Se você aprecia a MPB e a discografia de Chico Buarque, vai lembrar que “Atordoado, Eu Permaneço Atento” é uma das frases célebres da canção que se tornou um ícone da luta contra censura e ditadura vivida no Brasil, “Cálice”.

A sentença também nomeia o documentário de Henrique Amud e Lucas H. Rossi dos Santos selecionado para o 48º Festival de Cinema de Gramado. O filme apresenta a visão do jornalista e ativista dos direitos humanos Dermi Azevedo sobre a ditadura e o Brasil contemporâneo, três décadas após o fim do regime.

O Cine SET conversou com Amud sobre a produção do documentário, a experiência de entrevistar Azevedo e a sensação de ser selecionado para Gramado.

Coloque Chico Buarque para tocar enquanto acompanha a conversa.

Cine SET – Como surgiu a ideia para “Atordoado, Eu Permaneço Atento”?

Henrique Amud – O filme nasceu de uma ideia do Lucas H. Rossi dos Santos, que dirigiu o filme comigo e também foi o responsável pela montagem. O pai dele é amigo de Dermi Azevedo há décadas e o Lucas o conhecia desde criança. Então, ele já tinha um certo conhecimento dessa triste história.

Para mim, no entanto, a ideia começou em 2016 ou 2017, quando o Lucas começou a comentar comigo sobre a trágica história desse ativista dos direitos humanos e sobre como seria importante criar um registro disso. Ele falava com certa urgência, principalmente, pelo que estávamos vendo acontecer na política nacional e pelo estado de saúde do Dermi Azevedo, que é portador da Síndrome de Parkinson.

Cine SET – Como foi o processo de criação do filme?

Henrique Amud – Nós estávamos totalmente tomados pela pesquisa de um longa-metragem que o Lucas H. Rossi está dirigindo, e não tínhamos muita certeza de como ou quando entrevistaríamos o Dermi, nem sequer sabíamos se deveria ser um curta ou um longa. Mas houve um intervalo na pesquisa, que coincidiu com a infeliz eleição do coiso para a Presidência.

Foi quando nós entendemos que não podíamos mais perder tempo, realmente precisávamos registrar essa história e esse personagem o quanto antes. Dias depois fomos para São Paulo e, ainda de ressaca com o resultado das eleições, eu, o Lucas e o nosso diretor de fotografia, Felipe Mondoni, passamos uma noite entrevistando o Dermi.

De volta ao Rio, fomos revendo o material, entendendo o que tínhamos em mãos – a potência do relato – fazendo anotações, cortes, tentativas de condensar três horas de material denso em um curta de 15 minutos. E depois disso, partimos para um longo – e extremamente prazeroso – processo de encontrar o filme através da pesquisa de materiais de arquivo e de explorações sonoras.

A pesquisa de arquivos foi até mais importante do que possa parecer num primeiro momento, porque ela nos fez cair de cabeça no tema e pesquisar além da superfície sobre a ditadura, as torturas, os desaparecidos políticos, o movimento estudantil. Procuramos processos físicos e virtuais no Arquivo Municipal de São Paulo – onde está a documentação do DOPS, no Arquivo Público Municipal do Rio de Janeiro, no Arquivo Nacional e em muitas outras fontes.

Ter contato com inúmeras histórias e imagens grotescas, arquivadas e bem documentadas pelos próprios agentes da Ditadura nos fez ter um entendimento maior não só do que aconteceu com ele, mas com o nosso país. E o caso do Dermi é apenas um entre tantas aberrações jurídicas e de direitos humanos da época.

Munidos com a pesquisa, começamos a experimentar na montagem, procurando diferentes abordagens visuais e sonoras que trouxessem novos significados ao que estávamos ouvindo e sentindo com a intenção de dar novas potências à história. Essa foi a parte mais divertida de todas, pelo processo de tentativa e erro na ilha de edição, no qual inúmeras possibilidades se abriram para nós. A nossa intenção, desde o início, era não fazer um documentário só de “cabeças falantes” e eu espero que nós tenhamos conseguido chegar a um resultado que seja minimamente instigante.

Cine SET – Como funcionou a parceria com Lucas H. Rossi?

