Em um mundo diferente, talvez um tratado sobre a colher de plástico fosse um sucesso genuíno. O mundo tem visto muitos cineastas célebres investigando temas potencialmente bobos e saindo com obras deslumbrantes. No entanto, “Spoon”, da diretora da Letônia, Laila Pakalniņa, parece destinado a um nicho de quem gosta de filmes excessivamente lentos.

Mesmo esse público pode ter dificuldade: inserindo uma citação de Leonardo Da Vinci no começo (“Tudo aqui se conecta com todo o resto. Realmente”), a diretora se propõe a apresentar um quebra-cabeça cinematográfico. Nesta co-produção Letônia-Noruega-Lituânia, as cenas, vagamente relacionadas entre si, mostram diferentes estágios da produção de colheres de plástico. Cabe ao espectador juntar todos os pontos e atribuir significado ao que é visto.

A abordagem de Pakalnina é extremamente séria – algo que pode não parecer um filme sobre um objeto tão esquecível, mas que se apresenta com clareza a partir da totalidade do tempo de execução. É possível sentir o cuidado dado à composição de cada momento, desde o enquadramento até o senso de proporção e geometria. O empenho da diretora em fazer com que o público se concentre chega ao ponto que apenas uma imagem em todo o filme – a segunda – contém um movimento de câmera.

Infelizmente, o ritmo glacial e o rigor clínico do processo têm um efeito distanciador. Depois de aparecer pela primeira vez cinco minutos depois do início de “Spoon”, a colher – a coisa mais próxima de um centro de ação que a produção oferece – só reaparece a 12 minutos do final. A essa altura, muitas cenas envolvendo trabalhadores e máquinas diluíram a mensagem que tentam transmitir.

O fato de que ela antecede uma narrativa – ou mesmo uma narração – significa que funciona melhor com públicos que apreciam o cinema de forma livre e lenta. Não tenta argumentar a favor ou contra a colher, evitando a natureza emocional de documentários como “A Marcha do Imperador”.

CAPITALISMO E GLOBALIZAÇÃO A PARTIR DA COLHER

“Spoon” estabelece com sucesso a natureza transitória da colher de plástico através de aparições constantes de navios, trens e carros. De fato, apesar da falta de movimento da câmera, a maioria das pessoas e objetos descritos parecem estar se movendo. No entanto, sendo um trabalho meramente observacional, parece muito demorado, apesar de sua curta duração de 65 minutos.

Há alguns comentários pungentes feitos sobre a longa corrente humana necessária para fazer um objeto que tenha uma vida útil de uma única refeição. Fábricas inteiras em lugares como a China e a Noruega estão envolvidas nisso – o que, na verdade, fala muito sobre o atual estágio do capitalismo.

Além disso, os segmentos curtos que mostram a colher em ação mostram a clara lacuna econômica entre produtores e usuários. O objeto descartável encontra seu fim em grandes festas de aniversário e eventos de ciclismo – atividades que a maioria das pessoas pobres, incluindo as que trabalham nas fábricas representadas, não podem participar.

Em última análise, nada disso acaba sustentando o filme. Por não fazer concessões ao público, “Spoon” é obrigado a testar as audiências do festival que conseguem vê-lo. Seu assunto, no entanto, pode ser encontrado no café mais próximo e é muito mais fácil de lidar.

*o jornalista viajou para o Festival de Karlovy Vary como parte da equipe do GoCritic!, programa de fomento de jovens críticos do site Cineuropa, no qual esta crítica foi originalmente publicada em inglês.

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