Quarenta anos depois, a cidade de Detroit continua feia e o astro Eddie Murphy muito engraçado… e preguiçoso. Este Um Tira da Pesada 4: Axel Foley, nova continuação do sucesso de 1984 que transformou Murphy em mega astro mundial, chega à Netflix como um exercício de nostalgia que até diverte um pouco, mas também nunca sai da sua zona de conforto. E nem sequer tenta sair. É muito legal rever o herói Axel Foley e seus colegas e personagens associados, mas ao final deste quarto filme, ficamos desejando que eles tivessem tido algo melhor para fazer nessas duas horas.

Na história, Foley, o tira de Detroit com jeito falastrão e malandro interpretado por Murphy, se envolve em um novo rolo quando a filha advogada começa a ser ameaçada. Isso faz com que ele retorne a Beverly Hills – pela quarta vez – para ajudá-la, levando a se meter em mais um caso policial explosivo. E é isso. É a trama padrão de qualquer sequência de Um Tira da Pesada e algumas boas cenas de ação e uma ou outra piada mais inspirada.

REMIX MODERNIZADO

O filme dirigido por Mark Molloy – que aqui estreia no cinema depois de trabalhar com comerciais e séries – não esconde desde o começo que é baseado na nostalgia: a primeira sequência de ação mostra Foley e um candidato a parceiro provocando destruição por Detroit a bordo de um caminhão, ao som da mesma música da sequência inicial do primeiro Um Tira da Pesada. A única diferença é que Murphy agora está dirigindo, enquanto no original ele ia na caçamba do caminhão. É isto que é este Um Tira da Pesada 4: um remix ligeiramente modernizado de algo que já vimos antes.

E como numa sitcom, todo mundo dos filmes antigos que quis participar retornou: temos aqui Judge Reinhold, Bronson Pinchot, Paul Reiser e até o veterano John Ashton saiu da aposentadoria para reviver o ranzinza Taggart. É muito bom revê-los e a velha química ainda está lá – de fato, a melhor piada do filme é uma cena entre Murphy e Reiser, envolvendo a idade do primeiro, que de fato não parece tão diferente assim do que aparentava há 40 anos. Bem, vá lá, 30 anos, na última aparição do Axel Foley no fraquíssimo Um Tira da Pesada 3 (1994), que é até zoado neste novo filme.

Este quarto filme se destaca mesmo nas cenas de ação – ele é melhor quando os personagens estão dando tiros ou destruindo as coisas do que nas partes de humor. Molloy e sua equipe orquestram alguns bons tiroteios e uma cena envolvendo um helicóptero, fazendo a maior parte desses momentos de verdade, recorrendo a poucos efeitos digitais. O diretor até resgata um pouco dos palavrões e da violência desmedida dos filmes dos anos 1980: neste Um Tira da Pesada, temos linguagem chula e um pouco de sangue e tiros na cabeça, como costumava haver com mais frequência há 40 anos.

E a cola que mantém tudo unido é mesmo Eddie Murphy, que tira a naftalina da velha jaqueta e retoma seu personagem de forma muito, muito fácil. Viver o Foley é confortável para o astro, que continua capaz de fazer o espectador rir apenas com um sorriso ou o jeito como diz uma fala. Por isso mesmo é uma pena que o roteiro preguiçoso não aproveite de forma mais incisiva mais a presença do protagonista numa Beverly Hills ainda mais esnobe e plástica que a de 40 anos atrás, e agora politicamente correta. No longa original, Foley se destacava naquele mundo como se fosse um ET – um homem negro meio mal vestido naquele mundo chique, rico e branco – e o filme minava muito humor e tensão daquele contexto. Aqui não, e este quarto filme se limita a fazer uma piadinha sobre o tamanho dos carros de polícia atuais na Califórnia.

Ao invés disso, o roteiro prefere investir num conflito pai e filha – interpretada por Taylour Paige – que é totalmente clichê e em algumas cenas entre Foley e o detetive vivido por Joseph Gordon-Levitt. Ah, e o vilão da vez é vivido por outra lenda dos anos 1980, Kevin Bacon, num papel onde já dá para se notar que ele é o bandido na primeira cena em que aparece.

MEIO TERMO

Entre prós e contras, este Um Tira da Pesada 4: Axel Foley acaba ficando num meio termo: dada a qualidade geral de lançamentos Netflix, esse aqui é até bonzinho, mas para quem espera ver algo diferenciado por causa da marca e da presença de Eddie Murphy, é melhor temperar as expectativas. De fato, nenhuma das continuações de Um Tira da Pesada é lá grande coisa: este quarto, pelo menos, é facilmente superior ao terceiro. Mas aquela eletricidade do original, que captou um dos maiores gênios da comédia no cinema no seu auge, em estado de graça, essa nunca conseguiu ser replicada.

Ainda assim, este novo filme podia recapturar um pouquinho daquela fagulha, se quisesse. Porém, os envolvidos na sua realização não quiseram. Acontece quando a nostalgia fácil domina atores, produtores de cinema, de streaming, e também alguns espectadores.