Allan Deberton viveu um 2019 intenso. O primeiro longa-metragem da carreira, Pacarrete, fez uma vitoriosa carreira pelo circuito de festivais brasileiros e internacionais com destaque para a conquista no Festival de Gramado, onde dominou a premiação ao levar oito Kikitos, incluindo, Melhor Filme, Direção, Atriz para Marcélia Cartaxo, Ator Coadjuvante para João Miguel, Atriz Coadjuvante com Soia Lira e Roteiro. 

Por outro lado, Deberton teve que lidar com o autoritarismo do atual governo federal. Em live no Facebook no dia 15 de agosto, o presidente Jair Bolsonaro citou nominalmente o documentário “Transversais”, da produtora cearense Deberton Filmes, dirigido por Émerson Maranhão e produzido por Allan. A razão era o conteúdo LGBT do projeto e que, por isso, decidira suspender o edital das TVs Públicas.  

2020 promete seguir no mesmo fluxo. 

Se viu “Transversais” ficar de fora da seleção final do edital, Allan se prepara para circular com “Pacarrete” em mais festivais e também para o lançamento do filme nos cinemas brasileiros. Em passagem pela Mostra de Tiradentes, o diretor, ao lado da estrela do premiado longa, Marcélia Cartaxo, falou com o Cine Set sobre todo esse importante momento de sua carreira. 

 

Cine Set – Você se formou pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e voltou para o Ceará, onde fundou sua produtora. O que te motivou a voltar, ao invés de produzir no Sudeste? 

Allan Deberton – Sou muito apegado às minhas raízes e a minha família também. Na verdade, eu amava o Rio de Janeiro e cheguei a pensar que me fixaria por lá na época em que estudava. Porém, esse processo de perceber que precisava voltar foi algo bastante natural. Realizar o meu primeiro curta durante a finalização do curso pela UFF também ajudou nesta decisão: gravei em Russas, onde também fiz “Pacarrete”. Nas filmagens, algumas pessoas da equipe que moravam em São Paulo e no Rio de Janeiro foram até o interior do Ceará para trabalhar no projeto. Com isso, percebi que dava para residir mais perto de casa e continuar o meu trabalho, reunindo as amizades e parcerias profissionais que fiz nos meus trabalhos. 

Cine Set – Falando do “Pacarrete”, como tem sido a repercussão do filme nos festivais nacionais e internacionais? E qual a expectativa para a estreia em circuito comercial no Brasil? 

Allan Deberton Pacarrete” estreou no Festival de Cinema de Xangai e foi maravilhoso com sessões calorosas, contagiantes. Depois, exibimos aqui no Festival de Gramado, um divisor de águas. No Brasil, a passagem em eventos de diferentes portes foi sempre muito boa. Internacionalmente, me surpreendeu a boa acolhida nos EUA, depois, voltamos para China de forma inesperada, exibindo em seis grandes cidades com interesse do público nos debates. O filme ainda passou na Índia. Nos próximos meses, “Pacarrete” irá para os festivais de San Francisco, New Jersey, além de eventos em Paris e Lisboa. 

Ver o filme em lugares que a gente achava improvável com tamanha boa repercussão é super excitante. O lançamento no circuito brasileiro ocorre no dia 30 de abril com distribuição da Vitrine Filmes. 

Cine Set – O que vocês acham que faz “Pacarrete” ter tanto sucesso por onde passa? O que vocês sentem que mais tem comovido o público nestes eventos? 

Allan Deberton – Creio que seja uma identificação com alguém de casa, uma mãe, uma tia, uma vizinha, uma imagem que as pessoas fazem de uma pessoa próxima a ela. Isso é ótimo porque o filme, apesar da Pacarrete ser birrenta, contraditória – ela chega a ser não muito educada, delicada, até grosseira – há um sentimento de empatia, no final, sofrendo junto com ela. Isso ultrapassa a experiência do cinema por provocar a reflexão das Pacarretes das nossas rotinas… 

Marcélia Cartaxo  E também da cidade do interior com seus artistas abandonados pelo próprio local. Fico me imaginando quando eu ficar mais velha como será, afinal, eu vou voltar para Cajazeiras (PB) (risos). 

