Remetendo a uma ideia de terror arqueológico, “Praia Formosa” é um filme que revira o passado e é sobre esse revirar. Sobre mexer no que estava se assentando. Impedindo esta acomodação. Feito a partir de uma literal escavação, quando a documentarista Julia de Simone se interessou pela reforma urbanística do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. Que expõe a ferida da escravidão de forma muito direta quando abre para a circulação os literais espaços onde pessoas eram comercializadas como objetos. 

Primeiro esforço ficcional da cineasta, a obra não é ainda assim uma expressão narrativa tradicional. Se desdobrando para algumas formas. Se construindo a partir de alguns pedaços. Como de cacos de um objeto desenterrado, fragmento a fragmento mas misturado com a ponderação da pesquisa. Com a performance. Com o vazio. 

O filme é feito, então, de parte performática de uma personagem no presente vazio daquela terra, caminhando por um túnel de luzes frias e por ruas sem ninguém; depoimentos; resgates históricos documentais; e uma encenação. 

Mas mesmo a encenação. Com uma escrava e uma senhora em uma casa fechada. Traz elementos surreais dessa linha invisível mas nada tênue que conecta presente e passado. O casario colonial que parece sempre em constante mudança nos mesmos cômodos. Um quarto e uma cozinha com decoração e roupas de séculos passados. Mas que é atormentado pelos barulhos de trânsito contemporâneo.

Construindo esse aspecto de afetação entre períodos mas ao mesmo tempo criando camadas desse próprio ruído. Como se lidasse com o choque cultural forçado que é o Rio de Janeiro, o país, a ideia da escravidão como um todo. Duas mulheres que são de mundos diferentes. De classes diferentes. De cores diferentes. De capacidades diferentes. 

Uma delas, analfabeta, dita uma carta, em português. Outra escreve outra coisa e não o que ouve. Mas uma carta escondida em plena vista. Em quimbundo. Que vai terminar não nas mãos do destinatário que a sinhá quer, mas de uma outra mulher africana. Manifestações que, até metalinguisticamente, refletem a produção ao redor de Praia formosa. A energia de “reparação histórica” de um filme brasileiro com produção e dinheiro português para lidar com todos os crimes que Portugal cometeu contra o Brasil. 

Não repara. Não chega perto. Mas é interessante o quanto ele reforça esse aspecto central de um filme sobre escravidão que nunca vai cair de fato no lugar comum do que se vê sobre o tema no cinema e na teledramaturgia televisiva daqui. 

Sem conciliação, mas também sem discursos de revolta calculada, o longa lida com o tema como a gente lida com a escavação desse passado tenebroso. Pedaço a pedaço. Isoladamente. No surreal. Na performance. Na fala. 

E ele é tão eloquente quando cria esses momentos. Uma mulher preta sozinha em uma estrada noturna. Uma outra, escrava do passado transposta para a ruína no porto moderno. Quando usa o cabelo negro como mapa para labirintos reais. Quando escolhe o quimbundo e o kikongo ao invés do português para se expressar. Sendo que é mais importante o fato delas falarem nesses idiomas do que o conteúdo das mensagens por si.

Tão eloquente que quando o filme se volta para um lado mais explicativo – com a presença de Mãe Celina de Xangô, yalorixá e especialista em religiões africanas – parece que está se conformando ao banal. Deixando para trás a força do seu lado experimental. Em explicações temáticas que, por mais interessantes e importantes que sejam, parecem ruídos colados desajeitadamente na experiência cinematográfica.

Do que ela fala por si, parece que é algo que vai se perdendo com o tempo. Palavras ao vento. O que é muito diferente de certas imagens precisas que aparecem antes disso. E de certas ideias que por si valem mais do que qualquer exposição de diálogo.