Para mim, as comédias românticas sempre foram filmes com diferentes tramas, mas todas com uma única proposta: fazer seu público refletir sobre a dinâmica dos relacionamentos amorosos. Entretanto, a insistência pela padronização dessas produções nas últimas duas décadas resultou em um conceito diferente, que geralmente aponta para obras cheias de clichês com tramas previsíveis e superficiais. A partir deste panorama, pode-se imaginar minha felicidade ao assistir ‘Um Amor Inesperado’ e encontrar não apenas um longa que possui a essência das comédias românticas, como também surpreende com questionamentos existenciais e um ótimo humor.

Para contextualizar “Um Amor Inesperado”, o cineasta argentino Juan Vera apresenta a história do casal Marcos (Ricardo Darín) e Ana (Mercedes Morán). Na primeira metade da história, observamos ambos lidando com a mudança do filho para Europa, juntamente com as expectativas para o futuro do casal com a ausência de um terceiro integrante em sua rotina. Já na metade final, Ana e Marcos decidem, em comum acordo, se separar e é a partir disto que as jornadas individuais de autodescoberta começam.

Com esse enredo, “Um Amor Inesperado” poderia ser apenas uma comédia romântica sobre a crise de meia-idade de um casal, porém, a forma que a história é trabalhada a torna totalmente necessária. Isto ocorre, principalmente, devido ao filme apresentar um início o qual seria o perfeito final feliz para qualquer casal, exceto para Marcos e Ana. Os dois entendem que o próximo passo para o relacionamento e vidas pessoais é uma renovação ou a tão cruel rotina.

Esta escolha inteligente no roteiro continua a refletir nos diálogos entre seus protagonistas. Apesar de ambos aceitarem o divórcio, esta escolha não se torna menos dolorosa, momento que resulta em uma grande cena do longa. A partir desta separação, o grande mérito de “Um Amor Inesperado” é saber lidar com duas histórias distintas e como unir Ana e Marcos de formas menos óbvias.

Em suas jornadas individuais, os dois descobrem aspectos bons e ruins sobre si mesmos, porém, para a felicidade do clichê romântico, ambos dão sinais que irão acabar voltando para o antigo casamento. Entretanto, mesmo esta união com toque de final de feliz não é óbvia: Ana e Marcos afirmam que não estão apaixonados um pelo outro e, finalmente, descobrem o benefício desta afirmação.

SIMPLICIDADE COM TOQUES SOFISTICADOS

Apesar de ter uma lista longa de trabalhos como produtor, função que desempenha muito bem, Juan Vera estreou na função de diretor em ‘Um Amor Inesperado’ e sua presença por trás das câmeras é muito notada. Neste primeiro momento, sua característica mais marcante se torna a boa caracterização e produção de cenas, o que em ‘Um Amor Inesperado’ consegue mostrar a diferença gritante entre como Ana e Marcos encaram a solteirice.

Para além disto, o diretor também dá indícios de buscar uma fotografia mais ousada, com planos longos e o direito a introduzir slowmotion em uma cena protagonizada por Morán. Este momento, inclusive, mostra bastante sobre a capacidade de Juan Vera em construir cenas engraçadas sem se apoiar apenas nos diálogos ou em recursos visuais, utilizando um pouco de cada para criar o tom cômico e leve no filme.

Esta facilidade em apresentar uma trama orgânica do gênero é muito bem-vinda em uma história que, na verdade, fala sobre o divórcio, momento geralmente complicado e dramático para qualquer um. Toda esta densidade sobre o tema é uma constante na trama, afinal, os veteranos Mercedes Morán e Ricardo Darín não foram escalados por acaso: os dois conseguem encarar a carga dramática do longa com facilidade e, ao mesmo tempo, serem carismáticos e até bobos para voltar à comicidade.

A presença de dois fortes atores no elenco sobressai até mesmo os esforços que Juan Vera possui em aproximar o casal do público, tornando estas escolhas excessos no filme. Um exemplo disto são as poucas cenas que os atores narram a história, olhando diretamente para a câmera em uma espécie de diálogo com o espectador. A força do elenco e até mesmo do roteiro por si só já são suficientes para conduzir a trama, tornando estes momentos desnecessários.

