Em um mundo diferente, talvez um tratado sobre a colher de plástico fosse um sucesso estrondoso. O mundo já viu muitos cineastas célebres investigando temas potencialmente bobos e saindo com obras deslumbrantes. No entanto, “Spoon”, da diretora Laila Pakalniņa, parece destinado a um nicho de quem gosta de filmes excessivamente lentos.

Mesmo esse público pode ter dificuldade: inserindo uma citação de Leonardo Da Vinci no começo (“Tudo aqui se conecta com todo o resto. De verdade.”), a diretora se propõe a apresentar um quebra-cabeça cinematográfico. As cenas, vagamente relacionadas entre si, mostram diferentes estágios da produção de colheres de plástico. Cabe ao espectador juntar todos os pontos e atribuir significado ao que é visto.

A abordagem de Pakalnina é extremamente séria – algo que pode não parecer próprio para um filme sobre um objeto tão esquecível, mas que se apresenta com clareza durante a produção. É possível sentir o cuidado dado à composição de cada momento, desde o enquadramento até o senso de proporção e geometria. O empenho da diretora em fazer com que o público se concentre chega ao ponto de que ela faça com que apenas uma sequência em todo o filme – a segunda – contenha um movimento de câmera.

Infelizmente, o ritmo glacial e o rigor clínico do processo têm um efeito distanciador. Depois de aparecer pela primeira vez aos cinco minutos de filme, a colher – a coisa mais próxima de um centro de ação que ele oferece – só reaparece a 12 minutos do final. A essa altura, muitas cenas envolvendo trabalhadores e máquinas diluíram a mensagem que “Spoon” tenta transmitir. O fato de que a realizadora dispensa uma narrativa – ou mesmo uma narração – significa que o projeto inevitavelmente funcionará melhor com públicos que apreciam o cinema de forma livre e lenta. 

CAPITALISMO E GLOBALIZAÇÃO A PARTIR DA COLHER

“Spoon” estabelece com sucesso a natureza transitória da colher de plástico através de aparições constantes de navios, trens e carros. De fato, apesar da falta de movimento da câmera, a maioria das pessoas e objetos descritos parecem estar se movendo. No entanto, sendo um trabalho meramente observacional, ele parece extremamente longo apesar de sua curta duração de 65 minutos.

Há alguns comentários pungentes feitos sobre a longa corrente humana necessária para fazer um objeto que tenha uma vida útil de uma única refeição. Fábricas inteiras em lugares como a China e a Noruega estão envolvidas nisso – o que, na verdade, fala muito sobre o atual estágio do capitalismo.

Além disso, os segmentos curtos que mostram a colher em ação deixam a clara lacuna econômica entre produtores e usuários ser entrevista. O objeto descartável encontra seu fim em grandes festas de aniversário e eventos de ciclismo – atividades que a maioria das pessoas pobres, incluindo as que trabalham nas fábricas mostradas, não podem participar. Infelizmente, no entanto, nada disso é suficiente para sustentar o filme.

*o jornalista viajou para o Festival de Karlovy Vary como parte da equipe do GoCritic!, programa de fomento de jovens críticos do site Cineuropa, no qual esta crítica foi originalmente publicada em inglês.

‘The World to Come’: romance pautado pela dor e pelo que está por vir

Tem algumas dores capazes de destruir qualquer relação. De forma semelhante, há aquelas que unem os cacos e são capazes de libertar. Mais do que um drama queer de época, “The World To Come” fala sobre essas lesões emocionais, pautado, especialmente, na solidão e como...

‘Veneza’: o sonho como antítese da pesada realidade

A certa altura de Veneza, novo filme de Miguel Falabella, uma das personagens, após assistir a uma apresentação teatral num circo, diz a um dos atores da trupe: “a história não é de verdade, mas eu sempre choro”. De certa forma, essa fala resume a obra: Veneza é um...

‘Awake’: thriller de ficção científica perdido e sem propósito

Um filme como “Awake” poderia ser classificado como um thriller de ficção científica, mas que não é bom nem em ser thriller e muito menos em ter alguma base científica relevante na sua trama. Se você quer uma experiência de tensão real ou uma narrativa envolvente, com...

‘Espiral: O Legado de Jogos Mortais’: série pela hora da morte

Na primeira década dos anos 2000, os multiplexes do mundo foram, por um bom tempo, assombrados por pôsteres assustadores que mostravam pés decepados e outros horrores nos seus salões de entrada. E dentro das salas, se podiam ver cenas com gente usando máscaras de...

‘Missão Cupido’: comédia sobrenatural para não se levar a sério

Se eu acreditasse em astrologia, diria que o Brasil está passando por um inferno astral. E, nesses momentos, nada como dar umas risadas descomprometidas para aliviar a tensão. Essa é a proposta de Ricardo Bittencourt ("Real – O Plano por Trás da História") em "Missão...

‘Invocação do Mal 3’: James Wan faz falta no pior filme da franquia

James Wan é um cara esperto, um cineasta inteligente e talentoso, que não fez nenhuma obra-prima, mas também não realizou nenhum filme ruim até agora. No seu trabalho dentro do gênero terror, ele não reinventou a roda, mas soube dar uma bela polida nela, trazendo seu...

‘Anônimo’: Bob Odenkirk surpreende como herói improvável

Na história do cinema, isso sempre aconteceu: um filme de certo gênero aparece, traz alguma inovação ou inaugura uma tendência, faz sucesso e, por algum tempo, vira o padrão dentro deste gênero. Tubarão (1975) deu origem a um subgênero de filmes abilolados de tubarões...

‘Cruella’: fúria punk e figurinos luxuosos comandam diversão

Durante a minha infância, tínhamos o costume de nos reunir aos finais de semana para assistir filmes de animação. Foi assim que vi (e decorei as músicas) dos clássicos da Disney. Com o tempo, os gêneros foram mudando, mas as lembranças desses momentos permaneceram....

‘Rogai por Nós’: CGI e roteiro capenga derrubam terror

Em algum lugar dentro de Rogai por Nós, suspense sobrenatural da produtora Ghost House de Sam Raimi e dirigido pelo estreante Evan Spiliotopoulos, tem uma interessante história sobre fé, crenças e o mistério que cerca a nossa existência. Porém, essa mesma história é...

‘Aqueles que me Desejam a Morte’: clichês por todos os cantos

Aqueles que Me Desejam a Morte, o novo projeto da estrela Angelina Jolie e do diretor/roteirista Taylor Sheridan, começa com a protagonista da história no meio de uma situação bem dramática... E aí ela acorda. Era tudo um sonho e sabemos que aquele momento representou...