Sete Dias Sem Fim é o típico filme que você passa diversas vezes por ele no catálogo da Netflix, lê a sinopse sem dá qualquer bola para ela e decide escolher outra produção para ver no final das contas. É verdade que o resumo disponibilizado pela plataforma não ajuda muito também, afinal filmes americanos sobre reuniões familiares já encheram o saco e sendo ainda mais sincero, eu mesmo não daria qualquer bola a ele, se não fosse a missão dada pela chefia do Cine Set para assisti-lo como pauta da semana. 

Se na vida sempre temos boas surpresas, algumas pautas também podem ajudar a clarear julgamentos precipitados para quebrar certos preconceituosos. É o caso de Sete Dias Sem Fim dirigido por Shawn Levy, uma dramédia simpática e ideal para curtir durante o isolamento. É o filme bem-intencionado, que defende os valores familiares corretos, contudo sem exagerar na xaropice ou lição de moral. Em tempos ausentes de empatia, é um sopro de leveza ver Levy construir uma narrativa empática, de fácil acesso para curtir no conforto da sua casa, ao lado de pessoas queridas e uma tigela de pipoca para saborear, enquanto se esbalda com os conflitos disfuncionais de uma típica família americana neurótica. 

Sete Dias Sem Fim acompanha Judd Altman (Jason Bateman, de “Ozark“) que no dia do aniversário da esposa, a flagra na cama com seu chefe. Se o azar não fosse pouco, ele recebe a triste notícia através da sua irmã Wendy (Tina Fey, de “Meninas Malvadas”) que o pai deles acabou de falecer. Os dois juntamente com os outros irmãos, Paul (Corey Stoll, de “O Primeiro Homem“) e Philip (Adam Driver, de “Star Wars”) são forçados a voltar para a casa da sua infância e viver sob o mesmo teto juntos por uma semana para cumprir o último desejo do pai, a realização do Shiva, uma cerimônia judaica de sete dias de reclusão em luto pela morte de um ente querido. Juntam-se a eles, a mãe Hillary (Jane Foda, de “Nossas Noites”) e uma variedade de cônjuges, filhos, vizinhos e ex-parceiros.

 O luto, os laços da vida e as imperfeições

 

Escrito por Jonathan Tropper, a partir do seu livro homônimo, Sete Dias Sem Fim revela as neuroses da família americana e seus conflitos, além de expor os impasses e as imperfeições dos laços da vida. Nas mãos de Levy estes elementos ganham uma naturalidade espontânea em provocar o riso, sem deixar de emocionar o público através da sua dramaticidade. A mensagem otimista inserida na sua história acaba dialogando com o público por falar de gente como a gente. 

Um dos pontos fortes do filme é a sua sabedoria de mostrar que a chamada “disfuncionalidade” na dinâmica familiar dos Altman é uma “normalidade” que podemos encontrar no convívio diário, com cada família apresentando o seu lado disfuncional à sua maneira, através de papéis e ações eclipsadas pelo medo que as pessoas têm de confrontar seus monstros emocionais.

O roteiro de Tropper ainda que parta da abordagem sobre o ponto de vista do luto familiar, consegue ir além e tira de debaixo do tapete os infernos pessoais vivenciados pelos seus protagonistas, como o medo de Judd de negar, a todo custo, qualquer tipo de crise na vida; a dificuldade de Wendy em se desapegar de um amor da adolescência e que reflete no casamento infeliz que mantém;  a imaturidade de Philip, um adulto que não consegue crescer e está sempre se relacionando com mulheres mais velhas na busca pelo amor materno; Paul que enfrenta uma crise no casamento por não conseguir engravidar a esposa; e por fim, Hillary que não sente-se à vontade de expor sua liberdade sexual e afetiva em virtude da caretice dos filhos.

TRAGICOMÉDIA NA FAMÍLIA

 

Todas estas situações expõe o real conflito moral que circunda o universo do filme: a enorme dificuldade que seus integrantes têm de encararem a realidade e as mudanças que são necessárias a ela, onde as emoções contidas em cada um deles (os esqueletos guardados dentro do armário), impedem o crescimento pessoal. É interessante o quanto a obra disseca os estereótipos dos Altman, ao mostrá-los lidando com as mudanças do presente ao mesmo tempo que necessitam confrontar as pendências do passado para redescoberta dos seus desejos pessoais.

Se os personagens delineados por Tropper são carismáticos por natureza, o elenco estelar hollywoodiano os defendem com a mesma virtuosidade. Jason Bateman, domina as cenas e cada vez se consolida na carreira através de performances carismáticas que retratam o homem-comum frente as adversidades. Ele e Tina Fey mostram boa sintonia, principalmente quando interagem sentados no telhado da casa. A conversa entre eles resulta nos principais diálogos melancólicos do longa-metragem, o que dá ao texto uma dimensão emocional complexa. Há também espaço para Corey Stoll e Adam Driver exercitarem suas veias cômicas, além de Jane Fonda com a sua exuberância e charme na pele da matriarca da família. Quem conhece o ativismo político da atriz fora das telas, sabe que a escolha dela para viver Hillary é extremamente coerente, já que a sua personagem dentro de “Sete Dias Sem Fim”, luta pela igualdade de direitos de gênero.

É claro que neste turbilhão de experiências e personagens simpáticos, a produção dá suas tropeçadas. É visível que o excesso de personagens, tramas secundárias que se tornam superficiais e um tempo gasto com piadas desnecessárias atrapalham os arcos dramáticos de alguns personagens. As mulheres são as que mais sofrem com isso. Tina Fey, Kathryn Han e Jane Fonda acabam subaproveitadas no contexto geral, sem que o filma exija muito dos seus talentos. Talvez, uma economia narrativa ajudaria a desenvolver melhor os momentos dramáticos que ficaram apenas no aspecto unidimensional.

Apesar da premissa extremamente batida e repleta de clichê, Sete Dias Sem Fim funciona pelo seu olhar tragicômico sobre o contexto familiar. A direção segura de Shawn Levy – que apesar de ter assinado algumas comédias descartáveis nos últimos anos, sempre se sai bem quando tem em mãos um roteiro dramático consistente, vide o bom Gigante de Ferro – sabe equilibrar a dinâmica melancólica com o humor negro do filme, o que ajuda a manter um ótimo ritmo, e por isso, funcionam bem como entretenimento. Ao apostar na ressignificação do indivíduo a partir do coletivo, o longa-metragem adentra no íntimo daqueles personagens frágeis para tratar de forma leve e espirituosa, as suas dores e os seus conflitos. Não chega a ser uma comédia que vai revolucionar o gênero, mas por fugir daquilo que estamos acostumados a ver, se torna uma boa surpresa e um passatempo reflexivo minimamente interessante.

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