Assim como seu título sugere, ‘Um Amor Inesperado’ é uma grata surpresa dentre as produções argentinas mais recentes. Tanto o trabalho de Juan Vera na direção quanto a condução que o roteiro apresenta para a trama consegue justificar os clichês utilizados na produção, tornando-os simples detalhes narrativos. Utilizando a mensagem final do longa, posso afirmar: não é preciso se apaixonar pela trama para reconhecer os méritos deste filme.

‘Dog – A Aventura de uma Vida’: agradável road movie para fazer chorar

Filmes de cachorro costumam trazer consigo a promessa de choradeira e com “Dog – A Aventura de uma Vida” não foi diferente. Ao final da sessão, os críticos na cabine de imprensa em que eu estava permaneceram todos em silêncio; enquanto os créditos subiam e as luzes da...

‘Red Rocket’: a miséria humana dentro do falso american dream

Recomeçar. Um reinício, uma nova oportunidade, uma nova perspectiva, um recomeço. Estamos sempre nesse ciclo vicioso de dar um novo pontapé inicial. Todavia, há um certo cansaço nesta maratona de reiniciar a vida quando (nunca) ocorre de uma maneira planejada e o...

‘Top Gun: Maverick’: o maior espetáculo cinematográfico em um bom tempo

Precisamos de poucos segundos para constatar: a aura dourada de San Diego, banhada por um perpétuo poente, está de volta. “Top Gun: Maverick” se esforça para manter a mesma identidade estabelecida por Tony Scott no original de 1986 – tanto que a sequência de créditos...

‘Tantas Almas’: olhar sensível sobre questões amazônicas

Captar as sensibilidades que rondam a Amazônia e a vivência de seus moradores é um desafio que nem todos os cineastas estão dispostos a experimentar. A região, nesse sentido todo território sul-americano recoberto pelas suas florestas e rios, desperta curiosidade e o...

‘O Homem do Norte’: Eggers investe na ação aliada aos maneirismos

Considerando o que tem em comum entre os planos definidores de suas obras, podemos encontrar a frontalidade como um dos artifícios principais que Robert Eggers usa para extrair a performance de seus atores com êxito.  Ao mesmo passo que esses momentos tornam-se frames...

‘O Peso do Talento’: comédia não faz jus ao talento de Nicolas Cage

Escute esta premissa: Nicolas Cage, ator atribulado de meia-idade, teme que sua estrela esteja se apagando; o telefone já não toca mais, as propostas se tornaram escassas e o outrora astro procura uma última chance de voltar aos holofotes com tudo. Vida real, você...

‘O Soldado que não Existiu’: fake news para vencer a guerra

Em 1995, Colin Firth interpretou o senhor Darcy na série da BBC que adaptou “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. Dez anos depois, Matthew Macfadyen eternizou o personagem no filme de Joe Wright, tornando-se o crush de muitas jovens e adolescentes. John Madden...

‘@ArthurRambo: Ódio nas Redes’: drama sintetiza a cultura do cancelamento

A cultura do cancelamento permeia a internet às claras. Para o público com acesso  frequente, é impossível nunca ter ouvido falar sobre o termo. Vivemos o auge da exposição virtual e como opera a massificação para que os tais alvos percam - merecidamente - ou não -...

‘Águas Selvagens’: suspense sofrível em quase todos aspectos

Certos filmes envolvem o espectador com tramas bem desenvolvidas, deixando-nos mais e mais ansiosos a cada virada da história; outros, apresentam personagens tão cativantes e genuínos que é impossível que não nos afeiçoemos por eles. Mas existe também uma categoria...

‘Ambulância – Um Dia de Crime’: suco do cinema de ação dos anos 2000

Vou começar com uma analogia, se me permitem. Hoje em dia, o ritmo e consumo de coisas estão rápidas e frenéticas. Com o Tik Tok e plataformas similares, esse consumo está ainda mais dinâmico (e isso não é um elogio) e a demanda atende às exigências do mercado. A...