O preto e branco da fotografia exuberante de Pierre de Kerchove é sem a menor dúvida o elemento de destaque da adaptação de Marcelo Gomes do livro de Milton Hatoum. “Relato de um certo oriente”. Que aqui troca uma palavra pela outra. Vira retrato. O que faz toda a diferença se pensar que o filme se distancia do que os personagens pensam sobre a sua situação e acaba capturando sua imagem de um jeito mais simbólico. 

É tudo muito bonito. Muito expressivo. Chama atenção em um contexto de cinema brasileiro politizado que muitas vezes se preocupa tanto com seus discursos e temas que “esquece” de articular isso pelo som e pela imagem. 

Não que a política e o subtexto importante não existam e não sejam claros aqui. Mas o que mais comunica é o uso de luz, sombra, foco, profundidade. O uso de som. Da montagem. 

Na cena que abre “Retrato de um Certo Oriente”. No plano, melhor dizendo. Uma árvore amazônica gigantesca é capturada com uma lente angular que distorce o cenário ao redor. Transformando aquele mundo em um mundo mágico. O que logo é substituído pelo contrastante vazio da natureza libanesa. Onde vamos conhecer os dois irmãos que protagonizam essa história que, embora pesada, trágica e que busca representar a experiência do refúgio e da imigração, se porta como um conto bem singelo.

Daí pra frente, o cenário frequentemente rouba a cena do drama. A composição. O uso das camadas de profundidade de foco. Deixando essas pessoas sempre em relação ao mundo que se modifica ao seu redor. Os barcos diferentes. O mar opressivo e presente. A floresta noturna. Sedutora e aterrorizante. Com seus pontos brancos na noite preta e o som da selvageria nas suas entranhas. 

Não dá para não lembrar, a partir dessa visualidade, de outros filmes do cineasta. De Verônica afundada nos prédios recifenses em “Era uma vez eu, Verônica”. Até, principalmente, da dupla inusitada de alemão e cearense vendendo aspirina em Cinema, aspirinas e urubus. Mas se lá a imagem usava da luz obtusa do sertão para pensar a época e o vazio de um país que estava sendo construído. Aqui o chiaroscuro ultra contrastado da noite parece querer ressaltar que essa nação em formação veio existir em um lugar muito vivo e muito habitado. 

De alguma forma, é como se “Retrato de um Certo Oriente” fosse concretizar aquela Amazônia assustadora que perturba o personagem de João Miguel em “Cinema, Aspirinas e Urubus“. 

Mas existe outro eco um pouco mais incômodo do cinema pregresso do diretor. A forma como a encenação e o melodrama quase nunca alcançam a potência da construção formal. 

Aqui. Em um filme de basicamente cinco personagens. Dois irmãos, um pretendente (ou dois) e dois amigos (ou uma). A gente nunca se conecta emocionalmente com a complicação dramática. Embora seja tudo muito claro em se tratando do que ocorre ali. Tudo muito compreensível. 

Luto. Traumas passados. O peso do teor religioso. A depressão. A impossibilidade de aceitação. (outra coisa que conversa com os protagonistas existencialistas de seus outros filmes)

Mas na hora de fazer com que a gente sinta. De novo, a gente pensa na beleza do que a gente enxerga na tela. Na imagem tão simbólica de duas mulheres (uma indígena e uma árabe) brincando com os cabelos uma da outra. Na cena em que um homem muçulmano faz suas orações não com um tapete tradicional mas com uma esteira de palha em uma tribo indígena. Em alguém olhando fundo nos olhos do rio e o rio olhando de volta. Na sobreposição do canto de pajelança com a oração católica no francês já misturado com árabe do Líbano 

Tudo tão poderoso alegoricamente e simbolicamente. E que representa tão bem e tão melhor que qualquer discurso a retórica de como o Brasil é um país desse choque cultural.  Feito de povos e culturas que por si já eram a mistura de outros. Dois homens muito diferentes de um país norte-africano árabe que por si já é afetado e moldado pela colonização francesa. 

O elenco. De atores franceses, italianos, libaneses, palestinos, indígenas, funciona muito bem. Mesmo que nem sempre consigam superar as correntes naturalistas que os limitam.

No frigir dos ovos, a frase branca na tela preta que provavelmente vem do livro de Hatoum. Relatos. É o que mais mexe com a gente emocionalmente. A de como o passado é algo que sempre nos assombra por mais invisível que seja. Como se fosse “um aceno de uma mão transparente”.

Cobertura especial do Festival Olhar de Cinema 2024.