Qual foi a marca do cinema na década 2010?

Certamente, os blockbusters da Marvel têm um papel importante graças ao domínio hegemônico ao redor do planeta – Martin Scorsese que o diga.

Por outro lado, olhando menos bilheterias e mais o lado artístico, a década também permitiu o brilho de gigantes como Terrence Malick e David Fincher, mas, também viu a retomada de um rebelde como George Miller. O cinema americano se abriu mais para o mundo com os sucessos dos diretores mexicanos em obras como “Gravidade” e “O Regresso” até o estrondoso hit de 2019, o sul-coreano “Parasita”.

As narrativas transmidiáticas também se impõe colocando questões hoje fundamentiais sobre o que é ou não cinema e o próprio futuro do audiovisual. A representatividade de minorias – negros, mulheres, indígenas, os ‘white trash’ – ganham cada vez mais visibilidade, trazendo maior diversidade não apenas em cena; mas, de histórias e profissionais atrás das câmeras.

Dentro deste vasto panorama, os integrantes do Cine Set apresentam quais filmes consideram ser o melhor da década. Vale lembrar sempre que só podem ser citados obras lançadas no Brasil entre 1 de janeiro de 2010 a 31 de dezembro de 2019. 

ANA SENA

Nasce uma Estrela: É um filme que marca no coração pela experiência como um todo, tanto pelas atuações belíssimas, a trilha sonora marcante, a direção excepcional e a fotografia delicada. Nasce uma Estrela é como o Titanic da década atual, um filme para assistir muitas vezes, se emocionar na mesma medida e guardar as cenas memoráveis, tão bem dirigidas. A obra é uma ode ao amor, a música e a tragédia de nossas escolhas.

Menções honrosas: O Universo no Olhar (Mike Cahill), Assunto de Família (Hirokazu koreeda) e Manchester à Beira-Mar (Kenneth Lonergan).

CAIO PIMENTA

“A Árvore da Vida”: bastaria a bela história da família destruída por uma tragédia com atuações excelentes de Brad Pitt e da então revelação Jessica Chastain. Bastaria a fotografia de Emmanuel Lubezki capaz de influenciar toda uma geração de diretores de fotografia. Bastaria o holofote habitual de um ‘filme de Terrence Malick’ para chamar a atenção. Mas, o que “A Árvore da Vida” propõe é muito maior: trata-se da nossa relação com Universo, do nosso tamanho e das nossas dores devastadoras no espaço-tempo, a relação com o divino – se é que ele exista -, o que nos liga como humanidade. Igual fizera Kubrick em “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, Malick transcede barreiras de gêneros, narrativas para aproximar o cinema da filosofia; uma viagem em que o espectador precisa se permitir fazer sem amarras. 

CAMILA HENRIQUES

A Rede Social: os anos 2010 foram ricos em grandes filmes, mas escolho aquele pro qual sempre retorno. União do estilo sóbrio de David Fincher com os diálogos perfurantes de Aaron Sorkin, “A Rede Social” revelou atores que fariam coisas interessantes nos anos seguintes, mas, mais que isso, colocou na mesa uma discussão profunda sobre princípios e sobre o valor das redes sociais – anos depois, é interessante rever o filme e perceber o quão traiçoeiros foram (e ainda são) os feitos do protagonista Mark Zuckerberg.

DANILO AREOSA

Ela: se me perguntarem, qual foi o filme que tocou fundo no meu coração nesta década, nem precisarei pensar muito: Ela de Spike Jonze. O que mais me atrai nele, nem é o que seu lado sentimental desperta em mim, mas sim, o aspecto cerebral, principalmente a forma que Jonze discute os relacionamentos amorosos nos tempos modernos. Não deixa de ser um conto moral, todo adornado no formato de uma poesia melancólica pura. O futuro proposto por Jonze, nada mais é que o nosso presente. Traz o lado sensível do cineasta mostrando como o ser humano idealiza e projeta suas carências na relação com o outro e indica que somos aquilo que perdemos quando amamos. Um filme sensível, poético e bonito, com Phoenix soberbo na atuação. Jonze cria um trabalho lindo de ver e prazeroso de ouvir. E, por esta enorme sensibilidade de unir pontos de vistas racionais e sentimentais, Ela é o melhor da década.

