O Cine Set prossegue com as entrevistas dos candidatos à Prefeitura de Manaus nas eleições 2020 com Gilberto Nascimento. 

O candidato do PSTU tenta chegar pela primeira vez à Prefeitura de Manaus. Gilberto Vasconcelos já concorreu ao cargo de vice municipal na eleição de 2008. Também disputou para ser vereador em 2004 e 2012. 

Conforme estabelecido junto a todas as chapas, as perguntas são idênticas para todos os candidatos e feitas na mesma ordem. 

Cine Set – Qual deve ser o papel do Estado no setor cultural e qual será o foco da sua gestão no setor? 

Gilberto Vasconcelos – No PSTU, acreditamos no papel do Estado como indutor da cultura. Nunca no sentido de controle e sim em criar condições para que todas as formas de arte se desenvolvam. O primeiro local seria a escola: além das salas de aulas tradicionais, os colégios deveriam ter oficinas de artes para os alunos aprenderem dança, música, toda forma de expressão artística que for possível. 

A nossa proposta é criar Conselhos Populares para todos os setores de interesse social envolvendo os trabalhadores da área e a população usuária. Esses conselhos terão o poder de deliberar nas mais diversas áreas.  

Agora, a arte precisa de liberdade, inclusive, de crítica. Ninguém pode pensar em uma arte, mesmo que seja financiada ou subsidiada pelo governo, que não tenha espaço para criticar a gestão pública. A arte tem que ser a expressão daquilo que o olhar do artista permite ser feito. 

Cine Set – Como tornar a Lei Municipal de Incentivo à Cultura mais eficiente em sua proposta?  

Gilberto Vasconcelos – Retomo a questão dos Conselhos Populares. Hoje, a Manauscult possui um Conselho de Cultura de Manaus. Agora, os artistas têm que ter o poder de deliberar e, inclusive, substituir quando for preciso quem estiver na direção para que faça prevalecer a vontade da classe sobre a vontade política.  

Não sei como está o Conselho de Cultura hoje; me parece que ele participa das decisões, porém, continua sendo um grupo fechado, restrito. Achamos que a arte não pode ser pensada do centro para fora; precisa ser trabalhada inicialmente na periferia, nos bairros, no Centro e ter um canal de comunicação. Por isso, a política que está colocada hoje é insuficiente.  

É preciso uma lei mais abrangente, indutora da arte e da cultura. 

Cine Set – Como a Prefeitura pode estimular a iniciativa privada a apoiar e investir na cultura local?  

Gilberto Vasconcelos – Em primeiro momento, precisaremos fazer isso com grande participação estatal sem que as empresas controlem a cultura. Os artistas e pequenas produtoras devem ser incentivados pelo Estado e não por grandes grupos que transformam a cultura e arte em um comércio de massa, controlando, inclusive, a produção artística.  

Queremos incentivar a arte através das escolas, nas periferias, nos pequenos grupos. Para tanto, é preciso construir equipamentos urbanos, como teatro nos bairros, além de ter as escolas abertas para receber os artistas e a comunidade. Nos colégios, os artistas também poderiam realizar apresentações privadas com o público pagando. 

Manaus não tem este equipamento cultural, sendo os poucos existentes localizados no Centro, o que afasta a massa da população do conhecimento da arte. 

Cine Set – Como a Prefeitura de Manaus pode ajudar a descentralizar as atividades culturais para que elas cheguem nas regiões periféricas, especialmente, nas zonas norte e leste da capital? 

Gilberto Vasconcelos – Eu conheço grupos de hip-hop nas periferias de Manaus que são marginalizados, não valorizados como artistas e até considerados como algo menor. A Prefeitura precisa transformar as escolas em locais em que a cultura do bairro seja discutida e as expressões artísticas daquela região encontrem apoio e espaço para poderem se desenvolver.  

A construção de teatro nos bairros ou locais de apresentações culturais também é outro caminho. Assim, podemos ter espetáculos de dança, cinema, música, oficinas de audiovisual e de artes cênicas. Isso acontece, em certa medida, dentro das igrejas, mas, é preciso também ser feito de forma laica para que a população tenha acesso sem a necessidade de pertencer a uma religião.  

Cine Set – Políticas de editais públicos para o setor cultural como, por exemplo, “Conexões Culturais” e arranjos regionais em parceria com a Ancine, serão mantidas? Se sim, como poderão ser aprimoradas? 

Gilberto Vasconcelos – Os artistas reunidos precisam dizer qual o melhor caminho, como está funcionando, o que precisa ser reparado. Há certas leis que não dependem do prefeito, mas, o gestor que está disposto a resolver os empecilhos para o desenvolvimento da arte tem que ser líder e delegar poderes para que as pessoas diretamente envolvidas achem as soluções. 

Uma administração socialista não deve centralizar o poder de decidir na figura de prefeitos e vereadores; a nossa proposta é transferir essa decisão para a população e a classe trabalhadora nos diversos segmentos. 

Cine Set – Artistas amazonenses quando precisam realizar atividades formativas ou cursos, mesmo de curta duração, muitas vezes, precisam sair de Manaus para fazer estas atividades, pois, elas não existem por aqui, sendo inviável para muita gente. Como a Prefeitura pode contribuir neste aspecto formativo do setor? 

Gilberto Vasconcelos – A gente pensa a cultura nascendo do bairro, se expandindo pela cidade, Estado, país e no mundo. É preciso criar mecanismos para que nossos artistas possam participar de formações na área, intercâmbios culturais e até trazer profissionais para Manaus. A população precisa estar inteirada com o que acontece ao redor do planeta e, por isso, eu defendo que o Estado apoie o Conselho Popular dos artistas por meio de medidas específicas.  

Iremos enfrentar dificuldades iniciais porque o Estado está completamente organizado de tal forma que não sobra muito dinheiro. O orçamento da Prefeitura, hoje, é de R$ 42 bilhões, porém, para o volume de induções e incentivos que precisam ser feitos é muito pouco. Gradativamente, vamos precisar criar mecanismos para que a arte se sustente, mas, será preciso um investimento estatal bem grande. 

Cine Set – O senhor pretende ter uma secretaria ou fundação destinada exclusivamente à cultura ou ela estará associada junto a algum outro setor? Por quê? 

Gilberto Vasconcelos – O objetivo é criar um Conselho Popular de Arte e Cultura com o intuito de ser mais democrático. Se houver necessidade por questões legais devido à Lei Orgânica do Município, podemos criar uma Secretaria de Cultura que irá obedecer as determinações do conselho de cultura. 

Por Manaus ser uma cidade grande, podemos ter mais de um conselho do setor, ou seja, termos um conselho de cinema, um conselho de música, entre outros.  

Cine Set – O senhor conhece alguma obra do cinema amazonense? Já assistiu? Tem algum que o senhor mais gosta? 

Gilberto Vasconcelos – Eu já assisti várias, mas, não decoro os nomes. Recordo dos filmes antigos do J.G Araújo, clássicos da nossa cinemateca. Assisti de um outro rapaz, companheiro do PSTU que faz filmes de um minuto. Acho que é o Júnior, Júnior Rodrigues.  

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