Lançado no Festival de Londres 2019, “The Peanut Butter Falcon” é um road movie pronto para aquecer seu coração nos dias frios de outubro. Após agradar o público no festival South by Southwest mais cedo neste ano, esse conto à la Mark Twain pode parecer familiar, mas tem carisma e confiança suficientes para sobressair aos seus similares.

O personagem-título é Zak (Zack Gottsagen), um jovem com Síndrome de Down que deseja ser um lutador de luta-livre. Ele passa a maior parte de seus dias reassistindo fitas VHS de seu ídolo, o lutador profissional Salt Water Redneck (Thomes Haden Church) e elaborando planos para escapar da clínica na qual foi colocado pelo Estado. Quando consegue sair, cruza com o azarado malfeitor Tyler (Shia LaBeouf), e os dois seguem para a escola de Salt Water, onde Zack poderá ir em busca de seu sonho.

Uma amizade inesperada

Aqui, a maior façanha dos diretores e roteiristas Tyler Nilson e Michael Shwartz é como constroem a amizade de Zak e Tyler de forma tão natural, com suas similaridadess aparecendo gradualmente ao longo da viagem. Os dois homens são marginalizados, cada um a sua maneira, e ambos sentem falta de uma estrutura familiar que lhes apoie.

Tyler, em particular, está profundamente assustado pela perda de seu irmão, e inicialmente ajuda Zak só para escapar das garras do pescador local Duncan (John Hawkes), em cujos equipamentos colocou fogo durante um ataque de fúria. O trabalho de LaBeouf é corajoso ao trazer as camadas de atuação quando Tyler começa a se afeiçoar por seu companheiro inesperado. O esforço de Gottsagen, intérprete de Zak, para virar ator é a espinha dorsal da vida real para a história ficcional, tangendo uma versão ainda mais ampla de si mesmo, uma alegria de se ver na tela.

Paisagens de liberdade

Nas lentes de Nigel Bluck, diretor de fotografia do filme, o sul dos Estados Unidos é tão personagem quanto as pessoas na tela. Existe uma liberdade na paisagem verde que reflete a liberdade buscada pelos protagonistas. Para eles, a vida na cidade, apesar de segura, parece restritiva – e por isso que fogem dela.

Esse conflito é encarnado em Eleanor (Dakota Johnson), uma das funcionárias da clínica. Ela recebe como tarefa trazer Zak de volta. Quando encontra a dupla, ela – e o público – se põem diante de uma difícil questão: deveríamos prezar pela sobrevivência ou, realmente, viver?

Com uma trilha sonora repleta de banjos e um elenco, em geral, interessante, “The Peanut Butter Falcon” tira o máximo de sua premissa e funciona como um lembrete de esperança em meio à adversidade. Se você procura por um filme agradável que sabe exatamente onde está seu coração, acabou de encontrar.

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