Allan Deberton – Também estou acompanhando a expectativa das pessoas no Twitter em relação ao filme. Tem muita citação nas redes sociais, ou seja, “Pacarrete” está entrando na cultura pop. 

Cine Set – Allan, comente sobre o cenário audiovisual cearense. Como estão as políticas públicas de estímulo ao audiovisual no estado? 

Allan Deberton – Existe uma tentativa de ser uma política recorrente, mas, não é. O edital de Cinema & Vídeo, por exemplo, chegou a ocorrer a cada dois anos ou até levar um intervalo de três anos. A divulgação do resultado também demora bastante. Por exemplo, não tivemos a chamada de 2019; a última foi de 2017, lançado apenas em 2018. O calendário anual não é muito certo, o que prejudica bastante. Porém, comparado ao outros Estados nordestinos, há uma intenção de investimento maior. 

Hoje em dia, o cinema cearense conseguiu êxitos de público como, por exemplo, o “Cine Holliúdy”, do Halder Gomes, ao mesmo tempo em que temos obras circulando festivais como “Greta”, do Armando Praça, “Inferninho”, do Guto Parente e Pedro Diógenes, além, claro, do Karim Ainouz, diretor local que fez “A Vida Invisível”. O legal do nosso cinema ser visto e valorizado é aumentar a necessidade de manutenção destas políticas de investimento. 

Cine Set – Você acha que o boom do cinema pernambucano está incentivando os outros estados do Nordeste a produzirem mais conteúdo audiovisual? 

Allan Deberton – Sim! Por exemplo: antes era bem difícil ver produção no Rio Grande do Norte; agora, está surgindo diversos curtas-metragens e um longa, o “Fendas”, de Carlos Segundo. O mesmo posso dizer do cinema paraibano, na Bahia também. Vejo um desejo de se produzir sempre com muito afeto; histórias que tocam diretores e roteiristas e, uma vez que existe o desejo de sobrevivência no cinema e há a oportunidade de tirá-lo do papel, observo uma luta para que funcione e dê certo, filme após filme.  

Cine Set – Como as políticas do governo federal estão afetando o cinema cearense, incluindo, toda a polêmica envolvendo a série “Transversais”? 

Allan Deberton – É uma tentativa de enfraquecer e desmoralizar todo o setor. Temos aí um ato bem explícito de censura. Houve uma tentativa do Ministério Público de impedir isso, obrigando o governo a publicar o resultado do edital. Estávamos em uma lista finalista para decisão de investimento por conta de méritos, orçamentos corretos e todo um sistema de pontuação, e, de repente, todos os projetos citados não estão na lista final. Isso nos leva a crer que ou estes projetos já estavam fora antes mesmo da análise decisiva ou não foram selecionados porque desagradavam o presidente.  

É uma pena porque desejávamos muito fazê-los para que pudessem ser oferecidos para a sociedade e as pessoas percebessem que não tem nada a ver sobre o que presidente fala deles. “Transversais”, por exemplo, é uma série documental mostrando personagens trans, muitos deles, vítimas de violência, inclusive, doméstica. A ideia era trazer histórias de superação como uma professora no interior do Ceará querida pelos alunos e toda cidade.  

A proposta da série é falar sobre amor, resistência e isso deveria ser incentivado por tratar de temas de cidadania. Quando se coloca os temas dos nossos projetos como algo tenebroso, indigno de ter a produção incentivada, só podemos ficar perplexos, afinal, não faz sentido. 

Cine Set – Quais seus futuros projetos para cinema? 

Allan Deberton – Tinha projetos que estava desenvolvendo, mas, no ano passado, fiquei imerso na participação do “Pacarrete” em festivais e, agora, teremos o lançamento comercial. Mesmo assim, comecei a ver três projetos de longa, alguns em estágio mais avançados do que outros. São histórias que me tocam bastante abordando questões humanitárias.  

Acredito que sejam obras com possibilidade de obter plateias bem diversas através de temas bem íntimos – amor, resistência, busca da felicidade. Todos apresentam temáticas LGBT com personagens representando a diversidade sexual, muito brasileiros e necessários. Apesar de temer pelo processo burocrático dentro deste governo, estou ansioso para que possam acontecer logo. 

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