Inspiração, criação e compartilhamento. 

Com estas três palavras, Agnès Varda sintetiza um trabalho de seis décadas entre filmes de ficção, documentários, curtas experimentais e instalações de arte. A realizadora belga deixou um vácuo enorme no mundo do cinema após a sua morte no início deste ano, mas se despediu graciosamente: seu último filme, Varda por Agnès, transborda vivacidade, com a diretor sendo franca sobre suas técnicas e objetivos.    

Para seus fãs, pode ser mais do mesmo. Como seus contemporâneos da Nouvelle Vague, seu estilo cinematográfico não foi apenas exposto diversas vezes em suas obras, mas geralmente era uma parte integral delas  – “Cléo das 9 às 5” é um exemplo clássico de como o tempo real pode ser empregado para efeito dramático. No entanto, talvez em uma urgência causada por sua saúde debilitada, aqui ela se permite ser didática ao extremo, estruturando o filme como um TED Talk sobre a sua filosofia.

O que sempre a diferenciava de seus pares era sua inabalável investigação sobre as condições da classe trabalhadora, das minorias e dos menos favorecidos, dando a seus filmes uma dimensão social que era, ao mesmo tempo, pungente e poética. A sua obra ressoa especialmente dentro do contexto do feminismo – uma relação que o segundo ato de “Varda por Agnès” explora profundamente.

Estabelecida ao longo dos anos como uma autora feminista, Varda realizou obras que permanecem atuais na temática, tais como “Os Renegados” (1985), “As Duas Faces da Felicidade” (1965) e “Uma Canta, a Outra Não” (1977). Em 2019, as questões abordadas por esses filmes – a autonomia feminina, a gravidez e as relações fluídas, respectivamente – continuam polêmicas. 

TRIUNFO NO FIM DA VIDA 

Mais surpreendente, especialmente para o público fora da Europa, é ter contato com a recente imersão da diretora nas artes visuais. Embora não seja tão comovente como a parte que lida com o seu cinema, o sumário dessas obras é informativo e uma oportunidade para um público mais amplo conhecê-las. Porém, ele expõe o grande motivo que impede “Varda por Agnés” de ser tão bem-sucedido como foram “As Praias de Agnès” e “Visages, Villages”. Como aqui o objetivo explícito é o de apresentar o resumo definitivo de sua arte, o filme perde um pouco da espontaneidade que tornou a abordagem da realizadora tão cativante. 

Mesmo assim, o fato de ela ter conseguido se despedir à sua maneira e com tamanha clareza já é um triunfo. Como “Blackstar”, último disco de David Bowie, “Varda por Agnès” é um produto de uma artista profundamente devota à condição humana que quis usar a própria morte como um testamento final. “Nenhuma coisa é banal se você a filma com empatia e amor, se você a acha extraordinária, como achei”, ela declara, em determinado momento do longa.  

O trabalho de Varda é uma prova definitiva disso.

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