A corrupção está no DNA do Brasil desde a Colônia até os dias atuais com os escândalos das rachadinhas e da Lava Jato. A polêmica operação, aliás, já ganhou às telas em séries (“O Mecanismo”), policiais (“Polícia Federal – A Lei é Para Todos”), documentários (“Democracia em Vertigem”, “O Processo”) e até mesmo filme de super-herói (“O Doutrinador”). Agora, é a vez da diretora Sandra Kogut (“Campo Grande”): em “Três Verões”, ela cria uma narrativa delicada, perspicaz e propriamente brasileira com algo que parecia, até então, saturado.  

“Três Verões” acompanha Madá (Regina Casé), caseira e chefe dos empregados da mansão da família do empresário Edgar (Otávio Müller). Assim, a trama apresenta as festas de fim de ano entre 2015 e 2017, mostrando as diferenças sofridas pelos empregados com a prisão do empresário.

Na teoria, a proposta de Kogut chama atenção, porém, na prática, o resultado é bem melhor que o esperado. Isso provavelmente acontece porque, apesar da narrativa ter a corrupção como um tema importante, o verdadeiro enfoque dado é retratar personagens e sua adaptação às adversidades. A visão criativa e bem-humorada de Madá é essencial para enfrentar os anos sem o patrão com soluções criativas, rendendo boas ironias como um tour entre mansões de presos corruptos.

Mas não se engane ao achar que a narrativa vista por Madá esconde seus acontecimentos primordiais. Todas as pistas são entregues constantemente ao espectador em diálogos e cenas discretas. Assim, conforme “Três Verões” avança, a construção dos personagens passa a ser justificada, falas e até mesmo trejeitos começam a fazer mais sentido.

Todas elas em uma só: Val, Lurdes e Madá

Sendo basicamente a única personagem que realmente é amplamente aprofundada, Madá consegue segurar facilmente a história, seja no bom humor ao explicar o significado de data vênia e nos emocionar na melhor cena de “Três Verões”. Este momento, aliás, é quase um palpável durante todo o longa: sabemos que virá, porém, não temos ideia do quão forte pode ser. Além disso, seus momentos com Lira (Rogério Froés), o pai de Edgar, deixado ao relento após a prisão do filho, sempre são compensadores.

Além de um bom roteiro, Madá também conta com Regina Casé para lhe dar vida com enorme sucesso. Após seu papel de Lurdes na novela ‘Amor de Mãe’, muitas discussões sobre a atriz “fazer o mesmo papel” vieram à tona devido a comparações com Val de ‘Que horas ela volta?’. Por isso, aproveito para dizer que apesar das comparações serem válidas, aqui temos uma nova camada da atriz sendo explorada, se tornando totalmente injusto afirmar que é a mesma coisa.

Fazendo parte das produções afetadas pela pandemia, ‘Três Verões’ não ganhou seu lançamento em março nos cinemas, como previsto. Entretanto, seja qual for a plataforma de exibição, é unânime afirmar que sua trama subversiva ilustra o Brasil tão bem quanto qualquer outra produção sobre corrupção já feita até então. Tudo isto descende da delicada visão de Sandra Kogut sobre narrativas que raramente são protagonistas, a qual encontra a atuação honesta e cativante de Regina Casé, resultando em uma obra-prima.

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