Séries de TV têm sido um dos pilares fundamentais na consolidação global da Netflix como o maior serviço de streaming do mundo. Boas, ótimas ou ruins, vindas de diversas partes do mundo, não importa: sempre podemos contar com a produção serializada de TV como parte crucial do catálogo de qualquer streaming, especialmente da Netflix. E a nostalgia é um tempero essencial para o sucesso de muitas dessas séries também.

Rua do Medo, a trilogia que representa um novo experimento narrativo da Netflix, combina as duas coisas. É uma obra altamente nostálgica, quase metalinguística no seu interesse em remeter a subgêneros e obras clássicas do terror. E embora tecnicamente seja cinema – até começou a ser desenvolvida visando um lançamento na tela grande pelo estúdio Fox, mas a fusão com a Disney e a pandemia mudaram esses planos – tem aparência, cheiro e gosto de série da Netflix. Minissérie, na verdade. E como muitas delas, é uma diversão competente e envolvente, embora rasa. Você se diverte com os três filmes, ri, toma uns (poucos) sustos, e não demora muito, já está procurando outra coisa para assistir.

Baseados nos livros infanto-juvenis de terror do autor R. L. Stine – um Stephen King light, para os jovens – a trilogia faz uso de formatos e subgêneros consagrados do terror para contar uma história que se expande por séculos. Os dois primeiros filmes se apoiam muito no slasher; o terceiro embarca com força no horror com tons sobrenaturais.

Todos são dirigidos pela mesma diretora, a cineasta Leigh Janiak, e compartilham atores e temas. Tudo termina bem amarradinho, embora se possa notar um furo de roteiro aqui e ali, e nenhum dos filmes funciona isoladamente. O espectador só aproveita a história completa se assistir aos três, como numa minissérie.

Bem, essas linhas entre cinema e TV ficaram mesmo borradas nos últimos anos.  Vamos discutir cada filme em particular.

Rua do Medo: 1994 – Parte 1

Pela ambientação, a grande influência aqui é Pânico (1996) de Wes Craven. De fato, esta primeira parte é um Pânico menos intenso, com pitadas de sobrenatural, mas ainda com violência e humor. Janiak até pega uma página emprestada de Craven ao matar uma atriz já reconhecida – Maya Hawke, que participou da temporada 3 de Stranger Things e de Era Uma Vez… Em Hollywood (2019) – logo nos primeiros minutos. Depois o roteiro estabelece a rivalidade entre as cidadezinhas de Sunnyvale e Shadyside, e esta ultima é a “capital do assassinato nos EUA”.

De fato, muita gente morre em Shadyside e a lenda local da bruxa Sarah Fier recebe boa parte da culpa. Numa noite, por causa de um acidente, os jovens heróis da história entram em contato com essa maldição e começam a lutar por suas vidas. 1994 tem um ritmo bem ágil – quando ele engrena, pisa no acelerador por quase toda a sua duração – e acaba resultando numa experiência divertida.

O jovem elenco não mostra atuações dignas de Oscar, mas funciona e tem carisma. Não tem nada aqui que já não tenhamos visto antes – inclusive na própria Stranger Things – mas a condução de Janiak é segura e ela demonstra conhecimento e carinho pelo gênero terror.

Rua do Medo: 1978 – Parte 2

Esta segunda parte volta no tempo para mostrar o massacre no acampamento Nightwing, citado no anterior como um dos crimes provocados pela maldição. O tom é o mesmo, agora tendo como influência óbvia Sexta-Feira 13 (1980) e suas sequências – o assassino com saco na cabeça remete ao primeiro visual do Jason Voorhees em Sexta-Feira 13: Parte 2 (1981).

Porém, ao contrário da primeira parte, a narrativa aqui não é tão bem urdida. Há uns problemas de ritmo inegáveis – a heroína passa quase metade da história perdida numa caverna – e as tentativas de adicionar profundidade, com as atrizes principais querendo emocionar o espectador, soam deslocadas dentro do formato de um filme slasher.

Ainda assim, é divertido – embora menos que 1994 e menos do que a ambientação prometia – e deixa um bom gancho para a terceira parte.

Rua do Medo: 1666 – Parte 3

A conclusão da trilogia basicamente se divide em duas metades: Na primeira, vemos as origens da maldição de Sarah Fier, e essa muito necessária explicação introduz comentários sociais e desdobramentos interessantes para a trilogia como um todo.

Atores dos filmes anteriores reaparecem aqui, interpretando personagens do século XVII, e esse segmento é ancorado pela atuação consistente de Kiana Madeira, que vive a heroína Deena de 1994 e assume aqui o lugar da própria Sarah Fier. É o mais bem realizado e vívido segmento dos três filmes, e que deixa claro mais do que apenas mera inspiração em A Bruxa (2016) de Robert Eggers.

Já na segunda metade, voltamos ao final de 1994 para amarrar as pontas soltas e presenciar a conclusão da história, com direito a uma divertida citação a Carrie, a Estranha (1976). E apesar de alguns furos e de um final meio deus ex machina, a conclusão é empolgante e diverte o espectador. Acaba conseguindo a proeza de ser uma trilogia na qual a terceira parte é a melhor e a mais consistente.

Resultado

Rua do Medo tem uma seleção de trilha musical esperta, bom trabalho de cinematografia e direção de arte, e apelo à nostalgia desde o início. Apesar de não ter sido criado no berço da Netflix, se adaptou ao streaming como uma luva – e há de se pensar se os filmes não sofreram um processo de remontagem para se configurar melhor como experiência em casa.

É um chiclete divertido: o gosto desaparece em vários momentos, mas alcança seu objetivo e configura a diretora Leigh Janiak como talento a se prestar atenção no futuro. Em vários momentos, passa a impressão de ser mais homenagem do que narrativa propriamente dita, e talvez seja mesmo. Mas é uma homenagem simpática, com algumas boas ideias e noções aqui e ali para lhe dar um pouco de identidade.

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