“Shiva Baby” é o trabalho de estreia da diretora canadense Emma Seligman e retrata um dia na vida de Danielle (Rachel Sennott), jovem universitária que encontra seu sugar daddy (pessoa mais velha que banca financeiramente alguém, em troca de companhia ou de favores sexuais) em uma reunião familiar durante o shivá, o período de luto para os judeus iniciado após o enterro. Embora seja essa situação constrangedora o principal guia do enredo da obra, Danielle se sente incomodada com a reunião desde o primeiro momento, seja na relação com os pais, com a antiga amiga e ficante ou com as perguntas dos demais presentes em relação a sua vida pessoal e profissional.

Seligman conduz o filme a partir dessa relação entre os incômodos e as reações de Danielle para tentar escapar. Ao adentrar a casa onde a cerimônia ocorre, a protagonista passa a encarar um universo de crescentes desafios, como uma dinâmica onde necessita passar de fases para se manter bem. Em uma primeira vista, a dialética entre os incômodos da jovem com o ambiente é apresentada de forma leve e humorada, carregados pela presença de Joel (Fred Melamed) e principalmente Debbie (Polly Draper), pais da protagonista.

A prolixidade e proatividade da mãe justaposta a animosidade do pai, mesmo que colocadas aqui de forma antagônicas, refletem em Danielle tudo do que ela tenta fugir. Esse é o principal indício de como se dará o desenvolvimento de “Shiva Baby” que, aos poucos, mesmo que nunca de forma definitiva, deixa de lado a comédia e passa a usar elementos do suspense e até terror para lidar com os anseios da jovem.

Esse ponto é um dos principais diferenciais entre o filme de Seligman e outros destacados filmes sobre amadurecimento. Ao estabelecer aquele espaço (a casa onde ocorre a cerimônia) como esse lugar de provação, a diretora utiliza da linguagem do cinema para nos inserir as sensações desse momento de transição entre a juventude e a fase adulta.

TODOS OS CONSTRANGIMENTOS POSSÍVEIS

Dentre todos os sentimentos que envolvem a estudante durante a história, a ansiedade é aquele de maior destaque durante os 77 minutos da obra. Os inúmeros assuntos que surgem para serem trabalhados para o pouco tempo de filme é uma das escolhas para refletir o nervosismo de Danielle. Essa escolha arriscada poderia desaguar em uma narrativa que não desenvolve bem seus temas, mas é justamente esse atropelamento de ocasiões e assuntos, o interesse da diretora. Em certo ponto, podemos encarar o filme como um jogo de “quantos constrangimentos alguém pode passar durante um velório?”.

Importa mais a Seligman os efeitos que a enxurrada de assuntos para lidar causa a uma pessoa inexperiente, do que os próprios assuntos em si. Entre eles, temos sexualidade, independência, distúrbio alimentar, relação com próprio corpo, gênero, mercado de trabalho, pretensões artísticas, morte, maternidade, adultério, etc. Cada um desses pontos nos é apresentado como uma avalanche, algumas vezes ao mesmo tempo, e nunca de forma aprofundada.

Fora os momentos de diálogo entre a personagem principal e Maya, sua amiga de infância com quem teve a primeira experiência sexual, o desenvolvimento dos temas se dá a partir de pinceladas entre e outra tentativa de Danielle para tentar fugir de Max (Danny Deferrari), seu sugar daddy, e sua esposa Kim (Dianna Agron) que surge de forma inesperada no local, com a filha bebê.

NO LIMITE DA MENTE

A relação entre Danielle e Maya é utilizada com inteligência pela diretora. Suas interações mais românticas acontecem do lado de fora da casa, construindo as cenas mais sensíveis de “Shiva Baby”, disponível no MUBI. Interessante perceber que esse é o primeiro momento do filme onde temos um enquadramento mais aberto, que nos apresenta corpos inteiros (de Danielle e Maya) se encarando. É onde Danielle está mais livre. Não tanto por uma questão sentimental em relação à amiga, mas pela possibilidade de fazer uma escolha própria, tomar atitude, se colocar como força motriz da situação. Em um segundo momento, já na parte final, temos Danielle mais entregue, vencida pelo dia de constrangimentos. Nesse instante, é onde a protagonista permite a ação de Maya, a primeira vez durante o filme que um ato exterior não parece agredi-la.

A sensação de “epopeia” ao qual personagem e público são despendidos é reforçada pelo momento em que a narrativa se passa, o período de luto. Temos durante o tempo de projeção a ideia de estarmos encarando o período de uma vida junto a Danielle e seus momentos de escolha. A partir dos enquadramentos fechados e desfoques que nos impedem de ver com clareza a ação dos outros personagens, a obra reforça essa sensação claustrofóbica e um tanto aterrorizante que a jovem passa.

O uso de elementos de terror (como um jumpscare bem colocado) elevam a apreensão do espectador junto à apreensão de Danielle, além de nos fazer sentir que o filme se apresenta em um estágio diferente de onde começou (a comédia). Em determinada cena em que Danielle se encontra fraca por ter comido muito pouco e já está abalada pela pressão da situação, temos uma fotografia extremamente saturada, com proporções de rostos e objetos distorcidos e uma protagonista no limite mental. Ela nem mais responde de forma racional aos estímulos do ambiente.

É nessa bagunça de estímulos e conteúdos, que Seligman consegue representar bem o crescimento de uma geração marcada pelo excesso de informações e, mesmo assim, se sente perdida, como grita Danielle próximo ao fim da obra.

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