Menção Honrosa: Roma, de Alfonso Cuarón; Boyhood, de Richard Linklater; Elle, de Paul Verhoeven.

DIEGO ALEXANDRE

Cisne Negro (2010): com uma direção impecável de Darren Aronofsky, somada à excepcional fotografia de Matthew Libatique e a performance arrebatadora de Natalie Portman, “Cisne Negro” arrebatou a crítica e conquistou o público, tornando-se um grande sucesso comercial e influenciando a cultura popular. Inspirada pelo romance “O Duplo”, de Fiódor Dostoiévski, contando com uma sequência final inesquecível que fez com que os espectadores saíssem arrepiados do cinema, a obra de Aronofsky é um clássico moderno que influenciará muitos cineastas ao longo da história.

DIEGO BAUER

Boyhood: “Boyhood” é sobre o tempo. A passagem invisível dele. E Richard Linklater é um gênio na arte de apresentar os pequenos acontecimentos da vida, que se conectam para nos levar ao caminho onde queremos chegar, mesmo que enquanto essas coisas banais acontecem, não saibamos de verdade se elas fazem sentido, e para onde nos levam. É sobre viver o presente, e entender que é apenas isso que se tem. A passagem do tempo materializada nos rostos dos atores que contam essa história gera um efeito inigualável, para mim comparado apenas à obra prima do cinema brasileiro, Cabra Marcado Para Morrer. Considero Boyhood (e Cabra) acima de um filme, mas um registro sobre a passagem do tempo conduzido pela especial sensibilidade de um grande diretor.

Menção honrosa: A Separação.

HENRIQUE FILHO

“Mad Max – Estrada Para Fúria”: um projeto que tinha tudo para dar errado. Troca de ator protagonista, atrasos nas filmagens, todo tipo de imprevisto acontecendo; parecia até mais um filme de Terry Gilliam do que George Miller. E não é que “Mad Max – Estrada da Fúria” é um espetáculo visual como poucos visto na década? Personagens icônicos, momentos memoráveis, trilha sonora e design de produção fantásticos. Um cinema de ação sem cortes excessivos, sem câmera tremida, visceral e emotivo, uma aula pra franquias como “Velozes e Furiosos”, George Miller precisa voltar àquele mundo. Uma obra-prima, testemunhem!

IVANILDO PEREIRA

“Mad Max: Estrada da Fúria”: parti para o que mais mexeu comigo num nível visceral: Mad Max: Estrada da Fúria (2015), de George Miller, é um blockbuster, mas é mais do que só isso. Primeiro, aborda subtextos poderosos dentro da sua narrativa de ação; segundo, para citar nosso amigo Scorsese, Estrada da Fúria é cinema, uma experiência puramente cinematográfica, muito mais do que os dramas acanhados que ganham Oscars todos os anos e que poderiam ser peças de teatro ao invés de filmes. Lá no início do cinema, Buster Keaton fez história ao passar de raspão na frente de uma locomotiva. No século XXI, Miller pegou essa honrada tradição do cinema e fez o melhor filme de ação de todos os tempos.

LUCAS PISTILLI

“A Árvore da Vida”: os anos 2010 foram, ao mesmo tempo, a época mais prolífica e menos aclamada de Terrence Malick. Em meio às obras medianas que ele lançou nesse período, o status de obra-prima de “A Árvore da Vida” – ganhador de uma merecida Palma de Ouro – fica ainda mais claro. Um ambicioso projeto que remonta a história do universo e da humanidade e que é cinema em sua forma mais pura e contemplativa.

