“Wheel of Fortune and Fantasy”, novo filme de Ryūsuke Hamaguchi, é feito sob medida para quem gosta de longas cenas de conversa. Agraciado com o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, o longa encontra seu diretor em modo mais conciso, apresentando três histórias em apenas duas horas. Seu formato episódico pode encontrar nas plataformas de streaming um lar perfeito, desde que o público delas abrace o ritmo desapressado da produção.

O estilo de Hamaguchi tem um quê literário e, de certa forma, seus filmes anteriores se assemelham a grandes romances – em especial, o épico de quatro horas “Happy End”. Nesse contexto, “Wheel of Fortune and Fantasy” se apresenta como uma coletânea de contos: três histórias de 40 minutos em média, sem personagens em comum, ligadas apenas por ecos temáticos.

AS HISTÓRIAS

A primeira, “Mágica (ou Algo Menos Assegurador)”, gira em torno da modelo Meiko (Kotone Furukawa), que se vê numa sinuca de bico quando sua melhor amiga Tsugumi (Hyunri) começa um romance com Kazuaki (Ayumu Nakajima), seu ex-namorado. O triângulo amoroso inesperado a obriga a confrontar seus próprios sentimentos e a decidir se irá se colocar no meio da relação dos dois ou não.

A segunda, “Porta Bem Aberta”, aborda o plano de vingança do estudante Sasaki (Shouma Kai) contra seu ex-professor Sagawa (Kiyohiko Shibukawa). Ele decide mandar sua colega de classe e amante ocasional Nao (Katsuki Mori) ao escritório para seduzir o professor e produzir provas do ocorrido para incriminá-lo. O que acontece muda a vida de todos.

A terceira, “Outra Vez”, mostra a interação entre Natsuko (Fusako Urabe) e Nana (Aoba Kawai), duas mulheres cujas vidas se esbarram numa estação de trem por conta de um mal-entendido. Aproveitando a ocasião, elas se permitem um momento para ajudar uma a outra a lidar com o peso do passado.

PODER DO ACASO

Das três, a primeira parece a mais inconsequente e é a que mais deve testar a paciência do público. As outras duas possuem uma escrita mais madura – cortesia do roteiro de Hamaguchi – que encontra uma maneira de fazer com que causos tão insólitos não só pareçam críveis, mas sejam emocionantes. A cena de sedução entre Nao e Sagawa na segunda história, por exemplo, perpassa a confidência, o constrangimento, o erotismo e a tristeza em questão de minutos.

As personagens de “Wheel of Fortune and Fantasy” são pessoas feridas unidas por ações desprezíveis – seja por praticá-las ou por sofrê-las. Abertura, distância, identidade e intimidade aparecem como temas recorrentes nesta série de encontros. Ainda que enxuto para os padrões de Hamaguchi, o filme é lento, verborrágico e não deve agradar todo mundo. Quem abraçar as suas possibilidades verá uma encantadora reflexão sobre o poder do acaso.

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