – de 16 de agosto de 1819, quando soldados da cavalaria mataram mais de uma dezena de civis desarmados em St. Peter’s Field, em Manchester, durante uma manifestação de protesto contra o aumento de tarifas de grãos.

Leigh nos mostra, numa abordagem estilo mosaico, como o massacre veio a acontecer pelos pontos de vista de vários personagens. Vemos um soldado (David Moorst) voltar para casa após servir na guerra e encontrar sua família em estado de miséria. Vemos a articulação política e as várias lideranças do período, com mais destaque para o orador Henry Hunt (Rory Kinnear). E vemos, aos poucos, como a situação foi se escalando até chegar ao final, com a recriação da manifestação e do massacre em si.

O cineasta está claramente do lado dos menos favorecidos – em se tratando de um filme de Mike Leigh, nem poderia ser diferente. E, de novo, o maior mérito de Leigh em Peterloo é o trabalho com o elenco, quase todo composto de rostos desconhecidos – a exceção sendo Kinnear, que já é um pouco reconhecido por suas participações em seriados e nos filmes mais recentes da franquia 007, por exemplo. Todos os atores vistos em cena, mesmo aqueles com poucos minutos de tela, transmitem uma grande autenticidade. E isso, aliada à reconstituição da época, realmente consegue criar um retrato interessante, forte e verossímil da vida na Inglaterra do período. Assim como em Mr. Turner, o espectador sente a era em que se passa o filme de modo palpável.

 PERSONAGENS EM SEGUNDO PLANO

Mesmo assim, e isso é curioso em se tratando de uma obra de Leigh… este é o primeiro filme do diretor em que os indivíduos parecem menores que o evento. É o primeiro filme dele sem personagens marcantes ou mesmo interessantes. Toda a atenção do diretor e do roteiro parecem voltadas para o evento, para nos dar uma “aula de história”, e isso é decepcionante.

Além disso, grande parte da primeira metade de Peterloo consiste em reuniões públicas ou discursos políticos. São cenas necessárias para que o espectador consiga compreender o contexto histórico do massacre, mas isso não quer dizer que sejam interessantes, do ponto de vista dramático ou visual. E com 2h35 de duração, fica difícil segurar o interesse: o filme realmente se torna envolvente quanto mais chegamos perto do final, mas até chegarmos lá, por grande parte do tempo, ele é simplesmente chato.

Talvez seja a excessiva preocupação com a reconstituição de um momento, talvez a escala da produção, com muitos extras, cenários e locações… ou ambas as coisas. Mas o fato é que Peterloo, embora seja uma história importante para o diretor e um projeto que ele quis levar às telas por muitos anos, acaba se tornando um dos trabalhos mais fracos de Mike Leigh, um cineasta que se notabilizou por observar com lente de aumento os pequenos comportamentos humanos e como eles muitas vezes levam aos grandes dramas. Peterloo não chega a ser ruim, claro, mas, neste caso, pode-se argumentar que a lente de Leigh foi ampla demais.

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