NATASHA MOURA

“O Cavalo de Turim”: escolha dificílima de se fazer, mas seria impossível ignorar a obra-prima que é “O Cavalo de Turim”. Longa anunciado como o encerramento da carreira de Béla Tarr, esse é um dos filmes dessa década que reúne tudo aquilo necessário para marcar a história do cinema. E não é diferente, mas com um diferencial, algo que prezo bastante, que é desafiar o espectador a desvendar a cada frame o dito e o não dito. Uma beleza sem fim.

PÂMELA EURÍDICE

“Boyhood”: essa foi uma década de filmes magistrais que procuraram explicar como a sociedade estava se movimentando e se transformando. Ao mesmo tempo em que olhamos para frente, também buscamos resgatar nossa história. Destaco o trabalho de Linklater, por conseguir mostrar na prática como essas mudanças ocorrem e no processo extrair uma história singela e encantadora. Provando mais uma vez que o cinema está no cotidiano e que temos muitas narrativas a contar.

REBECA ALMEIDA

“Capitão Fantástico”: mesmo não se tratando de um longa extremamente impactante, deixo ‘Capitão Fantástico’ no hall das obras memoráveis desta década pela destreza que Matt Ross trata determinadas temáticas e questionamentos. Apesar de possuir um texto extremamente político, o longa apresenta uma leveza muito grande, que o torna fácil de assistir inúmeras vezes (eu mesma já confirmei isso). Enfim, existem diversos outros filmes que merecem ser citados nesta categoria, mas na posição que estou de destacar uma obra que vale a pena ser lembrada como uma das melhores desta década, fico satisfeita com essa escolha.

Menções honrosas: Me Chame Pelo Seu Nome, O Lagosta, Logan, A Família Bélier, Questão de Tempo, Rogue One, Infiltrado na Klan, Fragmentado, Relatos Selvagens, Your Name (Kimi no na wa).

SUSY FREITAS

Twin Peaks: O Retorno: já que David Lynch decidiu que Twin Peaks: o retorno (2017) é um filme de 18 horas, eis o meu escolhido. Na Parte 14 da obra, Monica Belluci diz, parafraseando um trecho dos Upanixades, que “somos como o sonhador que sonha e depois vive dentro do sonho. Mas quem é o sonhador?”; com Twin Peaks: o retorno, fechamos a década nos perguntando o que é cinema e o que é televisão.  O diretor norte-americano imprimiu sua marca numa obra onírica, instigante até em sua lentidão e consonante mesmo em suas discrepâncias entre as mídias de que se apodera. Aliado a um elenco de peso e uma equipe coesa, atua na fluidez das fronteiras entre as artes para nos entregar um produto final complexo, estranhamente polifônico e curiosamente divertido (Hellooooooo! – entendedores entenderão).

Menções honrosas: Melancolia (2011); O mestre (2012); Mad Max: Estrada da Fúria (2015); Visages, villages (2017); Em chamas (2018).

WALTER FRANCO

“Parasita”: Para encerrar a década com chave de ouro, é claro que Bong Joon-ho iria carregar a chave de ouro para isso. Estreando em Cannes e recebendo um clamor unânime, Parasita, mesmo tendo estreado a pouco tempo, já fez história. Sua narrativa universal sobre lutas de classes, munida de um excelente roteiro que mescla comédia e suspense conseguem trazer tudo o que um clássico do cinema pede: uma boa mensagem com um bom veículo narrativo. Somado a esses detalhes está o excelente elenco. Cho Yeo-jeong como a esposa e dona da casa onde ocorre a maior parte da trama está excelente, expondo os mais diversos sentimentos que sua personagem exige. Song Kang-ho e o resto dos personagens que interpretam sua família também dão um show no longa.

Menções honrosas: Moonlight (Barry Jenkins), Madeline´s madeline (Josephine Decker), Ato de Matar (Joshua Oppenheimer), Citizenfour  (Laura Poitras) e Acima das Nuvens (Olivier Assayas).

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