Henrique Amud – Eu e o Lucas nos conhecemos na produção do documentário “Como Você Me Vê?”, dirigido pelo Felipe Bond. Desde então não paramos de trabalhar juntos, mas nunca tínhamos dividido a criação e direção de um projeto. Na verdade, eu nem me considero um diretor: foi o Lucas quem me convidou pra codirigir com ele pelo meu background de pesquisa de material de arquivo e por nossas afinidades por alguns materiais e métodos pouco ortodoxos.

Fiquei bastante relutante de assumir esse papel junto com ele. Poderia ter sido horrível, poderíamos ter batido cabeça em inúmeros momentos, em inúmeras decisões estéticas e narrativas. Mas foi tão desafiador quanto prazeroso. Estávamos bem alinhados e um sempre disposto a ouvir o outro.

Como tivemos um processo de edição bastante intuitivo, percebemos que estávamos sempre em boa sintonia sobre o que fazer, o que cortar e o quanto a gente se permitia viajar. O Lucas é um grande diretor e um verdadeiro provocador, então para mim, sendo essa a minha primeira experiência na direção, não poderia ter sido melhor.

Cine SET – Por que falar sobre direitos humanos, ditadura e jornalismo?

Henrique Amud – Em primeiro lugar, o que nos fez querer produzir esse filme foram as histórias de vida do Dermi e do filho dele, Cacá. Mas como todos sabemos, o Brasil foi regredindo nos últimos anos e esse filme que queríamos fazer para que o passado não fosse esquecido, infelizmente, se tornou muito mais atual do que poderíamos imaginar. E o Dermi tem uma linda trajetória como jornalista e ativista dos direitos humanos.

Seria impossível e imprudente focar só nos fatos da sua vida e deixar de fora esses outros assuntos que são tão importantes hoje em dia e dos quais o Dermi tem tanto para falar.

Cine SET – Como você enxerga a importância de discutir a ditadura brasileira, ainda mais sob o viés de uma figura tão emblemática quanto Dermi Azevedo?

Henrique Amud – A história do Brasil é marcada por muitas coisas boas e muitos acontecimentos horrorosos. Nós poderíamos ter entrevistado o próprio Dermi sobre tantos outros assuntos não relacionados à Ditadura e ainda assim sair com um filme instigante.

Não é à toa, entretanto, que a Ditadura Militar é um dos assuntos mais explorados no cinema brasileiro. Até hoje estamos descobrindo novos horrores do que aconteceu naquele período. Essas histórias ainda vêm à tona pelo fato de muitos dos que sofreram naquela época ainda estão vivos e podem relatar suas experiências. É uma ferida profunda que, para um grande número de pessoas, nunca vai sarar. Enquanto isso, muita gente desavisada hoje em dia se faz de surdo e louco, nega o que aconteceu ou tenta justificar por isso ou aquilo, através de memes ou fake news.

Nós tínhamos um objetivo, que era o de preservar a história do Dermi Azevedo e do Cacá. Ao longo do processo, “Atordoado” passou a discutir o mundo atual falando do passado e o Dermi nos deu de presente esse depoimento poderoso.

 

Cine SET – Como foi a experiência de documentar Dermi Azevedo?

Henrique Amud – Foi intenso. O Lucas conhece o Dermi desde garoto então eu não posso falar por ele, mas eu só o vi duas vezes até hoje. No dia em que o entrevistamos e quando voltamos até a casa dele para mostrar o primeiro corte do filme.

Eu tenho encarado esse projeto como uma grande responsabilidade. Não tínhamos ideia de onde o filme seria exibido ou se alguém demonstraria interesse por ele, mas, para mim, era muito importante que o Dermi não se arrependesse de ter perdido o tempo dele dando esse depoimento para nós (risos)

Cine SET – Como o documentário dialoga com o atual momento que a nossa política enfrenta?

Henrique Amud –  Infelizmente, eu acredito que dialoga bastante. Não só pela possibilidade de voltarmos àquele terror institucionalizado e pela quantidade de pessoas que defendem a Ditadura hoje em dia, mas também por inúmeros paralelos de terrores que se perpetuaram no nosso cotidiano, independente de quem governa, em relação à liberdade de informações e aos direitos humanos. Principalmente quando Dermi fala da matança de negros, índios e homossexuais, que nunca cessaram.

