Nos últimos anos temos visto vários dramas saídos do cinema da Romênia, e muitos deles ótimos. Um filme policial é algo mais raro… Mas eis que chega um exemplar do gênero com The Whistlers, longa do diretor Corneliu Porumboiu que apresenta uma trama de roubo e traição com um twist, uma ideia curiosa que torna a coisa toda, se não memorável, pelo menos diferente. Um pouco.

Na trama, Vlad Ivanov interpreta o policial Cristi, que recebe a missão de se infiltrar numa organização criminosa. Ele conhece a misteriosa e sensual Gilda (Catrinel Marlon) – e toda a situação do primeiro encontro dos dois rende a melhor cena do filme, no início. Mais tarde, eles se reencontram quando Cristi chega à ilha de La Gomera para aprender a linguagem dos assobios (!), o curioso método de comunicação à distância dos criminosos. Quando a quadrilha se envolve no roubo de uma bolada de milhões de euros, Cristi tenta manipular tanto os mafiosos quanto seus superiores da polícia, para conseguir livrar a si mesmo e Gilda dos dois lados da lei.

Bem, a história de The Whistlers não tem nada de tão diferente do que já vimos várias vezes. E Porumboiu, também autor do roteiro, resolveu contá-la do mjohodo complicado. Dividida em blocos batizados pelos nomes dos personagens, a história é cronologicamente embaralhada e o foco narrativo do filme muda frequentemente. Acompanhamos o presente com Cristi, depois voltamos ao passado para saber como ele chegou ali e qual o plano dos criminosos, então se volta para o presente, depois se muda o foco para outro personagem… O resultado é que The Whistlers não é dos filmes mais fáceis de acompanhar. Fica a impressão de que o filme tem uma história simples, mas o diretor quis se exibir um pouco embaralhando as coisas num estilo à la Pulp Fiction (1994).

CINEFILIA E ASSOBIOS

E realmente é um filme no qual se percebe uma forte cinefilia. Vemos várias vezes a ação por meio de câmeras de segurança; num dado momento um cineasta interrompe uma reunião dos bandidos; em outro dois personagens se encontram numa cinemateca onde está passando Rastros de Ódio (1956) de John Ford – justo numa cena em que os heróis deste clássico western estão assustados com a comunicação via assobios dos seus inimigos, os indígenas. Ah, e o tiroteio final acontece numa cidade cenográfica e há outro momento que tenta recriar o assassinato no chuveiro de Psicose (1960).

O filme não realmente abraça uma narrativa estilo “meta”, ou seja, a ser dominado pela metalinguagem, mas Porumboiu chega a dar uma de Quentin Tarantino. Um Tarantino romeno e mais comedido, mas ainda assim quase tão determinado quanto seu colega estadunidense a fazer do seu filme um comentário sobre o cinema, ou pelo menos sobre outros filmes policiais.

O que dá um pouco de charme próprio a The Whistlers é toda a circunstância em torno dos assobios. As cenas que mostram os personagens se comunicando por assobios, ou em que vemos Cristi aprendendo a assobiar, são tão estranhas e curiosas que acabam se tornando divertidas e rendem umas risadas. Deve ser o único filme da história do cinema em que personagens combinam os detalhes de um golpe como se fossem passarinhos…

Essas cenas ficam ainda mais engraçadas quando a cara séria do ator Vlad Ivanov faz o contraponto ao absurdo da situação. De certa forma, ele é a essência de The Whistlers: um filme meio impenetrável, onde as emoções ficam sempre abaixo da superfície. Nunca entendemos porque ele acaba se importando tanto com a Gilda – foi só pela transa? – e por consequência o final não passa de um momento curioso. Ivanov e Marlon têm boas atuações, mas no fim os personagens são cifras e o filme, um exercício de estilo, uma brincadeira cinematográfica que contrapõe seriedade com humor, e o gênero noir a uma ideia absurda.

E ao final o espectador não consegue deixar de sacudir o pensamento “o que foi isso que acabei de assistir?”. Suas peculiaridades não são suficientes para se destacar tanto assim dentro do cinema da Romênia, mas não deixa de ser um filme curioso e até interessante. Parece que mesmo quando não fazem grandes filmes, os cineastas romenos são capazes de, pelo menos, nos deixar coçando a cabeça…

‘Caros Camaradas’: a desintegração do comunismo soviético

A primeira coisa que você deve saber acerca de “Caros Camaradas” é que estamos diante de um filme forte, necessário e que ainda se apropria de causas hoje presentes estruturados em uma sociedade desigual. Dito isso, vamos ao filme. “Caros Camaradas” narra um momento...

Trilogia ‘Rua do Medo’: diversão rasa, nostálgica e descartável

Séries de TV têm sido um dos pilares fundamentais na consolidação global da Netflix como o maior serviço de streaming do mundo. Boas, ótimas ou ruins, vindas de diversas partes do mundo, não importa: sempre podemos contar com a produção serializada de TV como parte...

‘Viúva Negra’: o pior filme da Marvel em muitos anos

Durante muito tempo, os fãs das produções da Marvel Studios pediam por um filme solo da heroína Viúva Negra. A estrela Scarlett Johansson também queria fazer. Para quem deseja entender um pouco dos meandros de Hollywood e esclarecer porque o filme da Viúva não saiu,...

‘Nem Um Passo em Falso’: Soderbergh perdido no próprio estilo

Steven Soderbergh é um cineasta, no mínimo, curioso. Seu primeiro filme, Sexo, Mentiras e Videotape (1989) mudou os rumos do cinema independente norte-americano quando saiu – e é, de fato, um grande filme. Ao longo dos anos, ele ganhou Oscar de direção por Traffic...

‘Um Lugar Silencioso 2’: ponte com dias atuais mirando futuro da franquia

“Um Lugar Silencioso” foi um dos meus filmes favoritos de 2018. A ambientação, o uso de recursos sonoros e a narrativa capaz de gerar tantas leituras e interpretações foram aspectos determinantes para a catarse causada e suscitar indagações quanto a necessidade de uma...

‘A Guerra do Amanhã’: estupidez eleva à potência máxima

A certa altura de A Guerra do Amanhã, o herói do filme se vê segurando pela mão outra personagem que está prestes a cair num abismo em chamas. Ela cai, ele grita “Nãããoo!” em câmera lenta, e aí eu dei risada e joguei minhas mãos para o ar. Tem certas coisas que não...

‘Four Good Days’: Glenn Close em novelão sobre recomeços

Glenn Close é uma das maiores atrizes de todos os tempos. Um fato indiscutível. Mas também é uma das mais injustiçadas se pensarmos em premiações. E o Oscar é o maior deles. Bem verdade que, ao longo dos anos, a Academia perdeu grande parte de sua relevância, mas...

‘Shiva Baby’: crônica do amadurecimento na era do excesso de informações

“Shiva Baby” é o trabalho de estreia da diretora canadense Emma Seligman e retrata um dia na vida de Danielle (Rachel Sennott), jovem universitária que encontra seu sugar daddy (pessoa mais velha que banca financeiramente alguém, em troca de companhia ou de favores...

‘Em um Bairro de Nova York’: sobre ‘suañitos’ e fazer a diferença

É preciso dizer que Jon M. Chu e Lin-Manuel Miranda são os artistas atuais mais populares no quesito representatividade em Hollywood. Chu é responsável por trazer o primeiro filme norte-americano em 25 anos com um elenco totalmente asiático e asiático-americano –...

‘Noites de Alface’: riqueza da rotina duela contra mistérios vazios

Apesar de “Noites de Alface” estar envolto em situações misteriosas, elas não têm tanta importância quando o mais interessante são as reflexões sobre envelhecer e das trivialidades da rotina cotidiana.  O grande trunfo do filme é ouvir os protagonistas dessa trama...