Cine SET – Qual momento mais te impactou durante a produção de “Atordoado, Eu Permaneço Atento”?

Henrique Amud – Foram dois momentos: a primeira entrevistar o Dermi no mesmo dia que o conheci. Eu fiz meu dever de casa, fiz a minha pesquisa e conhecia os principais pontos da biografia dele, mas ouvir o relato contado diretamente por ele, além das suas reflexões sobre o mundo em que vivemos, foi muito mais impactante do que eu antecipava. O segundo foi cair na pesquisa e entender que eu sabia muito pouco sobre esse momento da história do Brasil.

Cine SET – Qual foi sua reação ao saber que o curta foi selecionado para o Festival de Gramado?

Henrique Amud – Eu e o Lucas temos uma pequena distribuidora independente chamada Arapuá Filmes (arapuafilmes.com.br). Nosso foco é o gerenciamento de carreira de longas e curtas autorais em festivais de cinema ao redor do mundo e, desde 2017, adquirimos um belo know-how sobre o assunto. A gente acompanha muitas seleções e gosto de pensar que entendemos um pouquinho sobre a curadoria dos principais festivais.

Mesmo assim nenhum de nós dois esperava por essa seleção de Gramado. Nem de longe. Foi uma surpresa completa e muito bem vida, diga-se de passagem. Nada contra o festival ou à sua curadoria, mas é que festivais que englobam ficções e documentários na mesma categoria tendem a dar mais espaço à produções de ficção e o nosso filme não tem sido considerado de fácil digestão por onde passou. Além disso, vemos tantos filmes nacionais incríveis todo ano que participar de uma seleção tão seleta parecia fora do nosso alcance. Enfim, estamos muito felizes e só temos a agradecer à curadoria pela oportunidade única.

Cine SET – Quais são suas expectativas para o Festival?

Henrique Amud – Eu não tenho a mínima ideia do que esperar, sinceramente. Um festival desse porte sendo transmitido na televisão para todo o Brasil é algo que eu nunca imaginei ver, muito menos participar. Como público, eu estou super feliz de poder me debruçar sobre tantos filmes interessantes que, realisticamente falando, eu não tenho certeza se teria a chance de assistir nos cinemas. Como realizador em competição, eu só posso torcer para que a história do Dermi ressoe e atinja o maior número de pessoas possível para, talvez, quem sabe, ajudar a fazer a diferença, por menor que seja. 

E eu também achei FODA termos um curta-metragem totalmente amazonense na competição. Eu conheço pouco do trabalho do Bernardo Ale Abinader, só assisti ao “A Goteira”, mas estou ansioso para assistir “O Barco e o Rio”. O trailer é ótimo. Também quero muito assistir “Bochincho”, com a Raquel Kubeo. Vai ser uma edição bem interessante para nós amazonenses.

Cine SET – Já tem em mente novos projetos?

Henrique Amud – Estou tentando sobreviver à essa pandemia e à esse governo, como qualquer outra pessoa que trabalha com audiovisual no Brasil. No momento estou concentrando minhas energias na Arapuá Filmes e sou roteirista do programa “Tela Viva Pocket News”, um jornal semanal sobre o audiovisual brasileiro produzido pela Bond’s Filmes para o Canal Like, com apresentação e direção do Felipe Bond. Logo mais teremos mais novidades pela Bond’s (bondsfilmes.com.br).

Fora isso, a pandemia foi incrivelmente produtiva para a minha parceria com o cineasta amazonense Ricardo Manjaro (que dirigiu dois dos meus curtas amazonenses preferidos, “Obeso Mórbido” e “O Necromante”). Temos reuniões eventuais para tratar de, pelo menos, três projetos em fase de argumento, dos quais eu espero que, pelo menos, um se concretize nos próximos anos. Tem sido divertido criar à distância e sem qualquer pressão. E seria incrível poder voltar a filmar em Manaus e realizar algo com o Manjaro.

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